– O caso dos municípios da Praia, Sal, Boavista e São Vicente –
O debate público sobre o Programa “Casa Para Todos”, particularmente intenso no período que antecedeu as eleições legislativas, parece ter-se esmorecido entretanto, escamoteando um dos maiores desafios que Cabo Verde irá enfrentar nos próximos 15 anos: responder à enorme procura por habitação, especialmente nos municípios que deverão registar um acentuado crescimento da população residente.
Este pequeno artigo tem como objetivo, à laia de contribuição, estimar as necessidades de habitação em 04 desses municípios até 2030 – nomeadamente Praia, Sal, Boavista e São Vicente – e sugerir pistas que possam ser consideradas na formulação de políticas públicas necessárias para responder a este desafio. Não é nossa pretensão descer ao nível de detalhe quanto ao diagnóstico da situação atual e avaliação de políticas recentes neste domínio – com certeza necessários mas que entretanto não caberia num simples artigo de jornal -, nem tampouco apresentar propostas detalhadas de opções de políticas, neste momento e neste espaço.
Projeções demográficas até 2030, produzidas pelo Instituto Nacional das Estatísticas (INE), revelam que a população de Cabo Verde deverá crescer 18% em relação às estimativas de 2015, acrescentando-se mais 96.000 habitantes a estas ilhas neste período. Tal tendência não é, contudo, uniforme em todos os municípios. Enquanto alguns municípios deverão perder população, como Paúl (-29%), Ribeira Grande de Santo Antão (-23%), São Miguel (-17%), Brava (-16%), Rª Brava (-12%), outros municípios irão registar um crescimento acentuado da sua população residente. Entre estes, destacam-se os municípios da Praia (+53 mil habitants), do Sal (+20 mil), da Boavista (+16 mil) e de São Vicente (+10 mil).
Estas projeções, a realizarem-se (e não há razões para se acreditar que não), terão impacto substancial a diversos níveis (sistemas de educação e saúde, infraestruturas de energia, água e saneamento, ordenamento do território e planificação urbana, transportes, orçamentos municipais, etc.) – quer nos municípios com redução da população quer nos com projeção de aumento. Respostas deficientes ou insuficientes por parte dos decisores públicos (e privados, vale dizer) produzirão indubitavelmente efeitos imprevisíveis mas absolutamente negativos sobre a qualidade de vida dos caboverdeanos a médio e longo prazo – os bairros “emergentes” nas periferias de Sal Rei, de Espargos e de Santa Maria são disso exemplos claros.
No que se refere, particularmente, à problemática da habitação, projeções da PD Consult, gabinete de estudos e consultoria com sede na Praia, indicam que apenas nos municípios da Praia, Sal, Boavista e São Vicente, haverá necessidade de 25.000 alojamentos para acomodar o aumento estimado da população, requerendo um investimento global de 88,3 milhões de contos. Estas projeções não consideram as necessidades referentes à resolução do problema da precariedade das habitações existentes; consideram apenas as NOVAS necessidades.
Em termos quantitativos, o maior desafio deverá ser o município da Praia. O crescimento da sua população nos próximos 15 anos (+35%) irá exigir 13.100 novos alojamentos, num investimento global estimado em 46,5 milhões de contos.

Os casos do Sal (+59%) e da Boavista (+110%) requerem igualmente uma atenção especial, pelos possíveis impactos que políticas habitacionais inadequadas, atrasadas ou inexistentes, podem ter sobre o setor do turismo que, recorde-se, já representa 21% do nosso PIB e tem nessas duas ilhas os seus principais centros. Na ilha do Sal as necessidades de habitação deverão atingir as 5.000 unidades, representando um investimento estimado em 17,7 milhões de contos. A Boavista irá precisar de 4.300 novos alojamentos até 2030 (15,3 milhões de contos de investimento). A ilha de São Vicente irá precisar de quase 2.500 novas habitações nos próximos 15 anos, o que exige investimentos estimados em 8,8 milhões de contos.
O Programa “Casa Para Todos” teve o mérito de trazer à luz do dia esta problemática e constituir o mais ambicioso instrumento de política pública para a área da habitação na história de Cabo Verde. No entanto, além de insuficiente em termos quantitativos, face às necessidades identificadas então, o Programa padeceu de fragilidades substanciais, desde a sua conceção e arquitetura à sua implementação, que afeta(ra)m a sua sustentabilidade organizacional, financeira, económica e social. As devidas ilações devem ser, contudo, extraídas desta experiência.
A construção de uma resposta - ou, melhor, de um leque de respostas integradas - para lidar com este desafio da habitação requer a adoção de pelo menos 03 princípios basilares. Primeiro, considerar a transversalidade e a complexidade do conceito de “habitação”, que deve ultrapassar a visão simplista de habitação como um simples imóvel produzido a partir da combinação de um leque de insumos, um dado custo (visão eminentemente economicista) para ser assumido como uma resposta a uma necessidade inserida num dado contexto social, cultural e ambiental, com dinâmicas próprias – onde se destacam os fluxos migratórios intra e inter-ilhas.
Segundo, ter em conta que as politicas voltadas para a habitação devem ter uma abordagem sistêmica (mais do que uma conceção simplista “chave na mão”), que considere todas as etapas da sua “cadeia de valor”, os múltiplos intervenientes diretos e indiretos e as mais ou menos subtis interações entre eles, para que as soluções sejam as mais eficientes, sustentáveis, justas e equilibradas possíveis.
Terceiro, considerar que nem o Governo e nem os Municípios estarão em condições de responder por si sós a este enorme desafio. Será, por isso, muito importante integrar outros atores na construção das soluções, entre as quais o setor privado (através de modelos de negócio criativos, inovadores e eficazes), as Ordens Profissionais (particularmente, de Engenheiros e de Arquitectos), a Academia, as ONG´s, as confissões religiosas, etc.
É necessário que os poderes públicos (Governo Central e Municípios), mas também o setor privado, se debrucem sobre estas projeções, enquanto desafio mas também enquanto oportunidade de negócio. Num momento em que se anunciam ou já estão em curso investimentos avultados intensivos em mão-de-obra nos 04 municípios acima referidos, é absolutamente urgente criar um ecossistema que combine políticas públicas, atração do investimento privado e mobilização de outros atores sociais, visando disponibilizar respostas atempadas, eficientes, integradas e sustentáveis a esta problemática de habitação em Cabo Verde.
Notas técnicas:
As projeções demográficas até 2030 têm como fonte o Instituto Nacional de Estatísticas (INE). A quantidade de habitações necessárias foi obtida usando-se como referência a media de indivíduos por alojamento em cada município, de acordo com os dados do CENSO 2010 do INE. Para as estimativas de investimento necessário foram utilizados como pressupostos a área media por imóvel do programa Casa Para Todos (70m2), custo médio indicativo de construção de 45 contos/m2, e um custo de infraestruturas complementares equivalente a 12% do custo estimado das construções.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 783 de 30 de Novembro de 2016.
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