“Grinhassim Não” ou a Energia do “Yes, We Can” (II)

PorExpresso das Ilhas,12 jul 2013 16:39

Continuando, diz que “a padronização é uma construção, não é natural nem será espontânea – donde a necessidade de critérios objectivos e explícitos”.

 

Prosseguindo, afirma que “O critério histórico-linguístico, por exemplo, levantará questões como: - qual o dialecto mais representativo, desse ponto de vista? O de Santiago, onde o Crioulo terá tido origem, a partir de línguas africanas em contacto com o Português, pelo que essa primeira versão será a matriz que se desdobrou em módulos periféricos? Ou o de São Vicente que, na sua qualidade histórica de Crioulo Caboverdiano de segunda geração, se elaborou a partir da activação de ocorrências inovadoras as quais contribuíram para a emergência de uma estrutura com maior autonomia relativamente às línguas-base?”

O Posicionamento da articulista contido nesta parte da sua exposição merece os seguintes comentários da minha parte: muito mais do que “um pretérito imperfeito”, a padronização é “um presente contínuo”. Com efeito ela acontece desde o século XVII quando o crioulo começou a existir como língua. E manifesta-se de duas maneiras: informalmente, através do consenso linguístico dos utentes do crioulo; formalmente, pela actuação da política linguística.

Devo esclarecer que até este momento, a intervenção dos poderes públicos se restringiu à harmonização do alfabeto. Porém, a padronização linguística extravasa o alfabeto e a própria escrita. Assim, o problema criado é um fantasma. Não existe ainda nenhuma orientação relativamente à padronização linguística fora da área do alfabeto. Mas a padronização está acontecendo por via informal. É assim que, por exemplo, na Capital do País, a acentuação paroxítona dos verbos, por influência das outras ilhas (tanto as do Norte como as restantes do Sul, está a tornar-se oxítona ( “kumê, skrevê, levantá, nadá...) em vez da acentuação paroxítona ( “kume, skrebe, labanta, nada”), com acento tónico na penúltima sílaba. De igual modo, na Capital, onde a presença dos caboverdianos provenientes das outras ilhas é significativa, a sonorização de consoantes surdas é um facto inegável ( “kaza, kazamentu, oji”)  no lugar das realizações surdas (“kasa, kasamentu, oxi”). Do ponto de vista lexical, assistimos à entrada de expressões do Norte que começaram a entrar no vocabulário badio citadino: “diazá, pa frónta, pa xuxú...”). Se eu disser, hoje, na Praia: “diazá, N ka odja-bu; kel minina la é bunita pa frónta”, ninguém, na Capital, me dirá que estou a falar o crioulo com interferências do Norte.

E se todas essas interferências se alargarem e se transformarem em hábitos linguísticos, a padronização acontece tranquila e informalmente. Informalmente, ainda, a padronização pode acontecer através da criação literária e artística. Daí que o crioulo com maior dinamismo criativo será aquele que mais vai contribuir para a padronização. A padronização formal vai acontecer não por decreto, mas sobretudo quando o ensino alargado do crioulo acontecer. E isto porque o professor, querendo ou não será forçado a fazer mais uso da variante em que é mais competente. E o crioulo que veicula tenderá a informar e enformar a norma.

Quanto à questão, segundo a qual existe “a opção pela variante de Santiago, implicitamente, tomada como referência”, é apenas uma presunção dos que tem complexo frente à pujança desta variante. É certo que no colóquio de 1979 vozes autorizadas do Norte do arquipélago defenderam a primazia do badio como variante de base no processo de padronização do crioulo. E isto, talvez, influenciados por Baltasar Lopes da Silva que, no Prefácio  à Aventura Crioula, de Manuel Lopes, escreve: “... o falar  do grupo de Sotavento é, a meu ver, o mais adequado ... para o tratamento literário.  Mais abaixo continua: “... me parece que o crioulo padrão para o uso literário se há-de fixar, partindo da base fonética do falar de Sotavento”.

 Porém, essa proposta de Baltasar Lopes, apesar de relevante, nunca chegou a ser ratificada oficialmente e, hoje, eu próprio, por uma questão de respeito pela diversidade cultural, defendo que a unificação linguística deve ter em conta todas as variantes, com um eixo Sul, à volta de Santiago; um eixo Norte, à volta de S. Vicente, e um eixo Norte/Sul à volta dessas duas variedades, em estreita cooperação com as particularidades pertinentes, enriquecedoras e representativas de todas as variantes.

Concordo com a articulista quando diz que deve haver “critérios objectivos e explícitos” para a padronização formal. A mim me parece que a padronização vai acontecer mesmo que a definição desses critérios sejam reportados para mais tarde.  É que a língua é viva, e ninguém pode retirar-lhe essa liberdade intrínseca de atrair neologismos e de registar arcaísmos.

