Terrer: A Terapia Financeira

PorJoão Chantre,2 fev 2015 10:29

“As ciências têm raízes amargas, porém os seus frutos são muito doces” Aristóteles

 

 

Não perco uma oportunidade de conversar, estudar, reflectir, investigar, seguir a performance socioeconómica e política das ilhas e fazer o bechmarking (comparar com outras paragens), registar os acontecimentos e propor as minhas soluções. Dou a minha contribuição porque sinto-me minimamente preparado e com coragem para correr este risco e despejar esses versos. Serei julgado com certeza, mas o medo nunca pode prevalecer sobre a verdade. “Escreve e incentiva mais gente a escrever”, disse-me um dia um amigo menos jovem e com um longo e respeitado percurso académico e político. O nome não interessa de momento…”aparentemente somos um país democrático mas com uma propensão muito grande para a ditadura”, sentenciou um mestre, numa aula de Direito no ISCJ. Poupemos o mestre, mas fica o registo – somos pouco tolerantes, temos demonstrado uma grande aversão ao diálogo, tem havido uma clara tentativa de condicionar a liberdade de expressão, o que nos leva a pensar que não morremos de paixão por “Charlie”, apesar de muitos de nós ter manifestado o desejo da moda: “Je suis Charlie”.

Há sinais de fragilização do Estado de Direito e temos colocado os interesses partidários acima dos interesses da Nação. Esta atitude é incompatível com a cultura democrática, pelo que é necessário reflectir sobre estas e outras questões que assombraram a nossa sociedade. Apesar de sermos novatos nesta matéria, recomenda-se profundas reflexões e adaptações realistas, pois sente-se que ainda somos sofríveis em matéria de democracia, na nossa jovem democracia. Uma democracia que precisa ser inovada e adaptada aos novos desafios de um mundo globalizado, com muitas diferenças e em turbulência. 

 

A disseminação da educação financeira nas ilhas 

Na área financeira já demos prova de que gerimos mal o nosso dinheiro, sobretudo o dinheiro público e não temos uma cultura de poupança. A patologia está diagnosticada, precisamos todos de uma terapia financeira. No que concerne à economia, temos que assumir o erro. Em 1975 cortamos o cordão umbical da pequena burguesia urbana e dos pequenos proprietários no meio rural, destruímos as forças produtivas e vivas das ilhas para quarenta anos depois descobrirmos que afinal o saber é a riqueza das nações: fazer dinheiro não é pecado, o dinheiro não envergonha, o trabalho dignifica o homem e ganhar dinheiro e saber aplicá-lo é um acto nobre.  

A cultura do indevidamente público via obras de infraestruturação cujo custo-benefício deixa muito a desejar, o esbanjamento público, o crédito mal parado, as consultadorias nacionais e internacionais duvidosas à custa do erário público, “as caravanas de alegria” que assolaram o país pode por em perigo o nosso equilíbrio macroeconómico e hipotecar o futuro dos mais jovens. Não temos esse direito e somos todos coniventes. Esse comportamento exacerbado que assolou o país, quando comparado com outras paragens, já deu provas que a longo prazo o resultado é desastroso. Hoje, a educação financeira, a ética, a cultura e a percepção do valor do dinheiro são requisitos fundamentais de qualidade e sustentabilidade que devem ser resgatados na área de Gestão pública/privada. Toda a visão míope, ganho imediato e ganancioso, põe em perigo a sustentabilidade das empresas/país. E por isso estranhamos a dificuldade em operacionalizar os órgãos de controlo e fiscalização de um Estado de Direito: o Banco Central, o Tribunal de Contas, os conselhos fiscais das empresas públicas, órgãos que por natureza devem ser autónomas e actuar com rigor e imparcialidade.

