Recordando Manel d´Novas: o valor sagrado da família

PorExpresso das Ilhas,3 out 2017 6:00

Em 28 de Setembro de 2009, faz precisamente oito anos, por volta das cinco horas, falecia no Hospital Dr. Baptista de Sousa, na sua cidade adotiva do Mindelo, um dos maiores compositores de sempre da música cabo-verdiana, Manel d´Novas, cuja trajetória artística marca, de forma decisiva e indelével, a sociedade do seu tempo e o património imaterial das ilhas que o viram nascer. Talentoso poeta-trovador e criador de uma obra musical que, pela sua dimensão, ultrapassa as fronteiras nacionais, Manuel de Jesus Lopes, que também respondia por Naiss, ou Sonaize, nasce na ilha de Santo Antão, na localidade de Penha de França, na então pacata Vila da Ribeira Grande, em 24 de Dezembro de 1938, onde decorrem os seus estudos primários em casa da mãe Yayá (Gualdina Augusta Lopes), até à data da sua (e) migração para a ilha vizinha de São Vicente, ainda na fase da pré-adolescência, onde se juntaria ao tio materno Rufino Lopes, antigo guarda-fiscal no Tarrafal de Monte Trigo.

Se bem que Manel d´Novas não tivesse sido perfilhado, na altura do nascimento, por alegado descuido ou distração do pai, as relações entre ambos foram boas, sem qualquer proximidade, é certo, nem sequer o não reconhecimento formal da paternidade rejeitado pelo filho, já na fase adulta, em sinal de “desforra afirmativa”, como diria alguém, teria perturbado o equilíbrio psicológico e emocional e o percurso musical invejável do compositor, pelo menos de forma visível.

Oriundo de uma família matriarcal santantonense modesta, Manel de Yayá, nominho pelo qual era também conhecido no círculo de relações mais próximas, passa a infância entre Penha de França, em casa da mãe, e no Tarrafal de Monte Trigo, no Concelho do Porto Novo, em casa dos tios Rufino e Apolónia, onde se processaria a sua socialização primária, antes que o menino-prodígio de Santo Antão abraçasse definitivamente a vida marítima de longo curso, em 1957, através, primeiro, do navio Novas de Alegria no percurso Cabo Verde-Senegal, como moço de câmara e, mais tarde, marinheiro. Aliás, foi a bordo dessa “orquestra flutuante”, onde prestou serviço durante quatro anos, que Manel d´Novas diz ter aprendido a tocar guitarra com a rapaziada que lá trabalhava (…) nas noites de música que se realizavam”, antes de compor a sua primeira morna Pinote na vapor que viria a ser gravada por Nhô Balta, quiçá nos finais da década de 60.

Casado com D. Orisa Vitorina Lima Lopes, falecida em 13 de Junho de 2007, e pai de três filhos varões, Manel d´Novas conseguiu conciliar a sua atividade artística e profissional com as suas obrigações familiares, que nunca descurou, mesmo nos momentos sagrados de “paródia” ou de boémia, que integravam seu tempo e, igualmente, fonte de inspiração das suas composições. Melhor do que ninguém, a sua neta predileta Carla, que, desde os três anos passou a viver com o “papá Manel” e com a avó Oriza, conhece a distribuição do tempo, os hábitos e os estilos de vida do compositor mindelense, sobretudo quando, por razões de saúde, resolve o avô virar-se mais para a família e, assim, abandonar definitivamente o lado boémio da vida que tanto adorava: “Habitualmente, levantava-se cedo, regava as suas plantinhas ali no terraço, às vezes caminhava com a minha avó, quando o joelho o permitia. Depois, metia-se num quartinho isolado ali no terraço que mandou construir onde tinha os seus instrumentos musicais, escrevia as suas composições com o seu bloquinho de notas e caneta, ou apenas anotava alguma coisa interessante. No quarto, o meu avô queria sossego e concentração”.

