Santo Antão rumo a um grande desafio

PorExpresso das Ilhas,26 out 2013 0:00

“Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha”. Confúcio

 

 

 Quem resolver atravessar o Canal mais protegido do Atlântico, em direcção à gi­gantesca ilha das montanhas, naturalmente apreciará o rigor da pontualidade do transporte marítimo e pode antecipada­mente planear com detalhes as suas actividades no “Dre­am Land”. Ao chegarmos ao renovado porto, na cidade do Porto Novo, uma bonita infra­estrutura construída de raiz, deparamos com mais uma mo­dernidade – a primeira escada rolante do país.

A vista de frente da cidade maravilhosa é extraordinária e as imponentes montanhas dão as boas vindas dizendo que apesar do tamanho, da força e da imponência, que nos acolhe nos seus braços e nos dá o ca­rinho e a morabeza que anda perdida nas cidades chiques do país, que de chiquérrimo resta pouco ou nada.

Ao pisarmos o chão da ilha e ao sentirmos o cheiro natural da terra, temos a garantia que chegamos ao paraíso e como no paraíso são os anjos quem nos comandam, por isso somos entregues nas mãos do “hiacis­tas” com selo de boa entrega. Normalmente os ”hiacistas”, com os seus Hiaces brancos e multicolores bem banhados e cheirosos, são gente simpática, que conhece os gostos dos seus clientes e fazem tudo para agra­dar aos mesmos, uma caracte­rística típica da ilha. Com um sorriso no rosto, vão propondo os seus serviços que dá gosto viajar com todos mas sabemos que só podemos viajar com um. Estão sempre disponíveis a aceitar a nossa escolha e respei­tam a nossa decisão .dá próxima vez.não vale a pena negociar, há uma dose de seriedade e carinho que nós, enquanto con­sumidores, sentimos que o ser­viço está garantido, os direitos bem preservados e com o selo de segurança. Logo de seguida fazemos a nossa escolha, a es­trada sonhadora ou a estrada moderna. Duas estradas, duas épocas diferentes, dois encan­tos diferentes, duas realidades diferentes, com um denomina­dor comum, charme.durante a estrada antiga, Dongo disparou, é francesa, apanhei-lhe no cais, subimos pelas montanhas, num nevoeiro intenso e invasivo, e quando chegamos ao Del­gadinho, pimba, o céu abriu: paramos, a mulher começou a chorar e eu fiquei preocupado e sem jeito, sem saber o que se passava! Em que posso ajudá­-la? “Espera um pouco, há-de passar, choro de emoção, choro de felicidade, estou feliz, estou feliz por ver a natureza, por ver tanta beleza junta, já viajei por muitos países mas nunca vi algo semelhante, isto é transcenden­te, Santo Antão”..

A força anímica

 As suas gentes provavel­mente poderão ser as pessoas mais rurais e mais urbanizadas do arquipélago, com traços comuns, de rigor, seriedade e de honestidade perante a coisa alheia e a coisa pública e convictos dos seus valores, num mundo descomposto e de muita “inseriedade” e hipocri­sia. Ilustres personalidades da ilha , saíam de Santo Antão, e prosseguiram os seus estudos em Lisboa, e outras paragens. Roberto Duarte Silva, nasceu na Ribeira Grande, em 1837, estudou Farmácia em Lisboa e depois seguiu para Macau e Hong Kong onde trabalhou, tendo sido encorajado pelos seus colegas para continuar os seus estudos em Paris. Em Pa­ris, continuou os seus estudos farmacêuticos, enveredou pela aérea científica, pertenceu a ilustre comunidade científica de Paris, morreu na Cidade  das Luzes, está sepultado no cemitério de Montparnasse. Mateus Lima, o homem que considerava os estudos de Ma­tematica como uma Ribeira de Flores, nasceu na Ribeira da Torre, no ano de 1862, seguiu para Lisboa onde licenciou-se em engenharia civil e de máqui­nas, especializou-se em Paris na prestigiada ENPC - École National des Ponts et Chaussés de Paris, posteriormente partiu para Macau onde em 1893, com outros portugueses fundou o li­ceu de Macau. Foi professor de Matemática e Físico-Química, trabalhou no Leal Senado e faleceu em Lisboa. Manuel d’Novas, desembarcou no Min­delo, trabalhou no barco Novas de Alegria e inspirado pela bên­ção do monte cara, despejou no Mindelo toneladas de mornas e coladeiras que encantou o mun­do na voz da Cize, do Bana e do Ildo Lobo. Rufino Ferreira foi um dos mais brilhantes, fino e inteligente jogador que desfilou na Fontinha onde muito de nós desfilamos, e que naturalmente o mundo gostaria de ver jogar, contam os mais velhos. De­sembarcou no Porto Grande, apaixonou-se como todos nós apaixonamos, mas decidiu prosseguir a sua viagem para as terras do Tio Sam.

