Segundo noticiou a Reuters, o estudo, publicado esta quarta-feira na revista Nature, analisou a base genética do bipedalismo através de amostras de tecidos embrionários de humanos e de outros primatas. Os investigadores descobriram duas inovações que, há milhões de anos, remodelaram a pélvis dos nossos antepassados.
A primeira alteração ocorreu durante o desenvolvimento embrionário, permitindo que o ílio — o osso superior da pélvis — deixasse de ser alto, estreito e plano, como nos outros primatas, para se tornar mais curto, largo e curvado. Esta transformação deu maior estabilidade ao corpo, facilitando a marcha e a corrida na posição vertical.
A segunda inovação foi um atraso e um reposicionamento no processo de ossificação da pélvis durante o desenvolvimento embrionário. Essa mudança não só manteve a forma vantajosa do ílio como também assegurou um canal de parto suficientemente amplo para permitir o nascimento de bebés com cérebros maiores, acompanhando a evolução da capacidade craniana da espécie.
“Sem estas mudanças, a marcha humana provavelmente não teria sido possível, e aumentos subsequentes no tamanho do cérebro seriam difíceis de imaginar”, afirmou Terence Capellini, biólogo evolutivo da Universidade de Harvard e autor sénior do estudo, citado pela Reuters.
O bipedalismo libertou as mãos para novas funções, como a utilização de ferramentas, transporte de materiais, criação artística e cuidados com as crianças. Além disso, a postura erecta melhorou a visão do ambiente e reduziu a exposição directa ao sol, ajudando o corpo a arrefecer de forma mais eficiente em climas quentes.
Segundo a investigadora Gayani Senevirathne, também da Universidade de Harvard, esta forma de locomoção é única entre os primatas vivos. Os chimpanzés, por exemplo, conseguem andar sobre duas pernas ocasionalmente, mas dependem sobretudo da locomoção quadrúpede. Já o bipedalismo humano é altamente eficiente, permitindo percorrer longas distâncias com baixo gasto de energia, ao contrário de outros primatas.
De acordo com a Reuters, os cientistas identificaram mais de 300 genes envolvidos nestas inovações, incluindo três com papéis especialmente relevantes. “Não encontrámos um ‘gene do bipedalismo’. Foram vários pequenos interruptores de DNA a trabalhar em conjunto”, explicou Senevirathne.
O fóssil mais antigo de uma pélvis da linhagem humana, datado de há cerca de 4,4 milhões de anos e descoberto na Etiópia, pertence à espécie Ardipithecus ramidus, que já combinava características de locomoção bípede e de escalada. Mais tarde, fósseis como o de “Lucy”, um exemplar de Australopithecus afarensis com cerca de 3,2 milhões de anos, mostraram traços pélvicos ainda mais próximos dos humanos modernos.
Capellini sublinhou que a remodelação do ílio já estava estabelecida quando estas espécies habitaram o continente africano. Posteriormente, há cerca de 1,6 milhões de anos, a segunda inovação evolutiva terá surgido em paralelo com o aumento significativo do cérebro humano.
“Desta forma, a pélvis conseguiu crescer e manter uma forma crucial para a marcha erecta, ao mesmo tempo que preservava um canal de parto capaz de permitir o nascimento de bebés de cérebro grande”, concluiu o investigador, citado pela Reuters.