Descendentes de Judeus em Cabo Verde no século XX colonial

PorExpresso das Ilhas,12 jun 2017 6:00

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No âmbito do “Projecto de Salvaguarda da Presença e Herança Judaicas em Cabo Verde – séculos XIX e XX”, promovido pela Cape Verde Jewish Heritage Project, Inc., com sede em Washington D.C., e parcialmente financiado pela World Monuments Fund, foi feito um levantamento de dados respeitantes aos comerciantes judeus que passaram a residir no arquipélago a partir de meados do século XIX e aos seus descendentes directos, no Boletim Oficial de Cabo Verde, do ano de 1900 até 1974, inclusive.

Foram identificados os indivíduos que possuem os apelidos das famílias estudadas, oriundas de Marrocos, de Gibraltar, da Argélia e de Portugal continental, e outros, que não usando nenhum destes apelidos, são conhecidos na sociedade cabo-verdiana como sendo oriundos destas mesmas famílias. Trata-se, portanto, de um ficheiro que será necessário completar, à medida que forem sendo identificados outros descendentes que não adoptaram nenhum dos referidos apelidos.

Foi possível reunir dados respeitantes a alguns dos comerciantes judeus de primeira geração que se instalaram em Cabo Verde e que faleceram no século XX, tais como Bento Levy e Benjamim Alves.

A maioria dos dados refere-se, portanto, a filhos e netos dos comerciantes judeus de Marrocos e Gibraltar que viveram em Cabo Verde no século XIX, e, nos últimos anos, a alguns bisnetos. São reveladas informações sobre muitas mulheres, e surgem mais dados relativos a famílias sobre as quais se reuniram menos elementos até agora, tais como a família Azulay, na Brava, Abitbol, em S. Nicolau, Benahim, em Santo Antão e S. Vicente, Seruya, em Santiago, Azancot, em Santo Antão e S. Nicolau, Azagury, em S. Vicente e Levy Bentub, em Santo Antão.

Pode ainda dizer-se que a conjugação de apelidos dos netos revela, até certo ponto, uma estratégia matrimonial entre estas famílias, mas sobretudo, alianças matrimoniais com famílias de uma elite económica e/ou cultural cabo-verdiana de presença mais antiga no arquipélago, de origem portuguesa.

O principal aspecto que surge de forma muito notória é a presença expressiva destes descendentes na actividade económica das ilhas ao longo de todo o período colonial do século XX, com um peso especial no comércio de importação e exportação, mas também com uma presença quase permanente nas iniciativas de cariz industrial. Também estão presentes nos sectores da pesca, da agricultura e da pecuária. Nota-se que constituíam firmas entre si, mas também com sócios cabo-verdianos de outras origens. São também notórias as ligações directas a Portugal, a outras ilhas atlânticas, nomeadamente às Canárias, e a outros territórios ou países ditos lusófonos, como Angola e Brasil, para além dos Estados Unidos da América.

Com efeito, todos os anos surgem indivíduos destas famílias na lista dos maiores contribuintes da então provínica, em especial, a família Levy, da Praia, o ramo Benoliel de Carvalho, da Boavista, Abraham Julião Brigham, de Santo Antão, e, de acordo com os períodos, Salomão Benoliel, da Boa Vista, Fernando Wahnon, do Paúl, Santo Antão, e a família Cohen, da Ponta do Sol, Santo Antão. Estes indivíduos e outros, como Rafael Anahory na Brava, Severo Anahory na Boa Vista, membros das famílias Benchimol e Alves em Santa Catarina foram muito frequentemente eleitos ou nomeados para diversos órgãos públicos de regulação da actividade económica no arquipélago. A presença dos maiores empresários acima referidos é também constante e muito expressiva nas Associações Comerciais, Agrícolas e Industrial do Barlavento e do Sotavento, nas quais quase sempre assumiram cargos de direcção. Pode afirmar-se sem rodeios que não se pode fazer a História Económica de Cabo Verde no século XX colonial sem estudar o contributo destas famílias e indivíduos, e, vice-versa, que para se compreender o papel dos acima referidos na sociedade cabo-verdiana do século XX colonial é necessário, e até, imprescindível elaborar uma História Económica das ilhas, uma vez que estão directamente implicados em todos os sectores e actividades económicas, ainda que com um peso mais expressivo no comércio e nas poucas iniciativas industriais.

Pela análise dos dados reunidos, revela-se também muito significativa a participação destes descendentes na área do desporto, havendo quase sempre um descendente integrando os corpos gerentes das diferentes associações desportivas que foram surgindo em todas as ilhas ao longo do século XX.

Nota-se a presença de alguns professores primários de carreira, tais como Veríssimo Wahnon e David Benoliel, incluindo várias mulheres, e muitos destes descendentes são nomeados ou eleitos para cargos públicos, com especial expressão no período da Iª República portuguesa (1910 – 1926), havendo vários que foram nomeados como administradores de concelho durante esse período.

De entre os poucos funcionários da carreira adinistrativa, de notar os irmãos Benrós como administradores. Por fim, alguns descendentes dedicaram-se também a actividades marítimas, sobretudo os oriundos da ilha Brava, das famílias Anahory e Ben David.

Assim, uma das principais conclusões a que se chega pelo levantamento destes dados, e na perspectiva de uma maior compreensão do objecto de estudo, é a necessidade de se fazer uma História Económica de Cabo Verde do século XX, de forma a compreender o papel destas famílias na sociedade cabo-verdiana, já que se trata de actores incontornáveis neste sector da vida do arquipélago.

Seria, de igual modo de interesse elaborar uma História do Desporto em Cabo Verde, vista a sua presença expressiva e constante nesta área ao longo do século XX colonial.   

 

*Historiadora

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 810 de 07 de Junho de 2017.

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Autoria:Expresso das Ilhas,12 jun 2017 6:00

Editado porRendy Santos  em  9 jun 2017 16:44

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