Médico do Bangladesh cria ventilador económico a partir de garrafas meias cheias

PorExpresso das Ilhas,17 set 2018 6:04

​Às vezes graves problemas resolvem-se com soluções muito simples. Um médico em Bangladesh descobriu uma forma acessível de tratar a pneumonia infantil, que promete reverter os números dramáticos da doença, nos países de renda baixa. É a prova de que nem sempre é necessária alta tecnologia para resolver os problemas: basta olhar o princípio de funcionamento das coisas.

A pneumonia infantil é, ainda hoje, uma das principais causas de morte das crianças com menos de 5 anos em todo o mundo. Em 2017, 920 mil crianças padeceram desta doença, que em vários países de baixa renda é mesmo a doença mais mortal nessa faixa etária. Isso pode mudar, graças a uma “invenção” do médico bangladês Mohamad Chisti.

Foi logo na primeira noite do seu internato, em Sylhet, que Chisti viu três crianças morrerem de pneumonia. Todas elas estavam a receber o tratamento recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para países de baixa renda. Recebiam oxigénio através de uma máscara facial ou através de tubos colocados perto de suas narinas, usando a chamada técnica básica de “baixo fluxo”. Não estava a resultar.

No seu país, o Bangladesh, a pneumonia é responsável por 28% da mortalidade infantil (muito mais do que os 16% a nível mundial). Isso explica-se com o facto de a pneumonia ser particularmente violenta em criança desnutridas. E no Bangladesh a taxa de desnutrição é elevada, como observa a The Economist numa reportagem que divulga o evento do Dr. Chisti.

Há duas razões para a desnutrição ser um elemento preponderante no quadro da pneumonia. Primeiro, o sistema imunitário fica fragilizado, abrindo espaço às infecções. Segundo, para manter os níveis de oxigénio as crianças respiram mais rápido, o que consome muita energia. Muitas não aguentam o esforço.

É precisamente nessa questão do esforço para respirar que o dispositivo de Chisti vai incidir, pois permite reduzi-lo - algo que o “baixo fluxo” recomendado pela OMS não faz. Além disso, é barato, nada tem a ver com os ventiladores que são usados nos países ricos e que costumam custar à volta de 15 mil dólares.

Inspiração

Foi durante uma viagem à Austrália que o Dr. Chisti encontrou inspiração para criar o seu dispositivo, recorda a The Economist. Nessa visita, viu um tipo de ventilador chamado CPAP (do inglês continuous positive airway pressure) de bolhas, usado para ajudar bebés prematuros a respirar. Este ventilador canaliza a respiração exalada do bebé através de um tubo que tem o outro extremo imerso em água. A respiração exalada emerge do tubo como bolhas, e o processo de formação de bolhas provoca oscilações de pressão no ar no tubo. Isso retorna aos pulmões da criança. A troca de gases melhora e o volume dos pulmões aumenta – e assim a respiração torna-se mais fácil.

Estes CPAP por borbu­lhamento custam menos de metade do que os ventiladores convencionais: 6 mil dólares. Contudo, esse valor é ainda muito elevado para os hospitais de países como o Bangladesh.

Este contacto com o CPAP abriu caminho a uma outra “inspiração” que surgiu quando o doutor encontrou uma garrafa de champô descartada que continha bolhas. Ao ver as bolhas, Chisti percebeu que provavelmente conseguiria algo que funcionasse da mesma forma.

Assim, o que ele fez foi usar um suprimento de oxigénio (que é necessário para o método de fornecimento de oxigénio de baixo fluxo), alguns tubos e uma garrafa de plástico cheia de água. E funcionou.

Testando

O dispositivo foi testado noHospital de Daca do Centro Internacional de Pesquisa em Doenças Diarreicas, onde trabalha e, em 2015, Chisti e os seus colegas publicaram os resultados do estudo.

Ficou provado que o método tinha potencial e hoje é já usado por rotina nessa entidade de saúde. Os números são animadores: o número de crianças que morrem de pneumonia caiu em três quartos, o que significa que a taxa de sobrevivência no Hospital de Daca está hoje quase em par com a de crianças tratadas em instalações do “mundo rico”, usando ventiladores convencionais.

À The Economist, Dr. Chisti garantiu ainda que, além de salvar vidas, o seu aparelho cortou em quase 90% os custos do tratamento de pneumonia no hospital.

Fazendo as contas: os materiais usados para esta versão do ventilador CPAP por borbulhamento custam 1.25 dólares. E é consumido muito menos oxigénio do que no ventilador convencional. Em 2013 o hospital havia gasto 30 mil dólares em suprimentos de oxigénio. Em 2017, gastou 6 mil.

Espalhando

O próximo país a testar este novo ventilador deverá ser a Etiópia, onde o Dr. Chisti e a sua equipa estão preste a começar os testes. E provavelmente este será apenas o inicío da expansão.

O que é a pneumonia?

A pneumonia é um resultado de infecção bacteriana, viral ou fúngica dos pulmões. Os seus sintomas de falta de ar resultam de um acúmulo de pus nos alvéolos (pequenos sacos, encontrados nas extremidades das vias aéreas ramificadas dentro dos pulmões). Essa penetração de um agente infeccioso ou irritante no espaço alveolar, onde ocorre a troca gasosa, impede a entrada e saída dos gases. Não havendo troca de troca de oxigênio por gás carbônico, ou seja, se os alvéolos param de fazer o seu trabalho, o paciente sufoca.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 876 de 12 de Setembro de 2018.

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Autoria:Expresso das Ilhas,17 set 2018 6:04

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  17 set 2018 6:04

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