Jesus negro no Carnaval brasileiro motiva críticas e ameaças

PorExpresso das Ilhas, Lusa,22 fev 2020 9:06

​Jesus negro, indígena, defensor das mulheres e contra a opressão será o tema do desfile da escola de samba Mangueira, uma das mais tradicionais do Rio de Janeiro, no Carnaval, facto que motivou críticas e ataques de ódio no Brasil.

Para Henrique Vieira, um pastor evangélico que representará uma das faces de Jesus no desfile, a biografia de Cristo contada em forma de enredo carnavalesco da Mangueira, cujo nome foi inspirado num versículo da bíblico "A verdade vos fará livre" e que mostrará a imagem de Cristo como uma pessoa negra, incomoda por causa do racismo estrutural do país.

"Jesus negro, pobre, incomoda no Brasil por causa do racismo. O racismo estrutural gera este tipo de rejeição. Não é nada fácil. Eu quando era criança, na escola bíblica, aprendi que a cor do pecado é preta. O meu pai é negro e a minha mãe é branca. Eu chegava a casa, com 5 anos de idade, e dizia à minha mãe que não queria ser da cor do meu pai", afirmou Vieira, em entrevista à agência Lusa.

O racismo "é histórico, é institucional, está na televisão, está na rádio, nos grandes meios de comunicação, está nas políticas públicas, na legislação, nos discursos, na falta de representatividade".

"É uma ferida aberta que sangra até hoje e que produz no próprio povo uma visão contra si. O Jesus negro incomoda porque ele vai [tocar] na ferida mais profunda da história do Brasil", acrescentou.

O pastor evangélico lembrou que a imagem de Jesus negro, além de ser mais coerente do ponto de vista da história da Palestina e dos judeus, que no primeiro século não eram brancos e tão pouco tinham olhos azuis como a representação de Cristo na Europa instituída séculos depois da sua morte, gerou rejeição de pessoas e de núcleos auto-declarados conservadores porque simboliza de um contrapoder que se opõe aos privilégios dos ricos e brancos no Brasil.

Dentro desta linha de argumentação, Vieira avaliou que o tema do Carnaval da Mangueira é importante porque defende o valorização da população negra e mulata, que segundo últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão de pesquisa e estatística do Governo brasileiro, é maioritária (54% da população).

Desde que o enredo da Mangueira foi anunciado, no ano passado, grupos e pessoas que dizem ser conservadoras disseminam textos e vídeos com boatos, críticas e até mesmo ameaças contra a escola de samba, associando o desfile a um possível ato de blasfémia contra a fé cristã.

Um dos exemplos mais famosos é uma petição promovida pela organização católica Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, na rede social Facebook, que teve milhares de assinaturas.

Depois de ter aceitado participar no desfile, Vieira contou que se tornou alvo de ataques de ódio na internet. Ele também foi criticado publicamente numa carta assinada por pastores da Assembleia de Deus e de igrejas baptistas, que o acusaram de ser militante de esquerda com intenções políticas.

Sem se dobrar às críticas, Vieira defendeu que a Mangueira irá levar ao Sambódromo da Marques de Sapucaí (local onde acontecerá o desfile), o verdadeiro Jesus Cristo, tal como ele é retratado na Bíblia.

"A Bíblia, especialmente os livros de Mateus, Marcos, Lucas e João, falam de um Jesus nascido em Belém, criado em Nazaré, que viveu com os pobres, com os marginalizados, com as pessoas que eram amaldiçoadas pelo fanatismo religioso", afirmou o pastor evangélico.

"Jesus de Nazaré denunciou a acumulação de riquezas, criticou o poder romano, amou incondicionalmente, perdoou, acolheu, não condenou, foi morto executado, foi alvo de um ódio instituído e na mensagem e memória dos Evangelhos ainda deixou a própria morte para ressurgir. Aquilo que a Mangueira irá apresentar é uma leitura coerente e bem feita deste Jesus, dos textos dos Evangelhos", acrescentou.

Vieira explicou que o enredo de Carnaval da escola do Rio de Janeiro, conhecida pelas cores verde e rosa, pretende fazer uma conexão entre os corpos oprimidos ao longo da História para mostrar que Jesus Cristo, pela mensagem que pregou e pela vida que levou, está directamente conectado com eles.

"Por isto o samba enredo [música cantada e tocada durante o desfile] diz rosto negro, sangue índio, corpo de mulher. Esta é a tónica da Mangueira. O corpo de Jesus aparece nestes corpos que foram oprimidos ao longo da história. Quer ver o rosto de Jesus olha para este povo que acorda cedo, pega o trem lotado, o autocarro lotado, que luta para sobreviver", frisou.

Para o pastor, as faces de Jesus são sempre relacionadas com o povo, os pobres, os pequeninos da história e as pessoas maltratadas e alvo de preconceito.

"O que a Mangueira vai mostrar é o que a Bíblia mostra, que Jesus se colocou prioritariamente ao lado destas pessoas (...). Isto acaba por incomodar porque a face hegemónica de Jesus é eurocêntrica, de um estatuto de privilégio e de poder, que aliás, é uma face muito ignorante de quem morreu pelos pobres e foi executado pelos poderosos", disparou.

Sobre a sua parte favorita do samba enredo que será levado ao Carnaval do Rio de Janeiro, Vieira citou o verso "não tem futuro sem partilha, nem Messias de arma na mão".

"Este trecho do samba enredo espero que seja o grande salto pedagógico que o desfile nos vai dar, espero que o nosso povo possa se lembrar de que não tem futuro sem superação da desigualdade", comentou, desafabando: "Este país é brutalmente desigual".

"[Também] 'não tem Messias de arma na mão' porque este é um país que tem sido tomado pelo discurso de ódio, vingança, violência, justiça pelas as próprias mãos, com um Presidente que elogia torturador, zomba das mulheres, dos negros e faz arminha [sinal de arma de fogo] com a mão ao mesmo tempo que faz o sinal da cruz", concluiu.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,22 fev 2020 9:06

Editado pormaria Fortes  em  22 fev 2020 9:17

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