Turismo de saúde e bem-estar em terras crioulas cabo-verdianas

PorJosé Almada Dias,4 nov 2015 6:00

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Na crónica anterior, abordámos o tema do turismo residencial como uma solução sustentável para o desenvolvimento de Cabo Verde, aparecendo como complementar ao tradicional turismo hoteleiro.

Nos comentários online a essa minha crónica, que agradeço, foi mencionada (e muito bem) a questão dos serviços de saúde do país receptor, como condição sine qua non para qualquer país poder atrair as populações seniores dos países desenvolvidos.

O turismo de saúde é milenar, tendo sido praticado nas grandes civilizações da Índia, Grécia e em Roma, envolvendo tratamentos medicinais ligados à água, com os famosos banhos romanos e turcos e também a curas espirituais.

Recentemente o turismo de saúde e bem-estar tem crescido exponencialmente a nível mundial, representando um volume de negócios superior a 100 biliões de dólares. Hoje as pessoas viajam como nunca à procura de saúde e bem-estar, sendo que mais de 5 milhões de pessoas fazem turismo médico um pouco por todo o mundo.

No ano passado, após um estudo feito em Portugal, chegou-se à conclusão de que o turismo de saúde e bem-estar pode render mais de 400 milhões de euros por ano a esse país, sendo a fatia maior para o segmento do bem-estar (spas, talassoterapia e termas).

Vários são os motivos, entre os quais o facto de nos países desenvolvidos as pessoas viverem cada vez mais, colocando uma maior pressão nos serviços de saúde, que continuam a ter longas listas de espera.

O turismo de saúde consiste normalmente numa combinação de férias (ou reforma) e tratamentos médicos. Vejamos alguns exemplos:

as grandes empresas e seguradoras da Europa e EUA enviam os seus funcionários e segurados para tratamento médico em países onde esses tratamentos são mais baratos;

os reformados dos países desenvolvidos escolhem viver num país onde podem continuar a gozar de tratamento médico em casa, no chamado assisted residential tourism (ex.: norte-americanos no México, escandinavos no Sul de Espanha).

Alguns dados interessantes: no Reino Unido, 74% das pessoas que fizeram tratamento médico no estrangeiro ficaram satisfeitas; e 97% consideram tornar a escolher tratar-se fora.

A imobiliária turística ligada à saúde torna os investimentos sustentáveis a longo prazo, visto que os compradores das casas têm maior motivação para viver nelas, uma vez que podem prosseguir os seus cuidados de saúde ao pé da casa comprada no destino escolhido.

Trata-se de uma modalidade diferente do usual comprador de casa de férias, que só a usa de vez em quando. Por outro lado, investir no mercado de reformados e terceira idade permite ter clientes que consomem os produtos e serviços de forma constante, com realce para os serviços que trazem valor acrescentado à economia local, como sejam os serviços de saúde.

O turismo de saúde tem como grande vantagem contribuir para a melhoria significativa da prestação de cuidados de saúde no país, permitindo ter hospitais e clínicas com serviços dos mais avançados. Este seria um enorme ganho para Cabo Verde!

Outra grande vantagem é a criação de postos de trabalho bem remunerados e com perspectivas de sustentabilidade a médio-longo prazo. Uma vez o país estabelecido como um destino de turismo de saúde e bem-estar, deixa de haver a preocupação com a volatilidade desses mesmos postos de trabalho, como acontece quando o desenvolvimento do turismo é baseado no turismo de sol e praia.

Convém realçar que, no continente africano, não existe ainda nenhum país a competir neste importante segmento de negócio, excepção feita à África do Sul.

Existe, portanto, uma grande janela de oportunidade para Cabo Verde se estabelecer como o destino tropical para turismo de saúde, bem-estar e reforma mais próximo da Europa.

Como fazer para chegar lá? Como competir com os grandes players já estabelecidos num negócio extremamente sofisticado, que envolve cuidar de pessoas e da sua saúde, considerando que essas pessoas vêm de países desenvolvidos e estão habituadas a um nível de serviço do melhor que existe no planeta?

Comecemos por analisar o que faz a concorrência. Em termos mundiais, o turismo de saúde tem vindo a ser desenvolvido sobretudo na modalidade de tratamentos mais férias, ou seja, em estadias curtas.

Defendo um modelo alternativo para Cabo Verde: turismo de saúde ligado ao turismo residencial, como forma de viabilizar a imobiliária turística.

Ou seja, ao invés de fazermos o que faz a concorrência, que é tratamentos e cirurgias altamente especializadas, para os quais levaríamos décadas a formar especialistas, devemos escolher uma estratégia de diferenciação dentro do mesmo sector: sermos o resort do Atlântico, como defendi na crónica anterior, criando resorts virados para os seniores, utilizando o conceito de retirement villages, em que os resorts se especializam em serviços para os reformados.

Esses resorts são muitas vezes denominados 5 star Retirement Villages in a place in the sun – um conceito moderno em que as pessoas são convidadas a viver e a desfrutar da qualidade de vida de um ambiente de 5 estrelas que não poderiam pagar no país de origem.

