Morreu Gene Sharp, mentor das revoluções de veludo

PorSara Almeida,1 fev 2018 12:56

Gene Sharp
Gene Sharp

O que têm em comum a Primavera Árabe, resistência birmanesa, movimentos dissidentes da Ucrânia, o Occupy, e ainda Luaty Beirão, em Angola, entre muitas outras “revoluções” não violentas? Todas elas foram inspiradas na obra de Gene Sharp, mentor das chamadas revoluções de veludo, que faleceu no domingo aos 90 anos.

Antigo professor de ciência política, de Harvard, Sharp inspirou, como referido, movimentos dissidentes da Ucrânia, da Estónia, da Bósnia e posteriormente da Tunísia e do Egipto.

Neste último, explicou Ahmed Maher, do Movimento da Juventude 6 de Abril (um movimento oposicionista egípcio que teve um papel fundamental na deposição de Hosni Mubarak) que, a sua organização teve o primeiro contacto com a obra de Sharp quando estudava o exemplo do Movimento sérvio Otpor. Otpor!, que significa resistência, foi um movimento de oposição nascido em 1998, em Belgrado, contra as leis repressivas do governo de Slobodan Milosevic. Entre as suas actividades, inspiradas nas teorias de desobediência civil de Sharp, encontra-se, por exemplo, a exposição de uma esfinge de Milosevic que os transeuntes podiam perfurar, mediante pagamento de um dinar. Teatro de rua e pavimentos pintados com pegadas vermelhas (alegadamente o sangue derrubado por Milosevic) foram outras actividades usadas para passar a mensagem do movimento.

Uma análise da BBC, datada de Maio de 2000, concluía que apesar de estas actividades parecerem frívolas, as campanhas da Otpor tinham conseguido dissipar o medo entre os opositores do governo, impulsionando-os para a mudança.

São acções como estas que Gene Sharp inclui nos seus "198 Métodos da Acção Não-violenta", distribuídos como panfletos em várias destas “revoluções”.

De entre os seus livros dos o mais conhecido é "Da Ditadura à Democracia - Um sistema conceptual para a libertação" (disponível para download, em 24 línguas no site do Instituto Albert Einstein - http://www.aeinstein.org/). Nesta obra, há um apêndice que inclui os 198 Métodos da Acção Não-violenta, que aliás está também incluído em outras obras.

Gene Sharp-perfil de um ideólogo trans-político

Apesar de não ter sido um revolucionário, mas sim um teórico, em 1989, Sharp voou para a China para testemunhar os protestos na Praça Tiananmen. Em 1990, entrou escondido num acampamento rebelde na Birmânia.

Em 2007, e segundo documentos revelados pelo WikiLeaks, a Birmânia acusou-o ser parte de uma conspiração para detonar manifestações com vista a "derrubar o governo." E o presidente Hugo Chavez assegurou aos venezuelanos que Sharp era uma ameaça à segurança nacional.

Em 2008, o Irão acusou-o de ser agente da CIA, responsável pela infiltração da América em outros países. Nos protestos iranianos contra as fraudes nas eleições de 2009, vários manifestantes foram presos. Conforme noticiado pelo The Tehran Times "de acordo com a acusação, os detidos confessaram que a agitação pós-eleitoral foi planeada com antecedência e o plano era seguir o calendário da revolução de veludo. Mais de 100 fases, dos 198 passos de Sharp, foram implementadas."

Pai dos estudos na área da acção estratégica não-violenta , como lhe chamou Stephen Zunes (Universidade de San Francisco), Gene Sharp nasceu em Ohio, no dia 21 de Janeiro de 1928. Doutorou-se em Teoria Política na Universidade de Oxford e é professor Emérito na Universidade de Massachusetts (em Dartmouth). Foi investigador no Centro de Assuntos Internacionais na Universidade de Harvard, cargo que desempenhou durante 30 anos.

Em 1953-54 foi preso, durante nove meses, por protestar contra o recrutamento de jovens para a guerra da Coreia.

Em 1960 edita o seu primeiro livro: Gandhi Wields the Weapon of Moral Power: Three Case Histories. Albert Einstein escreve o prefácio.

Foi professor de Peter Ackerman, o fundador do Centro Internacional sobre Conflitos Não-Violentos.

Em 1983, funda o Instituto Albert Einstein, uma entidade que se dedica a "promover, a nível mundial o estudo e uso estratégico da acção não violenta em casos de conflito", conforme se lê na apresentação institucional.
Foi nomeado para o prémio Nobel da Paz em 2009, no mesmo ano em que o seu conterrâneo.

Morreu este domingo aos 90 anos, mas o óbito do norte-americano só foi noticiado esta quarta-feira. De acordo com o Instituto Albert Einstein, faleceu em paz, na sua casa em East Boston.

O legado

Marchas, as vigílias eram algumas das suas armas. Aliás, Sharp defendia, que "lutar com violência é lutar com a melhor arma do inimigo" (do ditador).

Assim sendo, o teórico tenta em primeiro lugar perceber a natureza e as formas de luta não violentas e as suas potencialidades. Como base para as suas teorias, analisa exemplos históricos, como as acções de revolucionários como Gandhi, as revoluções não violentas, as lutas pelos direitos civis, os boicotes económicos, e afins.

Depois, expõe os métodos mais eficazes para derrubar uma ditadura, com o mínimo de baixas possível. Antes de qualquer outro passo, é necessário reflectir e conceber, meticulosamente, um plano global de acção estratégica para a libertação. O povo oprimido tem de ganhar confiança e perder o medo.

A submissão e a cooperação são os pontos-chave onde assentam os regimes totalitários. Sem obediência, um governo não se consegue manter, e "esta nova percepção do poder significa que a desintegração deliberada de uma ditadura, sim, é possível."

Todas as ditaduras têm pontos débeis e Sharp avança com vários exemplos nas suas obras, destacando, no entanto, que cada luta para derrubar um regime terá de ser diferente porque não há duas situações iguais. Em todos os casos, contudo, as acções devem ser massivas.

As Revoluções de Veludo presentes e passadas, que se basearam no trabalho teórico de Sharp, têm mostrado a potencialidade da luta não-violenta.

Mas o que é então a acção não-violenta conforme definida por Sharp. Diz o teórico em "Poder, Luta e Defesa" que “é um termo genérico que cobre dezenas de métodos específicos de protesto, não-cooperação e intervenção; em todos eles os activistas dirigem o conflito fazendo - ou recusando-se a fazer - certas coisas sem o uso da violência física. Portanto, como técnica, a acção não-violenta não é passiva. Ela não é inércia. É acção, que não é violenta."

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Autoria:Sara Almeida,1 fev 2018 12:56

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  1 fev 2018 12:56

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