Alemanha enfrenta "enorme transformação" na política externa

PorExpresso das Ilhas, Lusa,10 mar 2022 8:22

A verba extraordinária de 100 mil milhões de euros, anunciada pelo governo alemão, para equipar as forças armas é o reconhecimento da necessidade de "mudanças significativas" e uma "enorme transformação" na política externa, consideram analistas.

A reviravolta foi anunciada três dias depois da Rússia ter invadido a Ucrânia, tendo o chanceler Olaf Scholz indicado ainda que o país vai aumentar o investimento anual em defesa para mais de 2% do produto interno bruto (PIB).

"Estamos a testemunhar uma grande transformação da política externa alemã. Durante muito tempo, os alemães pensaram que o poder militar estava obsoleto. A guerra de Putin contra a Ucrânia prova que não é esse o caso", disse Rafael Loss em declarações à agência Lusa.

Para o coordenador de dados pan-europeus do Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR na sigla em inglês), a "Bundeswehr" (Forças Armadas alemãs) passou por 30 anos de cortes orçamentais e má gestão, que resultaram em atrasos "em vez de prontidão para o combate".

"Agora há uma necessidade urgente de corrigir essas deficiências e o fundo especial de 100 mil milhões de euros para investimentos estratégicos, que visem a prontidão e modernização, pode ajudar a Alemanha", considerou.

Florian Schöne acredita que para se falar numa "revolução" da política externa, o aumento dos gastos com a defesa deve ser "sustentado", faltando para isso leis necessárias que ainda não estão em vigor.

"Vemos que a necessidade de mudanças significativas foi reconhecida dentro do governo alemão (...) Espera-se que o impacto seja substancial", salientou à Lusa o tenente-coronel, da divisão de Segurança Internacional do SWP, o Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança.

Ainda assim, Schöne lembra que "não estamos a falar de um alargamento de forças".

"A ideia é cumprir os planos que já estão em andamento. O sucesso disso não depende apenas das forças armadas alemãs, mas também da capacidade da indústria em fornecer rapidamente. Eles também terão de se ajustar à nova situação. Para isso vão precisar de garantias de prazo mais longo", sublinhou, acrescentando que as mudanças não vão acontecer "da noite para o dia".

No seu discurso no parlamento alemão, Scholz salientou a necessidade de um exército "eficiente, de última geração e avançado" para proteger o país, entre outras ameaças, daquela que representa a Rússia de Putin.

O exército alemão sofre há anos de subequipamento. Segundo Rafael Loss, existem materiais que podem ser adquiridos em pouco tempo, como por exemplo munições ou equipamento individual para os soldados.

"Parte do dinheiro também servirá para requisitar equipamentos e materiais. Pedidos que foram suspensos devido à falta de financiamento", acrescentou.

Ainda assim, o analista do ECFR acredita que o dinheiro "não pode resolver todos os problemas da Alemanha nessa área".

"O que a 'Bundeswehr' precisa é de uma reforma total do processo de aquisição. Batalhas legais de anos entre agências de aquisição e a indústria estão realmente a prejudicar a prontidão e as forças armadas têm visto demasiadas dessas batalhas", disse.

Para o tenente-coronel Florian Schöne, este é apenas o início de um "caminho longo", alertando para o perigo de promessas de "vitórias rápidas".

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,10 mar 2022 8:22

Editado porAndre Amaral  em  11 mar 2022 8:10

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