Lembrar a saúde em Cabo Verde no antigamente

PorJosé Bruno Spencer,5 jul 2018 6:55

José Bruno Spencer
José Bruno Spencer

​No âmbito da comemoração do aniversário da Ordem dos Médicos, recebi um honroso convite do meu amigo, Bastonário, Dr. Daniel Silves Ferreira, para escrever sobre um tema ligado à saúde.

Fiquei surpreendido com o convite que me fez, porque não sou de área da saúde, nem vocação, nem jeito tenho para uma área tão sensível e de extrema importância para vida de todos nós. No início não quis aceitar o convite, mas perante a insistência do Dr. Daniel Silves Ferreira, dando-me toda a liberdade para reflectir sobre o assunto, acabei por aceitar o convite. A minha relutância tem que ver também com o facto de há um ano não escrever para os jornais, por razões várias, que aqui não vou falar.

“Abaixo de Deus, os médicos”

Desde criança, ouvia da boca da minha mãe, esta frase: “ABAIXO DE DEUS, OS MÉDICOS”. Eu que vivi a minha infância no período colonial em que os médicos se contavam aos dedos de uma mão e, por outro lado, havia uma barreira grande entre os médicos e a população, isso fazia-me acreditar, na minha cabeça de criança, que a razão estava do lado da minha mãe. Minha mãe para reforçar o seu raciocínio, contava-nos em casa uma história sobre um facto que se passou aqui na Cidade da Praia entre o final dos anos 40 e início da década seguinte do século passado. Nessa altura, uma das principais atracções da Capital era ouvir a Banda Municipal que tocava no Plateau, na Praça Alexandre Albuquerque. Entretanto, havia um elemento da Banda que, quando bebia, não deixava seus companheiros tocarem, situação que causava, como é óbvio, incómodo ao agrupamento musical.

Morava no Plateau um médico português, Dr. Carlos Almeida, que gostava de ouvir a música da Banda e não ficava satisfeito com o comportamento do referido elemento da Banda. Assim sendo, o Dr. Carlos Almeida quis afastá-lo da Banda. Para isso escreveu uma carta à Câmara Municipal que tutelava a orquestra, dizendo que o músico não tinha saúde para fazer parte deste conjunto musical e que o indivíduo deveria ser suspenso. A Câmara Municipal deu seguimento ao pedido e o homem acabaria por ser expulso do agrupamento musical. Segundo a minha mãe, depois de ter sido expulso, o homem viveu ainda vários anos, tendo emigrado, regressando anos depois a Cabo Verde. A ideia com que os colegas ficaram era a de que o colega expulso não tinha problema de saúde e que o médico não queria que fizesse parte do agrupamento musical porque bebia e não o deixava ouvir a música, assim como a família que o acompanhava.

Homenagear os nossos antigos enfermeiros

Facto incontestável é nosso país ter evoluído muito, em todos os sectores. Se hoje, temos vários hospitais, vários médicos e especialistas em diversas áreas, isso não nos impede de homenagear os nossos antigos enfermeiros, sendo que muitos deles já não fazem parte do mundo dos vivos. Imaginemos num concelho ou numa Ilha em que só havia um enfermeiro para dar cobertura a todos os recantos do mesmo concelho ou ilha. Dos antigos enfermeiros que não estão entre nós, lembro-me de Gastão Frederico, meu tio. Prestava serviço no Tarrafal de Santiago e contou-me que tinha havido, se a memória não me falha, um surto de cólera. Ele fazia o seu trabalho com dedicação, coragem, não temendo nada. Numa das visitas que o Director do Hospital da Praia fez ao Concelho, perguntou-lhe se não temia, por falta de meios, ser contagiado pela doença. Respondeu que era sua obrigação servir a população.

Meu tio granjeou muito respeito e consideração pela população, depois de se ter aposentado, passou a residir na Cidade da Praia, no Plateau. As pessoas do Tarrafal, quando tinham qualquer problema com saúde, vinham ter directamente com ele e não ao hospital. Ele então, havendo necessidade, encaminhava-as ao hospital ou ao médico especialista. Eu tinha ido ao Tarrafal passar umas férias, vi a valentia e a coragem do meu tio, frente a uma freira. Era na época colonial e as freiras trabalhavam nos serviços de saúde. Havia um bebé que estava muito doente, pelo que o meu tio queria que o mesmo fosse evacuado para Praia. Pareceu-me que a referida freira, talvez por preguiça, não quisesse conduzir o veículo para transportar o bebé. Meu tio levantou a voz, dizendo que o Director lhe tinha autorizado quando qualquer paciente estava com problema, havendo necessidade de transporta-lo à Praia, poderia mandar fazê-lo. Passada a cena, sem dizer a ninguém, pensei para com os meus botões, colocando uma interrogação, “Será que aquela freira, trabalha verdadeiramente com Deus, não ajudando um bebé?”

