Bana morre sem rancor

PorExpresso das Ilhas,20 jul 2013 0:00

Como já o afirmara publicamente, tive o privilégio de conhecer e privar com o Bana em 2004, em Lisboa, por ocasião da apresentação na capital portuguesa do meu livro intitulado Manel d´Novas: Música Vida, Caboverdianidade. Na altura, a solicitação do saudoso Manel d´Novas, encontrei-me com o Bana em casa deste, na Estrada de Benfica, e pediu-me o cantor que lhe escrevesse a sua biografia, socorrendo-me, nomeadamente, de entrevistas individuais e de documentos do seu percurso musical que, para o efeito, me disponibilizaria. Infelizmente, vários compromissos assumidos impediram-me que acedesse ao simpático convite que me formulou o renomado intérprete vocal. Do primeiro encontro em Lisboa à data do falecimento, os contactos entre mim e o Bana multiplicaram-se. Reforçaram-se os laços de amizade e, inclusive, viria a entrevistá-lo em três oportunidades diferentes à volta da sua trajetória musical.

 

Salvo melhor opinião, considero o Bana o maior intérprete da morna, de sempre. Dono de uma voz firme, potente, grave, mas também melodiosa e doce, e com um timbre peculiar, o Bana tinha um estilo próprio de cantar, sobretudo a morna, de que, aliás, era um exímio intérprete, cujo segredo reside na forma inimitável como dividia e pronunciava as palavras das letras, por efeito de arrastamento ou prolongamento do tempo de duração da respectiva nota musical. Ao executar com mestria a morna, privilegiando a técnica da silabação que só ele conseguia fazer e mais ninguém, o Bana trabalhava a palavra, tocando, assim, profundamente, a alma crioula. A forma sublime de projectar a voz, aliada à silabação cuidada das palavras, reforça a dimensão estética da composição e, ao mesmo tempo, empresta-lhe uma carga nostálgica típica do cabo-verdiano, na linha do grande compositor B. Léza com quem, aliás, o Bana aprendeu a interpretar mornas, desde a tenra idade. Quem não se lembra de mornas arrepiantes interpretadas magistralmente pela voz de ouro do Bana, por exemplo, “Lua Nha Testemunha”, “Mar di Furna”, “Lolinha”, “Lena”, “Cidália”, “Gardénia” ou “Nhô Roque”, esta última da autoria do grande Manel d´Novas?

Bana acabaria por beber na fonte beleziana e, assim, construir e moldar um estilo interpretativo próprio de que ele se orgulhava, facto que contribuiu decisivamente para o sucesso da sua longa carreira musical iniciada em 1959, no Senegal (Dakar), e que, anos depois, se estenderia, sucessivamente, a França (Paris), Holanda (Roterdão), Estados Unidos da América e Portugal (Lisboa). Todavia, quem terá facilitado o ingresso do Bana na carreira musical foi o falecido Dr. Aníbal Lopes da Silva, na altura médico militar em São Vicente, que o “safou” do serviço militar obrigatório, na tropa colonial, considerando-o inapto, a despeito da sua estatura física de quase dois metros, em reconhecimento pelas gravações que costumava fazer o cantor nos estúdios da então Rádio Barlavento de que o prestigiado dentista santantonense era Director.

A origem social, humilde e pobre de Bana condiciona, em grande medida, a relação do lendário e carismático cantor com a música, cujo processo de socialização começaria muito cedo na sua cidade natal, particularmente em círculos lúdicos de serenatas e piqueniques. É, pois, nesse ambiente marcado por adversidades e dificuldades de toda a índole que o Bana descobre e reforça a sua vocação musical e aprimora o seu talento artístico. Mas, também, é nessa “entourage”, que o cantor cultiva a sua forma simples e peculiar de comunicar com as pessoas, através da sua inconfundível voz impregnada de melodia e saudade. O principal trunfo do Bana reside precisamente na facilidade de comunicação com o público. Aliás, o Bana tinha uma forma própria de se expressar, um misto de ironia, sarcasmo e, não raras vezes, com alguma picardia no meio, lançando mão de metáforas quando não lhe convinha chamar as coisas pelos nomes. Quando se irritava, “perdia a cabeça” mas, depois, soltava uma gargalhada à sua maneira e tudo voltava à normalidade, na “descontra”.

Para lá da sua extraordinária vocação, na qualidade de intérprete, revelada ainda na fase de adolescência, a longevidade de Bana na actividade musical deve-se igualmente – e é ele próprio a reconhecê-lo - à circunstância de nunca ter ingerido álcool, se bem que ele tivesse vivido e cantado no meio de colegas que consumiam muito grogue, pautando a sua conduta por uma vida regrada e disciplinada. Essa postura sóbria do Bana estende-se, também, ao plano de ensaios musicais, que sempre procurou observar escrupulosamente, antes de subir ao palco. Sempre bem-humorado e brincalhão, o Bana mantinha-se calmo e sereno e ele próprio não se lembrava de ter ficado nervoso em nenhuma das suas actuações. Um cantor extremamente exigente na comunicação com o público, quem respeitava muito. À calma e à descontração do Bana no palco juntavam-se ainda níveis elevados de autoestima e autodomínio, que facilitavam enormemente a empatia e a comunicação do Rei da Morna com o público. É que o Bana, também ele co-fundador do mítico “Voz de Cabo Verde”, em 1966, em Roterdão, e pioneiro da internacionalização da música cabo-verdiana, cujo processo seria, mais tarde, prosseguido pela Cesária, tinha a consciência da sua dimensão artística e do elevado valor que lhe é reconhecido pela sociedade cabo-verdiana.

