A lei de feijão-mistura

PorExpresso das Ilhas,22 jun 2017 6:00

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Henrique Teixeira de Sousa é um dos poucos escritores caboverdianos a introduzir um olhar clínico sobre as relações socioétnicas na ficção. Acaba de ser reeditada, pela Academia Caboverdiana de Letras, a sua colectânea Contra Mar e Vento, que inclui o conto “Encontro”, o mais acabado exemplo da abordagem ficcional que ele fez ao problema em questão.

No referido conto, o nosso escritor Henrique Teixeira de Sousa pôs a tónica nos conflitos sociais, por meio da narração de uma cena de pancadaria em São Filipe, na ilha do Fogo, provocada pela tentativa de namoro entre um rapaz que não era de «tez clara» e uma moça que «veio de Lisboa».

Nesta narrativa, destaca-se o pendor emblemático da expressão do primo da moça, que se opunha à possibilidade de namoro entre os protagonistas do conto, para impedir que fosse implantada nesta terra «a lei de feijão-mistura», isto é, o amor entre um «mulato» e uma «branca». Aliás, tal conflito em praça pública em São Filipe entre o primo e o pretendente, cada um dos quais com os seus respectivos aliados, simbolizava a peleja de «Abel contra Caim». O que significa que não era questão de pouca monta.

A ênfase nos problemas sociais desta natureza mereceu também uma atenção do escritor em termos sociológicos. No contexto daquela época, tendo como principais causas a seca e crise agrícola nacional dos anos vinte e a crise económica mundial do pós-1929, o arquipélago de Cabo Verde enfrentava uma profunda alteração da estrutura social. Assistia-se ao colapso da velha estrutura social que remontava à época escravocrata e que era simbolizada pelo mundo dos sobrados que dominava o meio caboverdiano, principalmente nas ilhas agrícolas de Santo Antão, São Nicolau, Santiago, Fogo e Brava.

Entre essas ilhas agrícolas, a ilha do Fogo era a que parecia apresentar uma estrutura social mais rigidamente hierarquizada, cujas relações entre classes eram mais formais, pelo que as famílias resistiam com maior veemência às vagas de mudança social.

Não obstante, a crise económica provocara o desaparecimento do modo de vida senhorial da velha elite branca, que preferia emigrar para o centro do império, para as outras antigas colónias africanas ou para o Brasil, tanto por não suportar a perda do seu antigo estatuto social, quanto por não suportar a convivência com os mulatos em ascensão progressiva. Desse modo, os brancos dos sobrados foram sendo substituídos pelos mulatos das lojas (isto é, os comerciantes), o que se traduziu numa profunda alteração da paisagem étnica.

Numa tentativa de abordar a categorização social, o médico e escritor Henrique Teixeira de Sousa, no artigo intitulado “A Estrutura Social da Ilha do Fogo em 1940”, apresentava uma explicação sociológica que não só remetia para as origens raciais das desigualdades sociais, como também retomava uma determinada classificação da pirâmide da estrutura colonial.

Nessa época, a tipificação de classe conformava-se com o tópico da cor, embora ilustrando a complexidade e a recomposição permanente do tecido económico e social, destacando um empobrecimento de pessoas da etnia branca, paralelamente a uma progressiva ascensão social de negros e mulatos, num processo de transformação da estrutura social que, na perspectiva sociológica de Gabriel Mariano, decorria do «funco» para o «sobrado».

Assim, a cor de classe verificava-se nitidamente em todas as referências do escritor foguense. Num outro artigo da época, intitulado “Sobrados, Lojas e Funcos”, Henrique Teixeira de Sousa retomava a discussão sobre as categorias socioétnicas na sua ilha natal.

Em 1992, no livro de entrevistas Cabo Verde: Encontro com Escritores, Henrique Teixeira de Sousa tentou justificar a sua opção pela abordagem literária da cor da pele das personagens e dos conflitos derivados dessas diferenças. Recorde-se que, em contrapartida, na esteira de alguns escritores claridosos, o ensaísta português Manuel Ferreira defendia a ausência de conflitos decorrentes das diferenças de cor em Cabo Verde.

Ciente dessas duas perspectivas antagónicas, Henrique Teixeira de Sousa tentou justificar a sua própria posição: «Conheci esse racismo na minha ilha. A aristocracia branca do sobrado, descendente de antigos donos de escravos, mantinha a mesma atitude senhorial em relação ao negro e ao mulato [...]. Ora, Manuel Ferreira conheceu e viveu uma realidade social muito diferente. Este escritor permaneceu alguns anos em S. Vicente, nos anos 40, ilha onde os privilégios de classe já não coincidiam com a cor da pele [...]. [Note-se porém que] o perfil da sociedade da capital [de Cabo Verde] era idêntico ao da sociedade de S. Filipe.»

Realce-se também que, na época colonial, se os significados rácicos se transmutavam em diferenças sociais, tal era sinal de que a dimensão racial tinha efeitos na estrutura da mentalidade. Constata-se a persistência de preconceitos rácicos, embora subvertida pela transmutação semântica dos termos de classificação.

Pode, por isso, concluir-se, sem grandes hesitações, que o conceito de raça não tinha ainda sido alvo de uma total erosão susceptível de o suprimir do imaginário individual e colectivo. Seria importante, ainda nos dias de hoje, indagar sobre as reconfigurações de processos sociais antigos e de preconceitos rácicos, tanto no arquipélago como na sua diáspora...  

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 811 de 14 de Junho de 2017.

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Autoria:Expresso das Ilhas,22 jun 2017 6:00

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