O primeiro recenseamento populacional na Bósnia-Herzegovina desde 1991 vai decorrer a partir de hoje e até 15 de Outubro, com os principais partidos nacionalistas a tentarem mobilizar as respectivas comunidades para determinarem o futuro político da ex-república jugoslava.
As elites políticas e religiosas das três principais comunidades do país, legitimadas pelo acordo de Dayton de Novembro de 1995 que pôs termo a três anos e meio de guerra civil – bosníacos (muçulmanos), sérvios (ortodoxos) e croatas (católicos) –, exortam desde há meses os seus habitantes a declararem a sua “filiação étnica”.
Uma vez mais, e como é tradição nesta região multiétnica do sudeste da Europa, uma simples operação estatística tornou-se numa questão política, com os resultados a serem decisivos para o futuro de um Estado onde o quadro constitucional favorece as fracturas identitárias.
Desde finais de 1995, e na sequência dos acordos de paz negociados na base militar de Dayton, no estado norte-americano do Ohio, que bosníacos, sérvios e croatas foram legitimados como os povos “constitutivos” do país, partilhando desde então os diversos níveis de poder.
A Bósnia foi então dividida em duas entidades, a Federação bósnia (croato-muçulmana), e a Repúblika Srpska (RS), zonas etnicamente homogéneas com governos próprios e pouco dependentes de um frágil executivo central e de uma presidência tripartida, e rotativa, fixada em Sarajevo.
Após uma guerra interétnica com um balanço de 100 mil mortos e 2,2 milhões de refugiados e deslocados, a população actual é calculada em 3,8 milhões. No último recenseamento, em 1991, quando a Bósnia ainda integrava a extinta federação jugoslava, a república contava com 4,4 milhões de habitantes, 43,5% de muçulmanos, 31,2% de sérvios e 17,4% de croatas, par além de outras populações “minoritárias”.
A liderança sérvia bósnia parece preparar-se para responder aos resultados do censo, que devem confirmar a “limpeza étnica” registada durante a guerra, e recordar que o estudo “demonstrará o desaparecimento dos sérvios da Federação bósnia, em particular de Sarajevo”, uma forma de referir que a “limpeza étnica também atingiu” esta comunidade.
No entanto, os bosníacos poderão deparar-se com um dilema, por não saberem se devem declarar-se bosníacos, muçulmanos (como na época da Jugoslávia federal) ou bósnios, isto é, um cidadão da Bósnia sem conotação étnica.
“A mistura destes três temas semeia a confusão entre os bosníacos”, referiu, citado pela agência noticiosa AFP, o sociólogo bosníaco Senadin Lavic, que denuncia uma “impostura” imposta à sua comunidade para ser “diluída em três grupos” e perder a importância em termos de percentagem.
A Constituição local apenas reconhece como muçulmanos os que se declararem ‘bosníacos’, um nome imposto pela elite intelectual local durante a guerra interétnica, mas que não é unânime nesta comunidade.
Desta forma, e com este recenseamento, receiam-se as consequências de um resultado que vai esclarecer as alterações demográficas registadas durante o conflito, num país onde o desemprego ultrapassa os 40% e o salário médio ronda os 400 euros.
Mas para além das divisões étnicas, admite-se que 20% da população recuse “filiar-se” nos grupos étnico-religiosos e se declare apenas bósnia (cidadãos da Bósnia). De acordo com a Constituição, serão incluídos no grupo designado “outros” (onde também se incluem os ciganos ou judeus locais), com direitos políticos mais reduzidos.
Assim, diversos movimentos de cidadãos promoveram iniciativas para terminar com a actual “discriminação dos ‘outros’”, e promover a alteração do actual sistema político.
Em 2009 a Bósnia foi condenada pelo Tribunal europeu dos direitos humanos por discriminação face aos cidadãos que não se declaram bosníacos, sérvios ou croatas, e a quem são vedados diversos cargos do poder, mas a Constituição não foi alterada.
Outro dos problemas vai residir na organização do censo populacional entre a diáspora bósnia, calculada em 1,3 milhões de pessoas. Um processo complexo e que segundo uma responsável desta comunidade na Austrália “representa a melhor forma de apagar a diáspora da população bósnia”.
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