"Há sobretudo uma desigualdade de género enorme naquilo que é a gestão da água", afirmou Rita Patrício, em declarações à agência Lusa, a propósito do Dia Mundial da Água, que se assinala no domingo e que este ano tem como tema "Água e Igualdade de Género".
Professora da Universidade Nova, investigadora, especialista em engenharia sanitária e membro do Comité Europeu de Normalização, em Bruxelas, Rita Maurício referiu a busca e transporte de água, que em muitos países é feita essencialmente por mulheres, como um dos exemplos de desigualdade.
São as mulheres que, observou, percorrem longas distâncias a transportar água, são, tudo somado, 250 milhões de horas por dia, três vezes mais do que as horas gastas por homens/rapazes.
"O que isso provoca é que quando elas se ocupam dessa tarefa não podem ir à escola, não podem dedicar-se a outra atividade, a um emprego, e logo aqui há uma desigualdade enorme", constatou.
A recolha de água, não sendo um trabalho menor, é tido como tal e pouco valorizado em muitos países, e por isso é feito por mulheres, recordou a professora.
Mas há outras desigualdades de género no mundo da água e uma delas prende-se com infraestruturas de saneamento.
Rita Maurício explicou que na altura da menstruação, em muitos países do mundo, as raparigas deixam de ir à escola por não puderem fazer a higiene pessoal. "Isso inibe-as de ir à escola, abandonam, faltam mais, têm menos rendimento", disse.
A falta de estruturas de saneamento, as doenças que podem ser propagadas por isso, a falta de drenagem e de tratamento ou contacto com águas poluídas ainda afetam mais de 3,4 mil milhões de pessoas.
Segundo a especialista, 1,7 milhões de pessoas não dispõem de condições para higiene básica, algo como lavar as mãos e isto é "uma questão de saúde pública e de dignidade".
E nos países desenvolvidos, com saneamento básico e onde a água aparece na torneira? Rita Maurício disse que na gestão de topo da água também há desequilíbrios, porque essa gestão é feita maioritariamente por homens.
Portugal, na água e saneamento, está ao nível dos melhores, porque fez um grande investimento no final da década de 1990 e tem hoje 99% da água das torneiras segura.
Em termos de infraestruturas de saneamento também foi feito um "investimento muito bem feito" e por isso, concluiu: "Não podemos dizer que temos problemas de saúde publica a este nível".
As infraestruturas (Estações de Tratamento de Águas Residuais) estão em geral bem equipadas, mas a Europa vai entrar numa nova era, a "segunda revolução nos sistemas de tratamentos de água", de adaptar as estações de tratamento de águas residuais urbanas para remover micro-poluentes.
"Estamos numa desigualdade muito grande no mundo. De um lado pessoas que não têm agua, do outro estamos preocupados com micro-poluentes", disse a professora, defendendo que a água devia ser um recurso mais protegido.
Referindo que também há muita pobreza hídrica e muitas famílias com dificuldades em pagar os serviços, embora o foco esteja sempre na pobreza energética.
Com o Dia Mundial dos Glaciares a assinalar-se hoje Rita Maurício alertou também para o seu desaparecimento e para a subida do nível das águas oceânicas, contribuindo para os fenómenos climáticos extremos, que acabam por afetar principalmente os países mais pobres.
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que mais de mil milhões de mulheres, um quarto de todas as mulheres, não tem acesso a água potável segura.
No mundo, água potável, saneamento básico e higiene deficientes são responsáveis pela morte de 1.000 crianças por dia com menos de cinco anos.
Afirmando que a crise global de água afeta primeiro as mulheres, a ONU pede mais investimento na liderança feminina para fazer da água uma força para um futuro mais saudável.
Foto: depositphotos
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