Enfim, são vários os enfermeiros que trabalharam para o bem do nosso Cabo Verde. Se viesse agora falar de todos eles, não haveria certamente espaço nesta página. Eu não queria terminar, sem falar de um que também não está entre nós, Félix Monteiro, conhecido por Té. Minha mãe contou que no final dos anos 40 do século passado, havia doenças crónicas na Cidade da Praia em que os pacientes eram internados no local que se chamava ou se chama ainda Lazareto, perto ou no local onde foi construído Seminário o São José, na Prainha. Havia seca, fome e morte em Cabo Verde e a solução única era emigração forçada para São Tomé ou Angola. Félix Monteiro trabalhava no estabelecimento hospitalar em Lazareto e ajudou muitos pacientes. Minha mãe, era natural do Tarrafal de Santiago, tinha uma irmã que tinha inscrito para ir à Angola com marido e filhos. Só que a doença atingiu-a e foi internada nesse estabelecimento, por esta razão não foi à Angola e ficou com os filhos, o marido foi sozinho. A inscrição para Angola foi realizada na Empresa de um português muito conhecido em Cabo Verde, Fernando Sousa. Fernando Sousa tinha dito que a esposa ficaria para tratamento e quando estivesse restabelecida iria depois para Angola, para se juntar ao marido. Ela tinha um filho e uma filha já crescidos. Então, o filho tornou-se “ajudante” de Félix Monteiro.

Naquele tempo, não havia carros como agora. Quando os produtos, como álcool e outros escasseavam, Félix Monteiro mandava o filho da minha Tia ir buscá-los no Hospital Central no Plateau. Entre Félix Monteiro e a minha Tia nasceu uma amizade que perdurou por muito tempo. Pouca sorte da minha Tia, o marido morreu antes do barco chegar ao Porto de Luanda, Angola, e o enterro foi realizado no mar. Terminou o desejo dela de ir à Angola. Uma vez restabelecida da doença, minha Tia ficou em Cabo Verde para enfrentar as amarguras que havia nessa mesma época.

Hospital Central da Praia no antigamente

Sempre que eu vou ao Hospital Agostinho Neto aqui na Cidade da Praia, lembro-me deste estabelecimento hospitalar como funcionava antigamente, no difícil período colonial e após a independência. Os recursos eram escassos e havia falta de médicos. Para ter acesso à uma consulta com um médico, como o Dr. Pedro Rosário, tinha de se ir a altas horas da noite ou de madrugada, ficando até ao amanhecer para se conseguir um número para fazer a inscrição de consulta. Se não me engano, o número dos inscritos não podia ultrapassar os dez. Médico oftalmologista não existia. Estava-se há poucos meses da independência de Cabo Verde, foi anunciado na rádio que um médico militar português, oftalmologista, de passagem pela Cidade da Praia, realizava algumas consultas. Fui ao Hospital para ver se conseguia uma consulta no referido médico, mas, qual foi meu espanto, encontrei uma bicha de gente muito mais comprida do que era habitual. Não podendo o médico atender todas as pessoas, o Dr. Pedro Rosário ia à bicha e via os olhos das pessoas, e decidia-se pela urgência ou não do atendimento de cada paciente. Os que eram afastados da fila, o Dr. Pedro Rosário dizia”aguarda a vinda do próximo médico”. A enorme enchente de pessoas encurtou-se e ficou reduzida a menos de metade e eu entrei na lista dos afastados.

Depois, em 1977, lembro-me de já haver em São Vicente dois médicos oftalmologistas que eram estrangeiros. As pessoas iam da Praia para consulta, eu fui da Praia para fazer consulta nesses mesmos médicos. Falando ainda desse estabelecimento hospitalar de outrora, há duas coisas que ficaram gravadas na minha memória: injecção e óleo de fígado de bacalhau. Aplicava-se muita injecção na altura e logo de manhã forma-se uma fila enorme de pacientes. Só que havia um enfermeiro ou uma enfermeira. Quando aplicava a injecção, o paciente sentia pouca dor na nádega, o que não acontecia com os outros. Havia um enfermeiro de cujas mãos os pacientes tinham medo de receber a injecção, porque se considerava que tinha “mãos duras”. Mas o dito enfermeiro era tão brincalhão e humorístico que mesmo que tivesse aplicado uma injecção dura, o paciente esquecia das dores. O óleo de fígado de bacalhau era um dos medicamentos que mais o médico receitava aos pacientes, se não estou em erro. Em casa sempre que se ia à consulta, trazia-o. Às vezes, de tanto bebê-lo, que já não prestávamos atenção ao frasco, sendo depois atirado ao caixote de lixo.

Mais uma vez, lembro-me de uma história que minha mãe, que Deus a tenha, me contou. Ela era, de facto, uma biblioteca viva. Nos anos 50 do século passado, havia um médico cirurgião de São Tomé, que trabalhava no Hospital da Praia. Chamava-se Dr. Meneses. Nessa altura, não era fácil encontrar um médico de raça negra. Uma mulher foi levada ao Hospital, gritava de dores e pedia a presença do médico. O Dr. Meneses estava ali a dar-lhe assistência, mas a mulher nunca tinha pensado que estava a ser assistido por um médico negro. Às tantas, de tanto pedir a presença do médico. Dr. Meneses acabou por dizer que era médico e a mulher ficou envergonhada.


Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 865 de 27 de Junho de 2018.

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Autoria:José Bruno Spencer,5 jul 2018 6:55

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  5 jul 2018 6:55

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