Já na reforma antecipada, aos 60 anos, e até à doença do joelho e às tonturas que tanto o apoquentavam, o compositor não se limitava apenas a cuidados com plantas e à criação musical, “papá Manel gostava de ajudar nas lides domésticas, lavava a casa de banho, passava o pano no chão, sobretudo quando fica em casa definitivamente. O meu avô não era uma pessoa para ficar sentada, sempre ele foi uma pessoa mexida, dava aqui, dava lá, ele gostava de fazer ´mandód´ e compras, tomava o seu banho, perfumava-se, apanhava o seu carro, saía da casa por volta das 11 horas, ia à ´morada´ e dizia-me:´Caia, mim j´am escuá. Quando papá Manel é atingido pelo acidente cerebral, verifiquei que aquela situação mexeu muito com ele, é obrigado é abandonar de vez a bebida, torna-se completamente sedentário e refugia-se em casa”.

Defendendo, em qualquer circunstância, o bem-estar da sua família, “apesar de ter sido um homem muito boémio e parodiente, como reconhece a própria filha-neta que com ele chegou a estabelecer relações de muita proximidade e afeto, “o meu avô não permitia que nada faltasse em casa, preocupava-se com a grande compra do fim do mês, mas comprava pontualmente aquilo que fosse necessário”.

Sem se impor com violência, Manel d´Novas exercia com autoridade o papel de pai e de marido no seio da sua família, protegendo, defendendo e acarinhando sempre que fosse preciso fazê-lo. Para Emanuel Lopes (Neu), filho primogénito do renomado compositor e pai da Carla, “vivi com o meu pai várias fases: vivi o pai extremamente protetor. O meu pai não era de mimar, ou melhor, mimava, quando se tornava necessário, brincava quando era de brincar e batia quando era para bater como faziam os pais de antigamente (risos). Ele não era autoritário, mas quando dava cada chibatada ou latada ele tinha uma explicação, ele ia falando e ia dizendo e a lição ficava. Às vezes, três ou quatro latadas eram suficientes, dependendo da gravidade da situação”, mas tudo feito à medida do compositor e com alguma pedagogia.

No cumprimento da disciplina em casa, Manel não se sentia isolado na punição dos filhos, pois “a minha mãe Orisa também não era para brincadeira, ela protegia-me, sim, do meu pai, como todas as mães, quando via que o meu pai era mais exigente e mais rígido, mas quando devia atuar ela também atuava”. Em todo o caso, a gestão rígida da autoridade paternal compositor, visava sobremaneira “a transmissão de bons valores, pois o meu pai que queria o melhor para os filhos, para evitar que os filhos passassem dificuldades e privações que ele passou. Apesar de rigoroso e de muito metódico em casa, o meu pai era carinhoso, brincalhão e muito humorista. Tinha todo o tempo para a família, mas também tinha o tempo dele, para os amigos e para paródias.”

No relacionamento com a família, Manel d´Novas defendia e cultivava o valor da vida, mas, igualmente, o respeito pelos mais velhos e, ainda, pelo casamento, fonte de cumplicidades, associados ao rigor, à disciplina e à apresentação de resultados. Extremamente rigoroso e exigente em casa, sem, todavia, ser autoritário, explica Edson,  filho-codé do poeta-trovador, “o meu pai cobrava por resultados, uma forma de educar e, para mim, o melhor caminho que seguiu”. Desprendido do lado material das coisas, mas enfrentando graves problemas de saúde, que o angustiavam, o compositor mindelense de Penha de França e ícone da música cabo-verdiana é abalado com a perda súbita da sua amada Orisa e companheira de tantos anos e, por isso mesmo, desgostoso, mergulha-se num clima de profunda tristeza e solidão, que conduz, irremediavelmente, ao seu prematuro desaparecimento físico, mas legando ao país e às gerações vindouras um enorme legado musical.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 826 de 27 de Setembro de 2017. 

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Autoria:Expresso das Ilhas,3 out 2017 6:00

Editado porAntónio Monteiro  em  5 out 2017 10:47

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