Trata-se de um mercado em franco crescimento, uma vez que, após a crise internacional, aumentou o número de pessoas que procura outras paragens para manter um nível de vida que já não consegue ter nos respectivos países de origem.

Para conseguirmos isso, teriam de ser estabelecidas parcerias com instituições públicas e privadas internacionais detentoras do know-how e da capacidade financeira necessários para a construção de mais clínicas de saúde e/ou capacitação das existentes. Estou a pensar, por exemplo, nas clínicas existentes nas ilhas do Sal e de São Vicente.

Naturalmente que no âmbito dessas parcerias, teria que se dar uma importância específica à formação e treinamento de técnicos e profissionais nacionais do sector da saúde, privilegiando a criação de emprego para os cabo-verdianos.

Há alguns anos, propusemos que as autoridades nacionais fizessem uma abordagem aos países escandinavos nesse sentido, com a criação de um programa de cooperação que visaria a formação nos hospitais universitários desses países de novos médicos e enfermeiros através da atribuição de bolsas de estudo.

Numa primeira fase, seria necessário recorrer a profissionais estrangeiros, e uma possível fonte seria a grande comunidade de técnicos e profissionais de saúde cabo-verdianos espalhada pelo mundo.

A proposta previa ainda o estabelecimento de parcerias com empresas do ramo do turismo de saúde e bem-estar, como sejam agências de viagens especializadas nesse sector e cadeias privadas de spas e de hospitais.

Tudo isso estaria ligado a um programa de incentivos para reformados do estilo Live in Cabo Verde, visando transformar Cabo Verde num destino de turismo de reforma/saúde conhecido mundialmente em 2020 (essa era a meta há 5 anos atrás). Alguns países já o fazem, como o Panamá, o México e até a longínqua Malásia, que consegue atrair europeus.

Nos anos da década de 1980 do século passado, dois grandes grupos económicos suecos vieram a Cabo Verde e escolheram a ilha de São Vicente, tendo proposto ao Governo de então a construção de dois resorts turísticos nas praias de São Pedro e de Palha Carga destinados a reformados suecos. As autoridades nacionais deixaram escapar esses projectos. Alguém consegue estimar o desenvolvimento que esses projectos teriam trazido para a ilha e para o país? Como estaria hoje o sector da saúde? E o turismo? E a economia?

Curiosamente, no fim da I República, Cabo Verde e a Suécia assinaram um Convénio de Saúde que dá reciprocidade de direitos em termos de Previdência Social aos habitantes dos dois países. Foi assinado pelo então ministro Silvino da Luz, já lá vão quase três décadas. Nunca Cabo Verde tirou partido desse acordo. E o mais impressionante é que não temos notícias dos nossos governantes visitarem os países escandinavos, que possuem das maiores taxas de ajuda pública e de cooperação com os países em desenvolvimento (ou de desenvolvimento médio como gostamos de pensar que somos).

No boom da imobiliária turística na década passada, vários resorts previstos visavam precisamente atrair as populações seniores do norte da Europa. Os projectos não avançaram pelas razões que se conhecem.

Há dias, nas redes sociais foi um corrupio de fotos da praia da Laginha, aqui na cidade do Mindelo, cheia de turistas vindos em barcos de cruzeiro. Toda a gente feliz! Eu fiquei revoltado, porque pus-me a pensar que, se este país fosse habitado por crioulos das Seychelles, Maurícias ou das Caraíbas (todos povos mais recentes do que nós), certamente essa praia estaria assim 365 dias por ano. E o Mindelo, ao invés de ser uma cidade turística em part-time, sê-lo-ia a tempo inteiro, seguindo a sua vocação natural. Mas acontece que este país é habitado por outros crioulos, o que ao que parece faz toda a diferença.

A razão de tamanha diferença entre povos com origens e história semelhantes é que por cá a cultura é de obstaculização e boicote, sobretudo aos nacionais; por lá, é de promoção e defesa de tudo o que é nacional. Como vimos isso ao vivo e a cores nas Seychelles! Eles aproveitam e criam oportunidades, nós gostamos e fazemos questão de as perder.

O atraso de Cabo Verde não é, decididamente, por falta de chuvas, uma dura e triste conclusão a que cheguei ainda nos primórdios da minha vida profissional, e que é hoje confirmada com as barragens cheias…

Vou “comentar o comentário” feito à minha crónica anterior por César Palmieri Martins Barbosa, um brasileiro amigo de Cabo Verde, e que dedica boa parte do seu tempo a preocupar-se com este país, pela assiduidade que demonstra nos jornais online. A sua pertinente análise sobre a ameaça demográfica que pesa sobre Cabo Verde há-de merecer por si só uma crónica. Mas, entretanto, pego na sua última frase: “Pesem bem, chegou o momento de pensar Cabo Verde com consequencialismo para não virar simples espectador do futuro”.

Concordo e diria ainda mais, meu irmão lusófono: Cabo Verde precisa de ser repensado, talvez mesmo reinventado.

E o turismo de saúde e bem-estar e a imobiliária turística serão certamente uma alternativa segura e sustentável. Vamos então (mais uma vez) acreditar que será possível.

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:José Almada Dias,4 nov 2015 6:00

Editado porExpresso das Ilhas  em  31 dez 1969 23:00

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