Jovane Cabral, a naturalização por Portugal

PorLeonardo Cunha,7 set 2018 16:30

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Leonardo Cunha
Leonardo Cunha

​Foi notícia na imprensa portuguesa a suposta pretensão de Jovane Cabral (nacionalidade Cabo-verdiana) jogador do Sporting Clube de Portugal, em querer representar Portugal na seleção A de futebol. O ex-atleta do Grémio de Nhagar é apontado como uma grande esperança do futebol de Cabo Verde, tendo sido convocado por Rui Águas, seleccionador dos “Tubarões Azuis” para a partida com o Lesoto.

Aparentemente uma informação veiculada apenas pela imprensa, pois não terá existido nenhuma comunicação oficial por parte do atleta (ou de quem o representa) nesse sentido. O presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol Mário Semedo avançou desconhecer a intenção.

A ausência do mesmo no treino de seleção causou uma análise pelo departamento jurídico da FCF, segundo a comunicação social de Cabo Verde.

Um facto em quase tudo semelhante ao que aconteceu há cerca de dois anos, com a situação de Gelson Martins. Que como se sabe, optou por Portugal.

Este foi um tema que provocou alguma inquietação entre os cabo-verdianos.

Um sentimento baseado no facto de muitos atletas cabo-verdianos optarem por competir por seleções estrangeiras em prejuízo de uma eventual participação na seleção das Ilhas Morabeza.

Uma situação que pode significar dividendos políticos e chorudos prémios de participação para os países de acolhimento, e pelo contrário, prejuízos de vária ordem para o desporto nacional.

Estes atletas estavam, e estão no seu direito de opção. Contudo, no que diz respeito aos governos dos países de acolhimento, desencadeia um processo que pode resultar na degradação do processo de relações entre os dois povos.

A responsabilização dos dirigentes e agentes desportivos neste tipo de mecanismos é de extrema importância. Esta situação transporta-nos de imediato para uma entrevista dada em 2012 no Jornal Publico, em que um dirigente português afirmou (e cito) "Se queremos 10 ou 11 medalhas, rápidas, então temos de mudar de caminho. Há muitos atletas africanos que querem vir para a Europa e as medalhas aparecem."

Isto é uma visão de subdesenvolvimento.

Deverá motivar uma ação de repúdio por parte de quem tem responsabilidades nacionais na matéria. Cabo Verde (num todo) tem de agir contra algumas atitudes de agentes e dirigentes desportivos internacionais que atuam ao serviço de um "Muscle Drain" (um fenómeno em tudo idêntico ao que é o "Brain Drain” e o Visto H-1B dos Estados Unidos da América). São ações que pretendem desencadear o fenómeno de "Fast Medal" em que seleções inteiras de jogadores são “compradas” para uma representação nacional (conforme acontece de forma oficiosa com países do Médio Oriente com capacidade económica para tal).

Os atletas procuram uma vida melhor e representar os países que lhes dão melhores oportunidades. Contudo, se do lado das ofertas que são dadas pelos outros países (numa lógica de medalha rápida, e sem ligação profunda com o seu próprio desenvolvimento nacional), o desporto estará ao serviço dos “bolsos e carteiras” dos agentes e dirigentes que desencadeiam este tipo de processos.

Existe hoje em dia, uma tomada de posição das federações e do Comité Olímpico Internacional sobre este tema. Foram aplicadas medidas regulatórias mais restritivas na proteção dos interesses dos países de nascimento destes atletas.

Não confundir a situação anterior, com a situação de uma diáspora que tem vontade de representar o “seu” país pela existência de ligações culturais e hereditárias de sangue.

Cabo Verde, um país com uma forte história de emigração, não deve ignorar estas ligações resultantes da sua própria história e cultura e tem todo o interesse e direito em proteger a escolha de atletas nesta situação.

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Autoria:Leonardo Cunha,7 set 2018 16:30

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  8 set 2018 12:31

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