Terrer: Turismo, Transporte Aéreo & Tecnologia

PorJoão Chantre,10 nov 2012 23:00


"Os transportes aéreos abriram as portas da Globalização, libertaram os céus deste mundo, aproximaram povos e culturas diferentes...o futuro será um mundo mais mestiço, mais jovem e mais feminino". JC


Ainda me lembro lá na Povoação, hoje cidade da Ribeira Grande, onde eu nasci e deixei o meu umbigo, no maravilhoso aconchego, no centro de Terrer, com vista para o fim do mundo. O fim do mundo que sempre tive curiosidade de conhecer e que até chorei muitas vezes para conhecer. Sabia que um dia esse dia ia chegar. Certa vez quis acompanhar a minha mãe e a minha irmã mais nova à Praia, à cidade capital, onde na altura estudavam os mais velhos - não me foi permitido. Nesse dia, enchi-me de coragem e lavrei na acta da família: «Partirei com os meus pés, viajarei o mundo todo mas regressarei um dia à minha terra"». Eu tinha 10 anitos.

 

Sorte ou não, conheci os quatro cantos deste planeta, soube comunicar com muita gente neste mundo, tenho amigos nos quatro cantos deste mundo, investi horas e horas do meu tempo a estudar/escutar/pensar/observar, a falar, a debater, a perceber, a negociar, a trabalhar, a visitar países e povos deste mundo e tirei 104 fotografias que estão registadas no meu chip. Aprendi que somos todos iguais, apenas culturalmente diferentes: compreender e respeitar a cultura dos outros "é meio caminho andado" para a entender/movimentar com facilidade neste mundo tão pequeno. Um mundo pequeno mas complexo. Dei e continuarei a dar o meu contributo para que Cabo Verde/mundo seja mais próspero, mais equilibrado e mais tolerante. Sinto-me um cidadão do mundo!

Turismo, a primeira indústria mundial

Se houve quem inicialmente duvidasse da viabilidade da Globalização, hoje ninguém tem dúvidas, é um fenómeno incontornável. Cabo Verde, mais do que qualquer país, desenvolveu-se graças à Globalização, conhecida na terra como "Tchon d'Holanda" (CD) ou Merca (1740).

O desenvolvimento dos transportes aéreos, a partir da segunda guerra mundial, permitiu a circulação em massa das pessoas e despoletou a maior indústria do mundo, o turismo. A dimensão económica do turismo é, de facto, devastadora, segundo dados do OMT (Organização Mundial do Turismo) o mercado global do turismo continua a crescer ex-ponencialmente, tendo atingido os US 7.4 triliões, passando a ser uma das Economias mais fortes do planeta com excepção dos Estados Unidos, China Japão, Reino Unido, Alemanha, França e a Itália. De acordo com a mesma fonte (OMT), a indústria do turismo já atingiu os 11.7% do PIB mundial e é actualmente responsável por cerca de 8% de todos os empregos no mundo. Mesmo acarretando um «custo social considerável», a dita «Economia paralela», a prostituição, a pedofilia, o tráfego e consumo de estupefacientes que deve ser combatida, o saldo é positivo.

Tanto assim que são conhecidos ainda pela mesma fonte (OMT-2011) os turistas que mais gastaram no mundo e que na maioria coincide com os mercados emergentes (na maioria países europeus): 1. Alemães $ 84.3 bilhões, 2. Americanos, $ 79.1 bilhões, 3. Chineses $ 72.6 bilhões, 4. Reino Unido $ 50.6 bilhões, 5. Franceses, 41.7 bilhões, 7. Russos, $ 33.5 bilhões, 8. Italianos, $ 28.7 bilhões de USD. Hoje, praticamente, produz-se riqueza e serviços numa zona do globo e as mesmas são transferidas para outras zonas através dos gastos no turismo. Assim sendo, o turismo pode ser entendido como a única actividade que coloca os países em igualdade de competição, pois é através desta actividade que a Economia pode rapidamente conseguir o equilíbrio da balança comercial. Não podemos voltar atrás, a onda gigante de oportunidades voltou ao nosso encontro... Saber agarrá-la é a grande questão e depende só de nós.

Consumismo - O Segmento de Luxo

Com a crise que assola Portugal/Europa, acredita-se que sem o turismo, a mesma poderia ter sido pior/devastadora. É hoje frequente ver nos grandes centros urbanos da Europa, Lisboa, Paris, Milão, Londres, zonas que respiram poluição e um multiculturalismo notável, lojas a serem inundadas por angolanos, chineses e brasileiros a quererem comprar tudo o que de bom e luxuoso as lojas de marca podem oferecer.

