Viajo para conhecer, viajo para fotografar e os relatos fazem história

PorJoão Chantre,20 mai 2013 10:26

Partimos da Praia numa sexta-feira. O sol brilhava e o calor era abrasador. Estava destinado a sentar-me ao lado de um estrangeiro, fiz questão de o cumprimentar e dar boas vindas num dos pássaros das nossas ilhas. Preferi pular de lugar: “boa tarde, posso?!!! Claro que podes”, foi uma conversa interessante, pareceu-me bem formada, vende beleza física e charme. Veio de Coimbra, mergulha nas águas das TICs, ou seja, tem o mundo nas suas mãos e tenta uma carreira nos palcos de Cabo Verde. Quando canta, chupa as pessoas para dentro dela e a sua voz faz tremer as pernas. Foram vinte minutos de conversa rica – a riqueza que faz o homem crescer. Sem conhecer a história das nossas ilhas e sem visitá-las seremos menos ricos.

Quando chegamos à ilha do Vulcão, o fresco ameno dá as boas-vindas às pessoas que precisam por vezes sair do ritmo intenso da Capital e das intrigas características do meio. Pena que nunca ninguém pensou construir a ponte do Sul como a ponte do Norte, outro galo cantaria...

Viajo para conhecer e registar no meu chip o que deve ser registado. Viajo à procura de notícias e as notícias fazem parte da história. “Vais escrever a história do Nhô S. Filipe!”, não sei, não depende de mim, não sou profissional da escrita, prefiro deixar esta tarefa a um  jornalista. “Escreve, escreve coisas boas”. ”Não”quando escrevo, escrevo tudo o que me vem na alma, escrevo por paixão carregado de emoção, escrevo a realidade, relato os factos para que possam ser úteis um dia”.

 

A arquitectura & a música

Para os mais atentos, o centro da cidade de São Filipe é o maior legado arquitectónico, mais lindo, concentrado e preservado do arquipélago. Basta a constatação deste facto para que os obreiros desta grande obra/preservação sejam coroados.

Tanto assim é que, finalmente, S. Filipe foi elevado a património nacional. Impressionante é ter constatado que afinal S. Filipe é uma réplica da Bahia, a cidade mais africana do Brasil, com os seus hábitos e costumes. Há muito que se procuravam as chaves para abrir as portas dos sobrados, mas felizmente foram encontradas, jamais S. Filipe será igual. A música espalhou-se na cidade, respirou-se liberdade e a liberdade atraiu as gentes das ilhas e de fora. As noites do presídio arrastaram os jovens atraídos pela música... “esse ano ta fraco”... Quinhentos escudos tudo dia ê dimás…Contudo, Sandra Horta chupou as almas, Jennifer fez os Jacks sentirem-se envergonhados com tanta humilhação, Zeca de Nha Reinalda entrou dentro das almas dos mais novos com a música dos anos oitenta, Ferro Gaita fez tremer a zona alta da cidade, Paula Fernandes abarrotou o presídio de gente, cantou e encantou... No quintal do Sr. Zuca, as portas escancaram-se para receber os seus e os amigos dos seus, houve muita música, muito comes e bebes e a juventude da cidade passou por lá e deixou marcas numa noite de lua cheia, louca e inesquecível.

O Patriarca foi homenageado pelas obras e serviços prestados numa cidade que o acolheu e acarinhou e por isso apaixonou-se por ela e por lá ficou. Sentado no seu colorido e oxigenado quintal, ao lado da sua menininha de soncente vai recebendo as gentes e entregando os pelouros aos mais jovens.

 

O Poder Eclesiástico

A corrida de cavalos na véspera e a missa no dia 1º de Maio, marcaram o ponto alto das cerimónias do dia de Nhô S. Filipe. O Bispo do Mindelo fez as honras da casa e teve o cuidado de dizer que Filipe fazia parte dos 12 e era um mediano, entre o povo e Jesus Cristo. Também fez menção à velocidade do mundo actual, comparando-o com a velocidade da luz e na sua belíssima mensagem, clara, directa e bem estruturada fez ver que hoje estamos num mundo de fácil comunicação e propaganda, por vezes até demais, disse ainda: “devemos estar atentos aos outros, aquilo que trazemos dentro de nós, o selo da vida eterna”.

A cerimónia foi bonita, uma missa ao ar livre, com uma tenda branca e vistosa simbolizando a paz e dando as boas vindas aos emigrantes provenientes da terra do Tio Sam, que precisam ser acarinhados e bem acolhidos, afinal são eles a razão de ser da 13ª ilha e a base económica das famílias espalhadas por toda a ilha.

Os sobrados que vigiam a Igreja e os sobrados transformados em hotéis, são obras-primas que devem ser objecto de estudo das escolas nacionais de arquitectura.

 

Cova Figuera

É a capital da emigração, e onde fomos descobrir Antoninho Bodi. Durante uma cabritada com xerém, na casa do amigo do Max, Antoninho Bodi, trajado de camisa azul, boné azul, ao lado de um prédio azul e em frente ao mar azul encantador, ele identificou-se e relatou a sua história, só faltou o Djozinha: “Em 1978, recém-chegado de Lisboa, fui condenado a três meses de cadeia por ter comprado meio litro de whisky. Durante a minha prisão, o Naná, meu amigo, meu companheiro de bibi grogue, escreveu à minha mulher uma carta a conquistá-la…chamei o Naná…dei-lhe tantas chicotadas que levou noventa e sete pontos…no tribunal o Juiz perguntou-me porque chibatei o Naná…está aqui, mostrei a carta ao Sr. Juíz...

Para terminar a aventura, cumpre referir que S. Filipe é uma cidade de gente bonita, agradável, com uma grande riqueza arquitectónica, com histórias por contar e o Hotel Zebra e a Savana são referência de qualidade e conforto para qualquer turista que visite a ilha. Por isso dá para entender que a chave perdida foi encontrada com o concerto de Tito Paris e dos Amigus di Djar Fogo ta brasa NHÔ SAN FILIPE. Cova Figuera ê nha terra... It´s time...

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Autoria:João Chantre,20 mai 2013 10:26

Editado porRendy Santos  em  20 mai 2013 10:37

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