A articulista deixa entender que há uma tentação (para não dizer determinação) na sobreposição da variedade de Santiago que veio desde o tempo da escravatura quando se sabe (deixa ela entender) que o crioulo verdadeiramente caboverdiano é o de S. Vicente. Nada mais falso. O crioulo de Santiago é tão caboverdiano como o de qualquer outra ilha e com a vantagem de ser mais e melhor estudado, de possuir maior número de locutores, de ser a matriz de todas as outras variantes e, sobretudo, de exibir uma autonomia estrutural muito mais visível e demonstrável que, por exemplo o de S. Vicente. E se a articulista não estiver de acordo, eu convido-a a fazermos um estudo linguístico analítico e comparativo de duas obras significativas para ambas as ilhas e para todo o Cabo Verde: Odju d’Agu e Vangêle Contód de Nos Móda. Com esse estudo, sem dúvida vai ficar demonstrado que não corresponde a verdade a afirmação, segundo a qual, a variedade de S. Vicente possui “uma estrutura com maior autonomia relativamente às línguas-base”. E, com esse estudo, cairia também por terra o “achismo”  dos pseudo-mestres e emergiria a verdade objectiva.

 

4.  Na última parte do artigo afirma-se a “Oficialização como sendo  um condicional futuro”. Na minha perspectiva, a “oficialização” sem deixar, ainda, de ser um condicional futuro, é também “um presente contínuo”. Esta é a razão por que, desde 1999, se vem defendendo a “oficialização em construção” e a edificação paulatina de um real bilinguismo que ficou explícita  nas conclusões do recente Fórum Parlamentar por um Bilinguismo Social, realizado de 17 a 18 de Maio de 2013. Este “presente contínuo” tem expressão e assento constitucional no artigo 9º da Carta Magna quando na alínea 2) diz: “O Estado promove as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa; alínea 3): Todos os cidadãos nacionais têm o dever de conhecer as línguas oficiais e o direito de usá-las”.  Note-se que o articulado é categórico. Não usa nem o futuro (promoverá), nem o condicional ( se...). Diz  “promove...”, no presente.

Dizer que “a oficialização teria “(...) o efeito perverso de atribuir à Língua Caboverdiana uma função acessória e um lugar secundário no ambiente linguístico nacional” é uma conclusão aleatória e infundada.  Esta, sim, talvez seja um “condicional futuro desejado” pelos que  querem  continuar a ver apenas o português como “charrua aperfeiçoada”e o crioulo eternamente como “enxada rudimentar”.

O crioulo oficializado será aquilo que nós quisermos. E se, informalmente, ele tem tanta força  na comunicação  e na criatividade artística, a ponto  de enervar  “os ilustres pedagogos” que nele vêm uma ameaça para o português, como poderá ele perder esse dinamismo quando se tornar, de facto, oficial, a ponto de  passar a ter “uma função acessória e um lugar secundário no ambiente linguístico nacional”?. Até parece uma contradição, salvo o devido respeito.

Propositadamente, deixei para o fim a saga do “kapa”, considerado pela articulista e pelos opositores do ALUPEC como um fantasma que teria “ofendido” os caboverdianos na sua dignidade, por considerarem que ele é africano, enquanto o nosso alfabeto deveria ser latino.

Ora, o “kapa”está presente no alfabeto caboverdiano desde 1888, com a proposta de António de Paula Brito. Ele, ainda, está presente no alfabeto inglês e alemão. A própria língua portuguesa utiliza-o para representar o símbolo quilograma, por exemplo, 5 kg de carne e palavras ou nomes estrangeiros como kwanza; o novo acordo ortográfico da língua portuguesa introduziu o “k” no alfabeto. Também é internacionalmente usado para representar o símbolo do potássio. Curiosamente, o inglês escreve “kiss, kindness, king” para significar “beijo, amabilidade, rei”. Nem para eles, nem para os opositores do ALUPEC o “k” de “kiss, kindness, king” é africano. Já em “kretxeu”, ele seria africano”. Onde está a lógica. Mas admitamos que seja africano. O que de mal ou de depreciativo haveria nisso se uma das matrizes da crioulidade vem de África? Será que aceitar a nossa história e as nossas origens nos diminuem como povo e como cidadãos?

Mais uma razão para dizermos “ki óra dja txiga pa nu ruspeta nos kabésa, nos língua y nos identidadi si nu krê pa mundu ruspeta-nu”. Ou será que “grinhasin” não devemos, ainda, valorizar a nossa história, a nossa língua, a nossa cultura, a nossa idiossincrasia, o que somos e o que nos identifica? Esqueçamos, pois, o totalitarismo do “grinhasin, nãu” porque o que de facto, com lucidez e ponderação, nos interessa e sempre nos interessou é a energia do “Yes, We Can”, uma energia que sabe medir os riscos e aproveitar as oportunidades, sem nunca fugir aos desafios.

 

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Autoria:Expresso das Ilhas,12 jul 2013 16:39

Editado porRendy Santos  em  12 jul 2013 18:16

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