"Os países que produzem fertilizantes decidiram fechar as portas" e "o preço disparou", o que vai provocar uma "crise humanitária sem precedentes", afirmou o também diretor executivo da UNOPS (Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos), durante a 7ª conferência de Lisboa, a decorrer em Lisboa para debater a Reconfiguração da Ordem Global.
Avisando que, ao contrário de uma crise alimentar, em que as consequências são imediatas, a falta de fertilizantes só vai mostrar efeitos daqui a alguns meses, Moreira da Silva defendeu que a crise está à porta.
"E o que dizem os meus colegas da FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura] e do Programa Mundial Alimentar: vamos ter 45 milhões de pessoas atiradas para a fome nos próximos meses", disse.
O especialista da ONU, que lidera um grupo de trabalho para negociar a autorização de passagem de navios com fertilizantes pelo estreito de Ormuz, lembrou que um terço destes bens é originário do Golfo da Pérsia.
Com o conflito no Irão, que depois se espalhou por toda a região, a distribuição de fertilizantes e outras matérias-primas essenciais à agricultura, praticamente parou.
"Os países mais dependentes dos fertilizantes que saem do golfo pérsico são os países mais pobres, como Somália, Sudão, Moçambique, Tanzânia", mas não são só esses países que estão a ser penalizados, sublinhou o responsável.
O próprio mercado internacional de fertilizantes "entrou em disrupção", lembrou, adiantando que a produtividade agrícola, nomeadamente em países africanos, "caiu a pico" por falta de fertilizantes.
Face à perspetiva de crise iminente, as Nações Unidas estão "à espera que a vontade política prevaleça", admitiu Moreira da Silva.
O subsecretário-geral da ONU adiantou que já foram feitas e até testadas propostas para fazer verificação das embarcações que passam no estreito, para que "pelo menos as embarcações com fertilizantes possam passar".
No entanto, lamentou, "neste momento, e ao fim de sete meses de conversas e negociações, que partes no conflito ainda não aceitaram esta ideia".
O estreito de Ormuz é o canal por onde escoa cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes e uma parcela massiva de matérias-primas energéticas, como o petróleo e o gás natural.
Em março passado, a Guarda Revolucionária do Irão reteve dezenas de navios na região do golfo Pérsico, impossibilitando o transporte de cerca de um milhão de toneladas de fertilizantes destinados a mercados como a Europa, Índia, China, Indonésia, EUA e Austrália.
Foto: deposipthotos
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