Maio é um grande país em miniatura, diz Adalberto Silva

PorAntónio Monteiro,8 set 2013 0:09

Expresso das Ilhas – Apontamentos da história da ilha do Maio é a sua primeira incursão no território da história. Quais foram os seus principais argumentos para dar à estampa este livro?

 

Adalberto Silva – Primeiro porque desde tenra idade que me interesso pela conhecimento da história da minha ilha e da minha comunidade original. Também tendo em conta alguns elementos que despertam alguma atenção e alguma curiosidade do passado histórico da ilha do Maio, nomeadamente o património construído que comparado à dimensão populacional teria de ter alguma explicação histórica como a majestosa Igreja Matriz da ilha do Maio e o Forte de São José. Não devemos esquecer-nos que apenas em muito poucas ilhas foram construídas fortificações. Se não me engano foram construídas apenas em Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha) e no Maio e mesmo na Praia não foi construída nenhuma fortificação. Portanto temos fortificações apenas em Santiago e Maio. Sem desconsiderar o Fortinho de São Vicente, mas que tem uma outra história. Portanto estes elementos despertam alguma curiosidade sobre o passado histórico da ilha do Maio e algum dinamismo pretérito que não se verifica hoje. Para além daquela questão natural de todos nós que para nos conhecermos melhor temos de conhecer o nosso passado pessoal e da comunidade em que estamos inseridos. Desde a tenra idade que me interessei pelo conhecimento da história da minha ilha e fui coligindo apontamentos mais diversos sobre esta matéria. Um outro ponto é que não existe até ainda nenhuma obra que particulariza a história do Maio. É uma lacuna que eu constatei desde há muito tempo, mas fiquei aguardando que especialistas da área tratassem do assunto. Como não surgiram e eu já tinha alguns apontamentos que pudessem suscitar algum interesse, resolvi colmar essa lacuna e partilhar os meus apontamentos com os meus patrícios e com pessoas que se interessem pelas coisas da história.

 

Sabe que hoje em dia só o interesse não chega para se abalançar numa determinada área do saber. Não teme a crítica?

Temos de ter em conta que os livros mais antigos que nós temos referentes à história de Cabo Verde foram escritos também por não especialistas da área da história, portanto, por não historiadores. Temos os ‘Subsídios para a história de Cabo Verde e da Guiné’ de Senna Barcellos que era um capitão do exército português. Temos António Carreira que também não era formado na área da história. Só ultimamente é que as pessoas com formação específica têm publicado livros sobre a história. Como disse, constatando essa lacuna para a ilha do Maio, achei que eu podia dar o meu contributo, mas sem pretensão de escrever um livro de história. São apontamentos organizados com o único intuito de preencher a lacuna existente. Sem esquecer que o economista tem uma veia histórica. Logo no princípio da nossa formação inteiramo-nos da história económica geral, porque estudamos uma ciência humana que tem a ver alguma coisa com a história. Portanto há uma ligação muito forte entre as duas ciências sociais.

 

Não é a primeira mono­grafia sobre a ilha do Maio?

Não, não é a primeira monografia. Há uns cadernos publicados pelo saudoso António Carreira. Até porque o meu livro é, em parte, dedicado à memória de António Carreira que é uma pessoa que conheci quando esteve cerca de 40 dias na ilha do Maio hospedado numa casa cedida pela minha mãe. Lembro-me dele quando ele esteve nessa altura no Maio para produzir dois cadernos. Um sobre a exploração das salinas do Maio e outro sobre os aspectos da sociedade maiense no final da década de 60, princípios de 70.

 

O período áureo da ilha do Maio

 

Da história da ilha do Maio o que é que se pode perspectivar para o futuro económico e social da ilha?

Antes de mais temos de saber que devido ao comércio do sal o Maio teve um período áureo em que se comunicava directamente com os outros países, sem interferência da ilha maior, Santiago. A ilha do Maio teve um passado em que o comércio do sal foi muito importante e foi nesse período que se construiu o seu importante património histórico como a Igreja Matriz e o Forte de São José. É evidente que hoje o sal não tem a importância que teve outrora, mas dá um alento para alimentar alguma esperança dos maienses para um futuro também promissor. Neste caso, o que se vislumbra é o seu desenvolvimento a nível do sector turístico. Portanto, se o Maio já teve um período áureo, quer dizer que pode vir a ter um período áureo, daí a esperança.

 

Quase que entrava na tese do eterno regresso.

Sim, o regresso do período áureo, mas num outro patamar e tendo provavelmente o turismo como alavanca.

 

Escreve no seu livro que Maio é um grande país em miniatura. Em que factos históricos baseia a sua afirmação?

Os dados históricos apontam que, logo a seguir a Santiago, o Maio já foi a ilha que proporcionava maiores receitas públicas ao arquipélago. No período áureo do comércio do sal, Maio foi uma das ilhas de maior rendimento económico do país. 

 

Ligação com Santiago

 

Historicamente Maio esteve sempre em estreita ligação comercial com Santiago. O que é que este dado histórico pode perspectivar em termos do debate agora relançado sobre a regionalização?

A relação histórica com Santiago processou-se em três períodos. O primeiro período acontece logo nos primeiros séculos após o descobrimento da ilha, até porque o povoamento foi feito com escravos dos moradores de Santiago. No período áureo do comércio do sal, quando Maio tinha ligação directa com o mundo, tornou-se mais independente de Santiago. Mas com a crise deste comércio, a ilha vira-se outra vez para Santiago com relações comerciais exclusivas. Portanto, temos nos primórdios da colonização uma ligação forte com Santiago, temos um segundo período em que Maio está ligada directamente ao mundo, com consulados e navios de vários países e depois do período áureo com a crise do comércio do sal, vira-se outra vez para Santiago. Inclusive com declíneo do comércio do sal a própria ilha entra em crise a ponto de se extinguir o concelho do Maio e a ilha integrada durante 25 anos  no concelho da Praia.

