Ar Livre: Viva o samba

PorEurídice Monteiro,20 fev 2018 6:02

Eurídice Monteiro
Eurídice Monteiro

​Nos dizeres da gente do Mindelo, os Mandingas remontam ao ano de 1940, aquando da organização da famosa Exposição do Mundo Português. Para tal exposição, que decorreu entre 23 de Junho e 2 de Dezembro daquele ano, em Lisboa, o ditador português António de Oliveira Salazar também mandou chamar representantes de expressões culturais das então Províncias Ultramarinas do Estado de Portugal, a fim de consagrar a ideologia colonial estado-novista da superpátria portuguesa.

Tratava-se, na época, de celebrar a Fundação do Estado Português (1140) e a Restauração da Independência de Portugal (1640), por meio da elevação mítica da diversidade cultural de um imaginado mundo português, do Minho a Timor, simbolo de uma grande nação plurirracial, pluricultural e pluricontinental.

De entre as várias comitivas a caminho de Lisboa, uma da então Guiné Portuguesa fez escala na badalada cosmopolita cidade portuária do Mindelo da ilha de São Vicente deste arquipélago crioulo de Cabo Verde.

Uns dizem que ninguém desembarcou em terra, que foram vistos de dentro do barco no cais do Porto Grande. Mas, para muita boa gente de memória viva e fresca, saíram sim e visitaram o coração da ilha. Dizem que, saindo da terra firme da parte continental africana e achando-se numa ilha tropical brotada ao largo do mar em pleno atlântico médio, os nativos do referido grupo guineense tiveram a oportunidade de fazer uma demonstração cultural de natureza étnica no Mindelo, mais concretamente na Praça Estrela, que foi, anos mais tarde, remodelada pelo presidente da autarquia local Onésimo Silveira para acomodar os comerciantes ambulantes imigrantes da costa ocidental africana.

Na memória colectiva local do Mindelo, consta que a festiva demonstração cultural dos nativos da então Guiné Portuguesa “caiu no goto” dos mindelenses, a tal ponto de no dobrar do ano ter sido incorporada e representada no carnaval local. Com o passar do tempo e através de iniciativas espontâneas dos bairros da periferia urbana, os Mandingas, como têm sido referenciados no Mindelo, foram ganhando popularidade, particularmente os da zona de Ribeira Bote, habitada desde outrora por uma expressiva classe trabalhadora braçal do cais do Porto Grande de São Vicente.

É por esta razão que, na afamada ilha mais europeizada do arquipélago crioulo de Cabo Verde, encontramos um dos carnavais mais africanizados destas ilhas do atlântico médio.

Consta também que a representação carnavalesca de povos da África continental foi, em outras circunstâncias, marcante no carnaval da ilha de Santiago. As saias minúsculas de saco sem cadilho, em imitação das saias da etnia Bijagó na Guiné, usadas por miúdos e graúdos; a figura fantasmagórica do Bididó, alguém com máscaras de papelão e trajado de trapos velhos e sujos, correndo atrás de crianças, o que popularou a expressão “É di Bididó, é di tenterem”, nas zonas mais ruralizadas e da periferia urbana na cidade da Praia; e o corpo enegrecido à base de pilha usada e do reluzente óleo queimado para amedrontar crianças, entre outras máscaras carnavalescas mais tradicionais... Estas remontam a tais reminiscências representativas de um imaginário referencial para a catarse colectiva. Provavelmente hoje mais do que no passado, o preto já não representa o lado mau da arte sacra e vai ganhando espaço no mundo da fantasia da criançada. No Mindelo, representam os Mandingas a festa suja, pois quem toma parte nessa brincadeira sai sempre sujinho.

Do Rio de Janeiro, no Brasil, veio o samba moderno e estilizado para colorir o nosso carnaval crioulo, que hoje é um produto turístico, particularmente em São Vicente. A exuberância do carnaval brasileiro encontra pequeno paralelo nas ruas do Mindelo, nesse Brasilin.

Para além do fenómeno dos Mandingas, este ano quatro grupos oficiais (Monte Sossego, Vindos do Oriente, Cruzeiros do Norte e Flores do Mindelo) estarão em disputa na terça-feira de carnaval. Um dia antes, na noite de segunda-feira, o Samba Tropical fará o seu desfile, com uma merecida homenagem à Cesária Évora, musa e rainha imortal da ilha e do país.

«Eu Sou do País da Cesária Évora.» É assim que muitos apresentam-se em terras distantes. Cesária Évora nasceu neste pequeno país, Cabo Verde, retratado em Petit Pays, o país de Morabeza e Sodade, que marcou a sua trajectória de vida e a sua carreia musical.

Para ela, Cise, todas as homenagens. É a única mulher no país a quem deram o nome a um aeroporto (internacional). Consagrada em monumentos e sítios, selos e cartões postais, gravuras e museus, prémios e distinções, condecorações e honras de Estado... E cujo próprio nome se confunde com um arquipélago, de dez ilhas. Em “Cabo Verde e a Música: Dicionário de Personagens”, Gláucia Nogueira garante que, sendo a primeira pessoa de origem cabo-verdiana a tornar-se celebridade mundial, Cesária Évora põe Cabo Verde no mapa, na virada do século XXI.

As gravações mais antigas que constam na sua discografia remontam à extinta Rádio Barlavento, cuja compilação foi editada recentemente, em 2008, com o título Rádio Mindelo, para a satisfação do público nacional e mundial. Revelam uma artista singular no panorama musical destas ilhas atlântica, situadas na costa ocidental africana.

Foi nos anos noventa, já com o movimento do World Music, que Cesária apanhou finalmente o comboio do sucesso e desenvolveu uma carreira internacional nunca dantes visto nestas ilhas. Gravou mais de duas centenas de discos, com inúmeras colaborações nacionais e internacionais, próprias do estrelato que ela alcançou. No país e noutras paragens, principalmente no campo musical e diplomático, diversos artistas e instituições têm celebrado e recordado a vida e a obra de Cesária Évora, a diva de todos nós.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 846 de 13 de Fevereiro de 2018.

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Autoria:Eurídice Monteiro,20 fev 2018 6:02

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  20 fev 2018 6:02

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