Já do ponto de vista das relações humanas e sociais propriamente, a despeito da sua extraordinária voz e da sua simplicidade na comunicação, o Bana reunia um conjunto de predicados que, a meu ver, não se dissociam do contexto familiar e social em que se socializou. Figura controversa e incontornável dos nossos tempos nascida na cidade do Mindelo, a 5 de Março de 1932, o cantor construiu e moldou a sua personalidade e o seu caráter, numa fase primeira, num contexto sociológico, marcado, outrossim, pela luta pela sobrevivência, o que explica, à partida, laivos de autoritarismo que enformavam a sua estrutura de personalidade, o seu carácter forte e as relações de conflito mantidas com alguns músicos que o acompanharam ao longo de várias décadas da sua sinuosa carreira profissional. Por outro lado, os fracos níveis de escolaridade (antigo 4º grau de instrução primária) e de capital cultural do artista, associados à severidade do trabalho de estivador no Porto Grande de S. Vicente durante algum tempo, terão condicionado a sua postura na vida e contribuído, igualmente, para a assunção de posições rígidas e pouco dialogantes com os seus pares, sempre que estivessem em causa interesses profissionais do cantor. É que as relações do Bana com músicos com quem trabalhou nunca foram pacíficas.

A trajectória musical de Bana passou por várias fases marcadas por altos e baixos. Mas, pergunto-me, agora, o que é que teria falhado na carreira musical do Bana? Teria o Bana gerido mal o capital e a imagem que foi acumulando ao longo de décadas? Teria o Bana cometido disparates na gestão da sua vida artística e esbanjado dinheiro? Teria faltado ao Bana um empresário astuto e perspicaz como o Djô da Silva, por exemplo? Sabe-se, igualmente, que as relações do Bana com empresários nunca foram boas. Aliás, o cantor teve apenas dois empresários portugueses, em momentos diferentes, e, depois, abandonou-os, pois preferia trabalhar sozinho, por conta própria e sem se sujeitar à exploração de quem quer que fosse. Não creio que a “varinha mágica” do Djô da Silva tivesse impedido a “falência” ou “derrapagem financeira” de Bana, já que ele próprio, tanto quanto sei, não morria de amores pelo empresário da Cesária. Bana, que é avesso a “managers” musicais, quiçá por algum conservadorismo, sempre preferiu gerir e controlar diretamente os seus negócios ligados à música, numa espécie de promiscuidade entre a atividade interpretativa e a mediação.

Apoquentado pela doença, nos últimos anos, o Bana, um homem apaixonado pela música e pelo povo das ilhas e da diáspora, encarava a morte com normalidade e dizia-se preparado para o que desse e viesse, se bem que não deixando de reivindicar o apoio de companheiros da profissão musical em Portugal, mormente numa fase particularmente difícil da sua vida: “Estou mentalmente preparado para morrer a qualquer momento. Se morresse agora, morreria consciente daquilo que eu já fiz a favor da música cabo-verdiana. Não tenho medo da morte. Não me lembro de ter feito maldade às pessoas, por rancor. Sempre fiz favores às pessoas. Estou, neste momento, muito emocionado, porque, na vida, já passei por coisas e quem não se emociona não é filho de boa gente. Os músicos que ajudei outrora hoje não se solidarizam comigo, agora que preciso de apoio”.

Numa espécie de despedida antecipada, pedi ao Bana, na última entrevista que me concedeu em Lisboa, em Julho de 2012, que deixasse uma mensagem especial ao povo cabo-verdiano que tanto o aprecia. Visivelmente emocionado e com voz embargada, fê-lo, mas sobretudo seguro do seu valor como cantor e do carinho que o povo cabo-verdiano nutre por ele: “Aos meus admiradores e àqueles que gostam de me ouvir cantar, deixo um abraço com toda a sinceridade. Tenho vontade de cantar mas não posso. A minha carreira musical chegou ao fim. Estou doente, todos nós adoecemos e todos nós morremos. Aproveito para agradecer ao Governo de Cabo Verde que me deu uma reforma que vai ajudando a minha família. Vou vivendo com a reforma até quando Deus quiser…”. Afinal, um gigante da cultura cabo-verdiana dos nossos tempos, que lega à Nação um valiosíssimo património musical, e morre em paz consigo mesmo, sem remorsos, nem rancores.

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Autoria:Expresso das Ilhas,20 jul 2013 0:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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