 

O paradoxo das valências desperdiçadas e o conceito da juventude

Somos um país jovem, com uma juventude criativa e desperdiçamos o talento desta maré de energia. Temos uma diáspora diversificada, rica e responsável para o sustento destas ilhas e marginalizamo-la. Adoramos o sucesso dos cabo-verdianos lá fora, e penalizamos e menosprezamos muito talento interno. Temos um risco sistémico elevado, qualquer projecto nas ilhas leva o triplo de tempo, requer triplo de orçamento e toneladas de barreiras para ser decidido/implementado. Convivemos mal com o poder de decisão, e a indecisão custa dinheiro. Vivemos numa sociedade em que os  jovens/pensadores/inovadores são tidos como lunáticos e os vendedores são vistes como festeiros e preguiçosos, num mundo globalizado, culturalmente rico; na criatividade, na moda, na diversidade musical, no entertainment, na indústria turística, na indústria das TIC, na comunicação, sectores onde as ideias e a inovação são a chave da competitividade e a janela do sucesso. Permutamos a morabeza pelo populismo e plantamos a desunião, o ciúme, a inveja e a indecisão. Os trabalhadores do “front line” têm medo de decidirem para não perderem os seus lugares, e os Top Managers descobriram que a indecisão é poder e a burocracia dá azo à corrupção.

 

O amor a terra

Surpreende-me ver gente da terceira idade na reserva, duplamente aposentado, com salários chorudos e a espreitarem lugares de vice nas caravanas de alegria. Ademais, nos poucos momentos de lucidez declaram que neste momento o interesse do Estado vem em quinto lugar e o mais importante actualmente é acumular capital do erário público, porque, tendo sido pecado ganhar dinheiro no passado, hoje chegou-se à conclusão que o dinheiro resgata o poder, paga as dívidas acumuladas e credita favores. Acredito que num país de jovens, a procura do primeiro emprego é urgente corrigir definitivamente estas situações injustas e gritantes. Já perdemos muito tempo mas ainda vamos a tempo…

 

Somos demasiado pequenos “to fail”

Na realidade, somos demasiado pequenos “to fail”. A nossa localização estratégica e a nossa pequenez, 500.000 habitantes fazem de nós um paraíso de oportunidades perdidas. Com uma riqueza natural incomensurável e inesgotável, o mar, o sol, o meio ambiente, o património arquitectónico e imaterial, uma diáspora espalhada pelo mundo, faz-nos enquadrar perfeitamente no conceito “Small is Beautifull” do E.F. Schumacher (o pequeno é bonito).

Podemos considerar e comparar que há quarenta anos arrancamos o processo de desenvolvimento juntamente com os Tigres Asiáticos, fomos ficando atrás e neste momento estamos bem atrás. Posicionamo-nos para o “pol position” como Tigres Africanos e já fomos ultrapassados pelas Seicheles e as Maurícias. Para mudar de rumo, é importante defender o interesse do Estado (povo) e o interesse privado, pois a economia constrói-se com confiança, investindo, produzindo, criando emprego, aproveitando as oportunidades, contornando as crises e apostando num crescimento real (não virtual) sustentado de forma a criar riqueza no país com reflexo no bem bem-estar das pessoas. Os detalhes/pormenores mudam com o tempo, mas os princípios prevalecem. Os princípios encontram-se lavrados nos manuais e nos registos da filosofia da Grécia antiga, a mãe de todas as ciências.

Em suma, ainda vamos a tempo de inverter o rumo do país de oportunidades perdidas. Hoje já não basta recorrer à ajuda internacional; vivemos numa aldeia global e a competitividade da nossa economia, do nosso turismo e da nossa capacidade de atrair o IDE (investimento Directo Estrangeiro) depende da nossa criatividade, da nossa capacidade de inovar, dos nossos contactos, da nossa energia e das nossas oportunidades.

Estou em crer que o futuro do nosso sucesso económico e do desenvolvimento humano deve passar por uma interacção entre o Estado e o mercado. 2015 será possivelmente um ano com elevado nível de endividamento das famílias, um grande stock de crédito mal parado, mais desemprego jovem, impostos mais pesados, perda de poder de compra das famílias, mais pobreza e menos regalias sociais. No ano das grandes comemorações, o 13 de Janeiro e o 5 de Julho são datas que não podem ser dissociadas. Foram lutas conquistadas pela implementação da República em construção, todos têm os seus heróis nacionais que merecem o nosso respeito e a estima da Nação. It´s time.

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Autoria:João Chantre,2 fev 2015 10:29

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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