Os eventos culturais verdianos de 2017. Mindelact, o evento do ano

PorJosé Almada Dias,31 dez 2017 18:43

3

O ano de 2017 foi pródigo em grandes eventos culturais e desportivos aqui nas ilhas verdianas. Muitos desses eventos já se repetem há muitos anos, em alguns casos, há décadas. O Carnaval do Mindelo, o mais antigo de todos, é já uma festa quase centenária, como também são as celebrações da Passagem do Ano na Baía do Porto Grande. Um pouco por todas as ilhas, as festas juninas e outros santos populares têm as suas raízes perdidas no tempo. Mais recentemente, os festivais de música espalharam-se pelas ilhas e concelhos, desde que um grupo de jovens da cidade do Mindelo resolveu criar na década de 80 do século passado o Festival de Música da Baía das Gatas, seguindo o exemplo de Woodstock, que aconteceu em 1969.

Não é objectivo desta crónica analisar as razões para termos todo esse positivo frenesim de actividades culturais, nem tão-pouco tentar perceber a nossa relação especial e privilegiada com a música, que nos levou a produzir uma lenda da música mundial moderna como foi Cesária Évora. Fenómeno que, aliás, estamos longe de compreender e de dele tirar partido – basta ver que o país ganha muito pouco com o legado de Cise, se tirarmos o facto de a nossa Diva dos Pés Nus ter aberto e facilitado o caminho para muitos jovens artistas nacionais hoje com acesso a muitos palcos internacionais.

Voltando aos grandes eventos nacionais, é voz corrente nas ilhas que a maioria dos eventos de 2017 excedeu todas as expectativas, catapultando os mesmos para um nível que os pode tornar excelentes produtos turísticos, para lá de agregar economias com carácter duradouro e por isso mesmo auto-sustentáveis. Significa que estes eventos atingiram uma fase crucial do seu crescimento e amadurecimento, o que coloca um enorme desafio aos seus promotores e à sociedade verdiana em geral: ou conseguem dar o salto e tornar-se eventos de referência capazes de serem cartazes turísticos que atraiam turismo exógeno e doméstico de forma regular, incluindo a nossa grande diáspora; ou ficam para trás na grande corrida aos patrocínios e fontes de financiamento, correndo o risco de se tornarem irrelevantes e desaparecerem. A vida é assim: os recursos serão sempre escassos e por isso mesmo não chegarão para todos.

Citaria como bons exemplos os Carnavais do Mindelo e da Ribeira Brava, a Passagem do Ano em São Vicente, o 1º de Maio no Fogo, o AME e o Kriol Jazz Festival na Praia, as Festas Juninas um pouco por todo o país e alguns festivais de música.

No meio de toda esta variedade de eventos que nos surpreenderam pela sua qualidade em 2017, para esta crónica o evento do ano foi, sem dúvida, o Mindelact 2017, sob o lema Arte, Alma e Afecto.

Este festival de teatro que nasceu na cidade do Mindelo há 23 anos, e que tradicionalmente se realiza no mês de Setembro, mudou-se este ano para o mês de Novembro, evitando os constrangimentos que todos os anos se verificavam quando chovia no meio do festival, numa cidade que deixou de estar preparada para a chuva.

Como é sabido, neste ano de 2017 não choveu na cidade do Mindelo, tendo sido um péssimo ano agrícola em todo o país. Caso para dizer que foi um autêntico golpe de teatro da Mãe Natureza, cansada de avisar, ao longo dos séculos, que este país não pode depender das chuvas para o seu desenvolvimento.

Mas regressemos à nossa escolha do Mindelact como o evento do ano e apontemos as razões que nos levaram a essa eleição.

Desde logo, a qualidade do evento, das peças exibidas e dos grupos escolhidos. Melhor seria e vai ser cada vez mais difícil, pelo que não invejo a sorte do João Branco e da equipa de promoção do festival nos próximos anos, apesar de saber que estarão à altura do desafio.

Por outro lado, o fenómeno da internacionalização deste evento, per se um autêntico caso de estudo, com artistas vindos este ano de Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Espanha, Inglaterra, Japão, Moçambique, Portugal, República Checa, Senegal e São Tomé e Príncipe. Como explicar que um grupo de rapazes e raparigas que moram numa pequena cidade atlântica consiga atrair artistas de qualidade mundial e catapultar um pequeno festival de teatro para as bocas e palcos do exigente mundo artístico mundial...

E por fim compreender como todo este sucesso local, e também mundial, foi conseguido sem a intervenção de entidades públicas, sejam elas locais, nacionais ou internacionais.

Estamos, ao que tudo indica, perante um caso sério de empreendedorismo, um caso de sucesso, que, se recuássemos 23 anos, ninguém no seu juízo perfeito se atreveria a prognosticar. Nessa altura, o Festival começou com 5 peças de 3 grupos nacionais. Hoje, volvidos 23 anos, são 40 peças protagonizadas por 20 grupos e uma centena de artistas vindos dos 4 cantos do mundo. Dá para acreditar?!

É, sobretudo, deste ângulo e por este prisma que gostaríamos de tentar compreender o sucesso do Mindelact e dele extrair exemplos a seguir.

Num tempo em que o conceito de empreendedorismo entrou no léxico de todos, e que o seu ensino e fomento é quase feito por decreto, um caso de estudo destes aqui dentro de portas é um achado.

O Mindelact nasceu da iniciativa privada de cidadãos mindelenses amantes das artes e, especialmente, amantes incondicionais do teatro, para muitos, pai e mãe de todas as artes cénicas.