 

O sal como elemento marcante de toda a história do Maio

 

Dedica todo um sub-capítulo ao comércio do sal na ilha do Maio. Qual foi o real alcance deste comércio e porque é que entrou em decadência?      

Dedico um sub-capítulo ao sal, porque considero o sal como o elemento mais marcante de toda a história da ilha do Maio. Primeiro, nos primórdios com os barcos portugueses e depois com os navios corsários e piratas, mas também devido ao sal. Sempre por causa do sal. No tempo dos corsários e piratas os navios iam aportar ao Maio para fazerem aguada e abastecerem dos produtos da pecuária, mas também do sal porque ajudava a conversar a carne e outros derivados da pecuária. Na altura, como Santiago era o centro do comércio da região, os navios dos corsários e piratas iam aguardar no Maio para assaltar os barcos que faziam a ligação entre o continente africano e a Ribeira Grande de Santiago. Também por causa do sal, os ingleses assenhoraram-se da ilha. De resto, foram os primeiros a explorar o sal do Maio. Depois disso, quando as autoridades portuguesas  despertaram para o interesse do comércio do sal, tiveram de tomar medidas, criando condições de defesa da ilha. Nessa altura foi construída o primeiro forte a Norte do Porto Inglês e, depois já no século XIX, construi-se um outro a Sul. Sempre em defesa do sal que, de facto, foi um elemento marcante em todo o percurso histórico da ilha.

 

Quando é que se dá o declínio?

A maior parte da exportação do sal era feita para a América do Sul, sobretudo Brasil e Argentina. A partir do momento em que o Brasil para fomentar a sua própria indústria salineira nascente aumentou o preço de importação do sal, começou o declínio do comércio do sal do Maio.

 

Cabo Verde importa hoje sal. Para um maiense po­de parecer um absurdo.

Cabo Verde importa sal, mas sal de mesa, o refinado. Para a cozinha continuamos a utilizar o nosso sal…

 

Podemos também refinar o sal, já que não exige tecnologia por ali além.

De facto podemos fazer e se não fazemos não sei porquê, porque não me parece que seja uma indústria complicada ou muito exigente em termos de capital.

 

Maio é hoje uma das ilhas com menor dinamismo económico

 

Maio foi considerada uma das ilhas mais rendosas do arquipélago. Isso já faz parte da história, ou é possível voltar aos tempos áureos?

Neste momento é história, porque como disse, os dados históricos apontam Maio como a segunda ilha de Cabo Verde em termos de criação de rendimentos. Hoje estamos longe dessa situação. O Maio é hoje uma das ilhas com menor dinamismo económico. Estamos agora no momento de expectativas, à espera das promessas feitas. Como no passado, existem potencialidades e há uma grande expectativa à volta do turismo que poderá catapultar  o Maio para outros patamares de desenvolvimento.

 

 Acontece que a indústria turística é mais exigente que a comercialização do sal. É isso que faz retardar o grande arranque do sector turístico?

Sim, o turismo é transversal. O tipo de produto que o Maio pode oferecer é de sol e praia e é aquilo que está a acontecer nas outras ilhas planas como Sal e Boa Vista. Esta ilha registou nos últimos anos um grande dinamismo no sector turístico e é o que se espera para o Maio e aprendendo com estas duas ilhas que já arrancaram com o turismo.

 

Em todo o caso o sector turístico no Maio ainda não levantou o voo. Quais as razões?

É sobretudo devido às condições de acessibilidade à ilha, nomeadamente a carência  de infraestruturas portuárias e aeroportuárias. É preciso criar essas condições para que haja atracção de investimentos no sector do turismo. Para que o investimento externo se realize é preciso criar as condições de acesso via mar e aéreo.

 

Estranhei de certa forma que tenha incluído num livro de história um capítulo sobre as curiosidades da ilha do Maio. Qual foi o propósito?

Bom, não é um capítulo, mas um à parte. O meu livro tem estas duas partes. É que não apresento os meus apontamentos de forma avulsa. São arrumados dentro de uma perspectiva histórica nos vários domínios: económico, demográfico, o ciclo do sal, etc. e tenho essa parte de curiosidades através das quais passo mais informações relativamente à história da ilha.

 

Então podia citar uma curiosidade?

A primeira curiosidade é que encontramos em vários documentos a designação da carne bovina do Maio como a melhor do arquipélago. Outra curiosidade é que o Maio e a Boa Vista eram considerados cemitérios de barcos, porque ocorreram nas duas ilhas muitos naufrágios.

 

Há também um breve capítulo dedicado aos homens notáveis da ilha do Maio. O que ressalta à vista é que é descendente de muitas dessas ilustres figuras.

(Risos). De todos eles mesmo. É uma coincidência incrível que todos aqueles que eu destaco como os mais notáveis, são meus antepassados. No fim deste sub-capítulo escrevo: ‘registo, com indisfarçável orgulho, o facto de pertencer à linhagem de todos esses notáveis maienses, uns pelo lado paterno (a família Cardoso), outros pelo lado materno (as famílias Évora e Bento)”. É uma coincidência feliz e não podia deixar passar em branco este facto.

 

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:António Monteiro,8 set 2013 0:09

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

pub.
pub
pub.

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.