O documento, intitulado Falência Hídrica Global: Viver para Além dos Nossos Meios Hidrológicos na Era Pós-Crise, defende que termos como “stress hídrico” ou “crise hídrica” já não descrevem a situação em muitos locais, onde danos irreversíveis levaram bacias hidrográficas a um ponto de não retorno.
Segundo a ONU, o relatório propõe o reconhecimento formal da “falência hídrica global” e a redefinição de uma agenda global da água.
“Este relatório revela uma verdade incómoda: muitas regiões vivem acima dos seus meios hidrológicos e muitos sistemas críticos já estão falidos”, afirma Kaveh Madani, autor principal e director do Instituto de Água, Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH).
O estudo mostra que sociedades não só ultrapassaram o rendimento anual de água renovável proveniente de rios, solos e neve, como também esgotaram reservas de longo prazo em aquíferos, glaciares, zonas húmidas e outros reservatórios naturais. Os dados serão discutidos na próxima semana, em Dakar, Senegal, antes da Conferência da ONU sobre a Água de 2026.
Madani ressalva que nem todas as bacias hidrográficas estão em falência, mas alerta que o risco global aumentou devido à sobrecarga em sistemas críticos interligados pelo comércio, migração, mudanças climáticas e dependências geopolíticas.
O relatório revela que mais de metade dos grandes lagos do mundo perdeu água desde os anos 1990, e nas últimas cinco décadas desapareceram cerca de 410 milhões de hectares de zonas húmidas naturais , quase o equivalente à área terrestre da União Europeia. Cerca de 70% dos principais aquíferos apresentam declínio a longo prazo e mais de 30% da massa glaciar desapareceu desde 1970.
Estima-se que mil milhões de pessoas vivam com insegurança hídrica crónica, enquanto quase 4.000 milhões enfrentam escassez grave durante pelo menos um mês por ano. Quase três quartos da população mundial vive em países classificados como inseguros ou criticamente inseguros em termos de água.
"Kaveh Madani alerta que as fontes de água estão cada vez mais reduzidas, poluídas ou a desaparecer, enquanto milhões de agricultores tentam produzir mais alimentos. Sem uma transição rápida para uma agricultura inteligente em relação à água, a falência hídrica irá alastrar rapidamente”, afirma o relatório.
Cerca de 3.000 milhões de pessoas e mais de metade da produção global de alimentos estão concentradas em áreas onde o armazenamento de água já é instável ou em declínio. O documento defende que os governos mudem da gestão de crises para a gestão de falências e transformem setores consumidores de água, como a agricultura e a indústria, através de alterações nas culturas, reformas na irrigação e sistemas urbanos mais eficientes.
Madani considera que a água pode servir de ponte num mundo fragmentado, ajudando a criar confiança e acelerar a cooperação entre Estados-Membros da ONU. Investir na água, sublinha o estudo, é também investir na mitigação das alterações climáticas, perda de biodiversidade e desertificação.
O relatório alerta ainda para a dimensão social da crise, destacando que os encargos recaem desproporcionalmente sobre pequenos agricultores, povos indígenas, residentes urbanos com baixos rendimentos, mulheres e jovens.
Tshilidzi Marwala, subsecretário-geral da ONU e reitor da UNU, lembra que “a escassez de água está a tornar-se um fator de fragilidade, deslocação e conflito”. Segundo ele, gerir a água de forma justa é fundamental para manter a paz, a estabilidade e a coesão social.
Apesar dos alertas, Madani reforça que o documento não é uma declaração de desespero: “Declarar falência não significa desistir , significa recomeçar. Ao reconhecermos a realidade da falência hídrica, podemos tomar decisões difíceis que protegerão pessoas, economias e ecossistemas. Quanto mais adiarmos, maior será o défice”.
Foto: depositphotos
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