É importante perceber que os novos-ricos do Sul, sobretudo, angolanos e chineses têm uma grande diferença com a sua contra-parte Ocidental. Em princípio, os milionários Ocidentais já compraram quase tudo, o que querem e podem. Os outros, ainda não compraram praticamente nada, são mais novos e mais propensos a gastos. Em princípio, relógios, jóias, sacos de marcas, canetas de marcas são fáceis de transportar, dão estatuto, não pagam impostos, servem de presente para familiares e amigos e de "luvas". Até 2015, a Ásia terá três milhões de milionários, contra 1.6 milhões em 2010. A previsão é do Banco privado Suíço Julius Baer, no seu mais recente relatório sobre a riqueza no mundo. O relatório indica ainda que a fortuna total detida por esses milionários deverá ascender a 16.7 mil milhões de USD, contra 5.56 em 2012.

A obsessão pelas grandes marcas, o marketing das grandes cidades (Cultura e Arte) e aposta nos grandes centros aeroportuários de negocio aéreo e não aéreo tem dado uma grande ajuda no equilíbrio das contas do velho continente.

A Tecnologia & o Comercio Electrónico

Temos que reconhecer que o mundo mudou...Hoje a economia dos cartões de crédito é comparável às economias dos grandes Estados. Apenas as economias dos Estados Unidos, da China e do Japão têm um PIB maior que o volume global movimentado pelos cartões de crédito. Em cada quatro pessoas no mundo, um possui cartão de crédito e brevemente, a nossa carteira electrónica será um dos dedos das nossas mãos.

Devemos sentir-nos orgulhosos em saber que temos esta ferramenta a funcionar entre nós. O orgulho é redobrado quando descobrimos que foi sonhado internamente e implementado por 3 engenheiros juniores cabo-verdianos. Quando foi criado ninguém tinha noção da sua dimensão. Pois, o comércio electrónico tem no transporte do dinheiro, o que os transportes aéreos têm na mobilidade das pessoas, com apenas uma diferença: o Pássaro virtual transporta as nossas Economias, enquanto o Pássaro Gigante transporte vidas humanas. Todos exigem máxima segurança, carecem de certificações internacionais e regem-se pelo Direito Internacional público/privado (conven-ções/contratos) mas o tratamento é diferenciado.

Faz parte do meu DNA, evocar sempre que possível o exemplo dos tigres asiáticos (Hong Kong, Taiwan, Singapura e Coreia do Sul) como exemplos a seguir: são países que souberam usufruir dos benefícios da globalização. Investiram muito em tecnologia e educação nas décadas de 80/90, têm um turismo de alto nível e investiram fortemente nos transportes aéreos (Cathay Pacific, Eva Air, Singapora Airlines, Korean Airlines). Como resultado, conseguiram reduzir os custos de produção e agregar tecnologias aos produtos. Actualmente, são grandes exportadores e apresentam óptimos índices de desenvolvimento económico e social.

Os Transportes Aéreos

Os Transporte Aéreos acabam por ser o elemento aglutinador de tudo o que se falou anteriormente, o mais relevante para a impulsionar a actividade turística. Apesar de ainda serem tratados separadamente, espera-se que brevemente venham a merecer um tratamento adequado em termos de regulação e políticas públicas a nível do nosso país/mundo. No ramo do direito aeronáutico começa-se a tentar delinear as fronteiras/direito/obrigações no que concerne ao direito Internacional público e privado, sobretudo quando se vende um pacote turístico a um turista, uma vez que gera várias relações jurídicas mas com tratamento jurídico diferenciado entre o Direito Interno e Internacional, Direito do Consumidor/Ambiental/Constitucional e que deu origem ao Direito Aeronáutico.

Enquanto isto, nas nossas ilhas, consideradas como o centro do Atlântico, uma das zonas do futuro, leva-nos a concluir, ainda que seja numa abordagem meramente empírica, que as políticas públicas são definidas em função dos interesses individuais e outros interesses. Valores esses, incompatíveis com a cultura do desenvolvimento. Acima dos interesses individuais deve prevalecer o interesse do Estado.

Em suma, o nosso país tem acompanhado as transformações da aldeia global, mas em menor escala e a um ritmo menos acelerado que os asiáticos, porque gastamos o triplo do esforço, energia e recursos, comparado com os asiáticos. Apesar de sermos mais criativos do que os asiáticos, somos mais individualistas, mais egoístas, mais preconceituosos (complexo) e dificilmente aceitamos críticas e por isso somos fracos na prestação de serviços. Mas paradoxalmente joga a nosso favor o facto de sermos um povo extremamente crítico. É tempo de mudar, é tempo de ajustar a aldeia Global. Os primeiros passos já foram dados, a nossa música e agora o nosso futebol são prova da nossa notoriedade no mundo. Todos nos querem, sente-se que a Comunidade Internacional tem vindo a proteger-nos, continuam a nutrir um grande carinho por nós...Atrelaram-nos...Mas até quando! Tudo tem um fim. It´s time...


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Autoria:João Chantre,10 nov 2012 23:00

Editado porAlexis Cardoso  em  15 jan 2013 23:13

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