Não foi uma criação nem do Estado de Cabo Verde nem da Câmara Municipal de São Vicente. A juntar a isso, em nenhum momento da sua história, o Mindelact foi gerido nem promovido por alguma entidade pública, contrariamente, por exemplo, ao Carnaval ou aos festivais de música, que, apesar das suas raízes populares, acabaram por ser absorvidos pelos poderes públicos, com todas as vantagens e as imensas desvantagens que isso acarreta num país onde ainda se politiza em demasia todos os grandes eventos.

O cultivo das artes sempre foi sinal de avanço civilizacional ao longo de toda a história da humanidade. O desenvolvimento de um povo não se esgota nos indicadores económicos, sociais, ou mesmo ambientais do seu país, mas demonstra-se, sobretudo, pela educação dos seus cidadãos, o maior activo de qualquer país.

O Mindelact tem tido um enorme papel na educação das populações, não só da cidade do Mindelo, mas indirectamente das outras ilhas, ao proporcionar palco e espaço para grupos de outros concelhos que assim conseguem ter acesso ao que de melhor existe no teatro mundial, através do convívio e das sessões paralelas de formação que acontecem todos os anos.

Este ano, na cidade da Praia, foram exibidas várias peças a título gratuito com artistas internacionais, num incansável trabalho de divulgação da arte noutras ilhas. Traduzindo por miúdos, os promotores, os patrocinadores e até o público mindelense estarão nesta fase a financiar a afirmação do teatro no resto do país, algo que não é de somenos importância. Isto porque na cidade do Mindelo o público paga como sempre pagou ao longo destes anos, permitindo que este Festival chegasse aonde chegou.

Por todos estes motivos, os promotores do Mindelact, os seus patrocinadores e o fiel público deste evento grandioso merecem todo o nosso respeito e admiração.

Uma palavra especial ao João Branco, que tenho a honra de conhecer e de com ele conviver desde longa data. Os barcos não navegam sem comandantes, e as organizações, quaisquer que elas sejam, são embarcações que podem entrar em deriva se não tiverem uma mão firme e criativa ao leme.

O João Branco é desde há muitos anos um admirado cidadão mindelense e um cabo-verdiano de corpo e alma. A história da sua vida personifica e explica a razão de estas ilhas se terem mantido teimosamente habitadas, apesar de todas as razões para não o serem, num teatro de sobrevivência que desafia a lógica mais básica da subsistência humana.

Aqui sempre encontraram porto seguro os aventureiros deste mundo, porque ninguém está realmente preocupado com de onde cada um veio, talvez porque, lá no fundo, tenhamos a consciência de que chegámos há bem pouco tempo a estas ilhas que ajudaram na aventura da criação do Novo Mundo, ilhas que sabem que deverão continuar a ter um papel importante no contacto entre povos. O Mindelact é um exemplo disso.

O João Branco é um aventureiro que encontrou na cidade do Mindelo, em Cabo Verde, o seu porto grande seguro, onde se soube juntar a outros aventureiros que, como ele, sempre sonharam viajar pelo mundo através do teatro.

Este grupo de aventureiros das artes é hoje uma prova viva de que quem sonha sempre alcança. Através do teatro, não só conseguiram viajar do Mindelo para fora do Oceano Atlântico, como trouxeram os quatro cantos do mundo para Cabo Verde.

Em tempo de um ano que termina e em que se renovam as esperanças e sonhos para o novo ano que vai entrar, apetece-me sonhar que, daqui a alguns anos, o Mindelact acontecerá em todas as ilhas deste país, e será considerado o festival de teatro crioulo mais conhecido deste planeta. Pelo trajecto e vitórias conseguidos nestes anos de existência do Mindelact, este sonho é até modesto.

Os meus votos de uma alegre Passagem de Ano a todos, e que 2018 seja um ano em que a capacidade criativa dos cabo-verdianos nos continue a surpreender e deliciar.

PS: Uma nota de apreço ao Gugas Veiga, um conhecido empreendedor cultural da cidade capital de Cabo Verde. Ao ouvir o anúncio de que o Estado de Cabo Verde não estaria em condições de financiar a edição de 2018 do AME, na Praia, em tempo recorde este empreendedor reuniu as vontades de várias empresas do ramo da Praia, e até do Mindelo, e prontificou-se a realizar o AME 2018, tendo conseguido logo o apoio inequívoco da Câmara Municipal da Praia. É este o caminho para os eventos nacionais: a sua assunção pelas forças vivas das sociedades, sem depender dos apoios públicos.

Uma palavra também especial de reconhecimento à nova equipa camarária do concelho do Porto Novo. Segundo consta, organizaram uma Festa de São João sem paralelo. Houve muitas críticas quanto aos recursos despendidos, mas eu prefiro realçar a visão de quem percebeu que esse evento tem de ser um cartaz turístico e uma referência nacional.

Para terminar o ano da melhor forma, tive a oportunidade de assistir pela primeira vez à Noite Branca na cidade da Praia. Gostei do evento e da ousadia por detrás dessa iniciativa que ajuda a unir e democratizar a cidade capital do país, a primeira vítima de uma centralização que a fez crescer a ritmos incomportáveis e com todas as consequências que conhecemos. A cultura tem esse papel e essa capacidade de unir e melhorar a qualidade de vida das populações, e ainda bem que está a ser usada para esse efeito.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 839 de 27 de Dezembro de 2017. 

Concorda? Discorda? Dê-nos a sua opinião. Comente ou partilhe este artigo.

Autoria:José Almada Dias,31 dez 2017 18:43

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  3 jan 2018 9:29

3

pub.
pub

Últimas no site

    Últimas na secção

      Populares na secção

        Populares no site

          pub.