O cenário é traçado à agência Lusa pelas equipas envolvidas no Plano Nacional de Nutrição (PNN) e no Plano de Acompanhamento Nutricional Materno Infantil (PANMI).
O coordenador nacional da portuguesa Helpo em São Tomé e Príncipe aponta que "só existem três nutricionistas no país", mas Miguel Jarimba também faz questão de adiantar que há um dado animador: a primeira 'fornada' de nutricionistas que a Organização Não-Governamental (ONG) ajudou a formar localmente também com o apoio de professores portugueses está para chegar, com 13 novos licenciados.
A responsável do PNN, Clara de Sousa, por seu lado, destaca o facto de que este ano não se ter registado qualquer óbito por desnutrição. Uma primeira vez, pelo que se lembra.
Clara de Sousa indica que os casos mais graves são direcionados para o hospital central na capital, mas lamenta que também ali o acesso a água potável seja "um grande problema" e que, na falta dela, "vão os bombeiros levar água, mas chega suja".
Maria Tavares, da Helpo, e que está à frente do PANMI, assinala a falta de dados completos, regulares ou fiáveis sobre o fenómeno da desnutrição, mas salienta que têm sido registados progressos, dando como exemplo a diminuição de casos de subnutrição aguda. Em 2025 realizaram consultas a 355 crianças dos 0 aos 5 anos, num total de 3.282 consultas de nutrição, um esforço que tem tido resultados animadores.
A nutricionista explica que a falta de licenciados na área tem sido contornada com um acompanhamento descentralizado nas comunidades e nos centros de saúde, com enfermeiros e agentes de saúde comunitários capazes de detetar casos e de fazerem o reencaminhamento para os serviços de saúde.
Os últimos dados indicavam que em São Tomé e Príncipe a prevalência de desnutrição crónica em crianças menores de 5 anos era de 17,2% e de desnutrição aguda de 4%. O baixo peso à nascença, um indicador chave do estado de saúde das mães com implicações sobre a mortalidade e a morbidade, atingia 8,4% das crianças, sendo que mais de seis em cada 10 entre os 6 e os 59 meses (67,5%) sofrem de anemia.
Isto, destaca a ONG, "contribui não só para um deficiente crescimento, mas afeta também o desenvolvimento cognitivo, reduzindo a capacidade de aprendizagem e sucessos na vida adulta".
Mas a maioria dos dados são de 2019. À falta de indicadores regulares e fiáveis, a ONG portuguesa responde este mês com o lançamento de um inquérito nacional "para perceber o estado nutricional e hábitos alimentares", que consiga ajudar na recomendação e definição de estratégias e políticas públicas, avança a responsável do projeto de vigilância nutricional e alimentar, em parceria com os ministérios da Saúde e da Agricultura.
"Esse trabalho, com este rigor e abrangência, nunca foi feito", sublinha Rita Sequeira.
Na luta contra a desnutrição em São Tomé e Príncipe, o coordenador do Programa Nacional de Alimentação e Saúde Escolar (PNASE), Emanuel Montóia, não tem também uma vida fácil.
O Estado herdou a liderança do projeto do Programa Alimentar Mundial (PAM) e da Helpo, que agora atuam como parceiros.
A grande batalha está em garantir a expansão e autofinanciamento do PNASE, que não recebe o dinheiro que deveria vir de impostos sobre o cimento e álcool, que se perde algures entre outras despesas estatais. Ainda assim, chega a 50 mil crianças, ou seja, mais coisa, menos coisa, quase um quarto da população são-tomense, assegurando em muitos casos a única refeição quente dos alunos.
O objetivo era garantir bens alimentícios a 300 escolas, 180 dias por ano, mas só se conseguiu garantir metade desses dias.
Criam porcos e galinhas, enviam carne e ovos para as escolas (agora com uma aposta mais forte no pré-escolar), fazem crescer tomates, pimpinela (chuchu), cebola, cenoura, beterraba, feijão-verde e couve de repolho. Não chega para todos os dias. E como estão subfinanciados, são obrigados a vender alguns dos porcos, codornizes e respetivos ovos, pintos e legumes, só para sustentar o projeto.
E também aqui, ainda assim, a Helpo presta apoio ao projeto através do programa de apadrinhamento de alunos, com material e alimentação escolar, bem como com o pagamento de matrícula e propinas.
É verdade que em dezembro de 2024, a ONU retirou oficialmente São Tomé e Príncipe da categoria de Países Menos Desenvolvidos, reconhecendo progressos sustentados. Contudo, cerca de 13% da população vive abaixo da linha de pobreza extrema e mais de dois terços sofre de vulnerabilidades socioeconómicas.
Foto: depositphotos.com
homepage