Actualmente, falta apenas o espírito colectivo dos santan­tonenses e os visionários de outrora, rumo aos desafios que a ilha apresenta. O reino deseja o regresso dos seus filhos e o mundo turístico espreita esta oportunidade, a oportunidade de visitar a ilha de encantos e recantos.

 

De uma Economia Agrária a uma Economia Aeroportuária

Nos anos 60, as bananas de Santo Antão foram exportadas para a metrópole e as receitas serviram para educar os filhos dessa ilha. O café do cume das montanhas foi transacionada na grande praça comercial de Paris. O verdadeiro grogue da ilha foi contrabandeado em botes, rumo a cidade do Monte Cara, e apenas a “história da” reforma agrária conseguiu humilhar as gentes dessa ilha e provocar uma grande depres­são que durou 37 anos. Agora o leão acordou...

O grande desafio desta ilha será o Aeroporto Internacional Privado de Santo Antão, que as suas gentes não poupa­ram esforços até encontrarem a solução certa, a resposta pode estar a chegar do médio oriente. Com uma pista não menos de 2600 m e sem obs­táculos, será capaz de receber todas as aeronaves da família Boeing (B767,B757, B737-700/800) e Airbus (A330, A321,A320,A319) sem limita­ções. Será a primeira aerogare onde a natureza vai rimar com as energias renováveis, com aplicação da energia eólica e solar e com uma arquitectura maximizando o aproveita­mento das condições naturais, posicionamento do sol intenso, aquecimento, ventilação por­que somos inovadores, gostá­vamos de inovar. Com essas características, o aeroporto dificilmente ultrapassará os 50 milhões de USD.

A partir de agora esta en­contrada a vocação da ilha, com uma aposta forte no Poli­técnico Internacional de Santo Antão a moldes da TUM-Te­chnical University of Munich (uma Universidade de empre­endedorismo), que jogou um papel importante na trans­formação da Baviera de uma sociedade agrária para uma sociedade industrial e centro de Hi-Tech. As engenharias (renováveis agrária, aeronáu­tica e TIC) serão o prato forte da casa. Com isto a ilha das montanhas sonha no futuro, atrair os mais brilhantes es­tudantes dos PALOPS e pensa exportar, os futuros quadros para o mercado dos países da língua oficial portuguesa.

 

A experiencia Luxemburguesa

Há 3 décadas gentes da ilha das montanhas partiram para o Luxemburgo e ajudaram o Grão Ducado a transformar um país agrário numa das mais importantes praças fi­nanceiras do mundo. Agora o Luxemburgo pretende por via de cooperação ajudar a ilha de Santo Antão, transformar numa das economias mais próspero da sub-região afri­cana, apostando fortemente numa agricultura moderna, num serviço aeroportuário que atrai centenas de serviços e pessoas especializadas e uma aposta num turismo de quali­dade, ligado a agricultura e a natureza. Se nos anos 60 os nossos país saíram a procura de melhoria de condições de vida no alto mar e na terra longe, hoje, o mundo virá agradecer Santo Antão e co­nhecer a ilha onde nasceram os seus artesões e fazedores das suas terras.

Estamos perante um grande desafio, o desafio de resgatar a ilha e assumir por nós, a sua plenitude rumo ao seu de­senvolvimento. Durará entre uma a duas décadas, mas será o momento onde a cidade do Porto Novo, o espaço urbano mais nobre do país, vestirá de branco e será confundida com uma cidade mediterrânea, Atenas.

Por onde anda a sociedade civil! Por onde anda os san­tantonenses! Por onde anda os cabo-verdianos! It´s time.

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Autoria:Expresso das Ilhas,26 out 2013 0:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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