O aparecimento da obra arquitetónica da Enfermaria Regional da Cidade -Vila da Ribeira Brava, que é um dos monumentos analisados no recentemente livro apresentado em S. Nicolau, intitulado: Ribeira Brava – A URBE: História e Crítica das suas Obras de Arte, insere-se no contexto sócio-sanitário da ilha e de Cabo Verde e, na sequência, do desenvolvimento da medicina convencional a partir do século XIX, no âmbito do qual chegavam a Cabo Verde medicamentos e médicos especializados. É exemplo, para S. Nicolau, a chegada do Dr. Júlio José Dias, cujo busto datado de 1876 encontra-se implantado no largo do Terreiro da “Vila” da Ribeira Brava.
É de se realçar que a realidade sanitária da ilha foi, durante muito tempo, caraterizada pela presença sazonal de um médico, que por sinal manteve-se durante toda a época colonial. Esta situação contribuiu para que, em variados momentos, S. Nicolau tivesse apenas visitas periódicas de clínicos, o que suscitou o recurso à medicina tradicional, que deixou fortes tradições na ilha, apesar de ter sido prendada, na década de 40, do século XX, com uma bela obra arquitectónica para fins de cuidados médicos com grandes funcionalidades para a época.
A antiga Enfermaria Regional da Ilha de S. Nicolau e sua dimensão estética.
Ao centro do edifício, na sua parte alta, vêem-se referências da sua finalidade socio-sanitária, traduzida na inscrição ENFERNARIA REGIONAL DE S. NICOLAU – 1946, o que testemunha a sua construção nessa data. Ao tempo era Governador da Província João de Figueiredo (Santa Rita Vieira, 1993: 61).
É uma obra arquitetónica que se enquadra na chamada Arquitetura Déco que emerge no período posterior a 1925 e que constitui uma corrente impulsionada pelo espírito modernista da época. Fica ligado a Salazar em Portugal e o Estado Novo (1932-1974) no momento em que aquele estadista, segundo Raquel Henriques da Silva, responde positivamente aos pedidos de apoio às atividades artísticas, ciente de que a arte, a par da literatura e da ciência, na época, constitui a grande fachada da nacionalidade (Silva, 1995: 390).
O Estado Novo executou programas de obras públicas com recurso à arquitetura modernista, como foram os casos desta construção e da Escola Central levantada no Terreiro. Edifícios da Arquitetura Déco como esses expressam a ornamentação e cenografia da Arte Nova, com o propósito de passar imagem da vila ou cidade nas respetivas fachadas. Espelham uma representação de delicadeza resultante da propensão para a ordem estética das coisas e sensação de alcance de um mundo sensível muito próprio dos artistas. Procura, com a gramática decorativa de que é portadora, esconder o estilo que era muito mais sóbrio e estilizado, concebido com alguma habilidade e sensibilidade, mantendo-se-lhe, essencialmente, para resultar em elegantes imagens urbanas. A arquitetura das vilas e cidades portuguesas, emergente na primeira metade do século XX é impregnada do espírito modernista, fica muito a dever a esta etapa intermédia, da arte do século XX e trouxe consigo novos padrões estéticos (França 2004: 44).
A antiga Enfermaria Regional de S. Nicolau segue a linha arquitetónica referenciada e destaca-se pela beleza do alçado principal, de parede lisa, com faixas verticais nas extremidades das paredes do eixo centrala e de toda a obra arquitetónica bem como outros arranjos ornamentais.
As faixas verticais harmonizam-se com as colunas delgadas e graciosas que suportam os beirais de duas varandas simétricas e equidistantes, em relação ao eixo central da composição. A linha mais alta da parede, ao centro, apresenta-se de modo ondulado à semelhança do edifício da Escola Central.
Alçado principal da Enfermaria Regional
A descontinuidade, em altura, é provocada pela cobertura dos beirais das duas varandas simétricas e segue o esquema de cobertura a quatro águas, do corpo principal do edifício. Sugere uma solução decorativa que é típica na arquitetura Déco aqui em Cabo Verde e confere elevada graciosidade ao edifício no seu todo.
Esta obra arquitetónica de índole civil/pública e destinada a fins sanitários, existente na Cidade-Vila da Ribeira Brava é um dos monumentos históricos mais representativos do passado da ilha de S. Nicolau. Dai, a sua evidente preservação, tal como prevêem as cartas internacionais sobre património, referindo-se à herança edificada (UNESCO, 1997:8), por expressar o passado vivido pelos habitantes da ilha e continuar em proveito das novas e futuras gerações.
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