O início da morte da “Enseada de coral”?

PorGuilherme Mascarenhas,4 out 2018 8:26

A “Enseada de coral”, localizada entra a Laginha e a Matiota, spot de mergulho, local de desova e berçário de várias espécies, com representatividade considerável da biodiversidade cabo-verdiana (mais de 307 espécies), importante laboratório para conhecimento da fauna e flora marinha cabo-verdiana e para a educação ambiental, corre o risco de se transformar numa lixeira lamacenta devido ao desvio da enxurrada das chuvas, proveniente de Chã de Alecrim, da praia de areia para ali.

1.Impacto do projeto

O desvio da enxurrada da chuva, proveniente de Chã de Alecrim, da praia de areia da Laginha para a Enseada de coral, poderá levar à acumulação duma boa parte do lixo e sedimentos, transportados pela enxurrada da chuva, nesse recanto, pois ficará retido e entranhado entre as pedras e os corais existentes ali, transformando o local em uma autêntica lixeira lamacenta. Uma amostra do impacto duma chuva forte no local foi dado pela pequena chuva (28 mm) que caiu no passado dia 6 de setembro, provocando a morte de moluscos, corais e outros animais e eventualmente (ainda não sabemos detalhes da notícia) duma tartaruga que apareceu morta na Laginha, dois dias depois(?), para além de lama acumulada no fundo que enterrou corais e outros animais vivos e que afetará durante um bom tempo a transparência da água da enseada, muita apreciada por praticantes de mergulho e alguns banhistas que não apreciam a turbidez, muito frequente, da praia de areia. 

Felizmente, a chuva foi fraca, inesperadamente parte da lama foi para a areia devido a alguma “anomalia” no sistema construído, a maré estava alta no pico da chuva e a agitação do mar foi muito acima do normal nos dias seguintes à chuva. Mesmo assim, devido à limitada circulação de água no local, a água fétida, de lama, lixo, animais mortos, etc., manteve-se por vários dias, sendo difícil avaliar os impactos negativos na totalidade.

2. Um dos argumentos a favor da localização atual da saída de águas fluviais

Um dos argumentos a favor da localização da saída das águas fluviais naquele local é que já houve uma antiga saída das águas pluviais bem próxima. Contudo, na altura, era menos nociva por:

i) Não existirem o esporão e a Cabnave, permitindo uma maior circulação da água no local;

ii) As águas pluviais serem menos poluídas (a população de Chã de Alecrim era bem menor);

iii) Os esgotos não transbordarem quando chovia;

iv) Em caso de algumas mortes, as comunidades coralinas vizinhas, da Matiota e da Laginha, ajudariam no reequilíbrio da espécie.

3. Importância do local

3.1 Detêm uma representatividade considerável da biodiversidade marinha cabo-verdiana

A Enseada de coral constitui um dos poucos pontos de comunidades coralinas existentes na ilha da São Vicente, podendo-se observar ali todas as espécies de corais duros existentes no arquipélago. A fauna marinha observada e registada, na Laginha/Matiota soma mais de 307 espécies (e ainda faltam muitas por inventariar), com mais de 260 fotografadas no local (algumas dessas fotografias podem ser vistas nos vídeos: Peixes da Laginha v3.0, Mais vida marinha na Laginha e Corais da Laginha v2.1, sendo mais de 104 espécies de peixes que representam cerca de um terço das espécies costeiras de peixes de CV e incluem 15 das 23 espécies de peixes costeiros endémicos de Cabo Verde, 3 das 8 espécies de peixes costeiros endémicos da macaronésia presentes em Cabo Verde, e mais 10 espécies endémicas faltando muitos por inventariar e saber se são endémicos ou não!

Para além disso é habitat de tartarugas-verdes, espécie em perigo de extinção, que são vistas pelos frequentadores da praia ao longo do ano inteiro, dum peixe raro, o peixe-donzela, de todas as 4 espécies de porcos-espinhos de CV, etc.

3.2 Zona de desova e de berçário para algumas espécies

A Enseada de coral é local de desova de vários moluscos (chocos, lesmas, porcelanas, cones, etc.) e ao longo do ano, sucedem vários grupos de juvenis para mais de vinte espécies de peixes que buscam zonas protegidas de corais e algas para os primeiros estágios de vida ou também para minimizar a predação.

3.3 Importante laboratório para conhecimento da fauna e flora marinha cabo-verdiana e para educação ambiental

A localização na segunda maior cidade do país, águas relativamente calmas, pouco profundas e seguras, fazem deste local, um importante laboratório para conhecimento da fauna e flora marinha cabo-verdiana e para educação ambiental com potencial de receber, num futuro próximo, uma trilha interpretativa subaquática. Prova disso são os seguintes factos:

i)É utilizado em aulas práticas de biologia marinha e tem sido tema de estudo de alguns projetos de fim de curso de Ciências Biológicas da FECM da UniCV;

ii) É utilizado por alguns investigadores estrangeiros que se deslocam a CV para estudar organismos marinhos;

iii) É utilizado para dar a conhecer a alunos universitários, do secundário e do ensino básico integrado, a nossa biodiversidade marinha e sensibilizá-los para a necessidade da sua proteção. Note-se que no último verão, um grupo de cidadãos, reunia todos os domingos com estudantes de ensino primário para levá-los a conhecer a diversidade marinha da Laginha, contribuindo dessa forma para a sensibilização e formação desses estudantes.

3.4 Spot de mergulho

Dadas as características anteriores é utilizado já por algumas pessoas para mergulho de lazer, para a lecionação de aulas de introdução ao mergulho em “apneia” e para passeios com turistas (cada turista costuma pagar cerca de 2500 ECV por um passeio de uma hora). Esta última atividade deverá beneficiar de um importante incremento com o hotel a ser construído brevemente no local.

3.5 Provavelmente uma estação de limpeza

A presença de algumas espécies limpadoras tais como o ratinho ( Canthigaster capistrata ), juvenis do cornudo (Thalassoma pavo ), entre outras espécies, para além de alguns comportamentos observados, indiciam que o local poderá ser uma estação de limpeza.

4. Alternativas

Sugerimos que a referida saída das águas pluviais seja deslocada para zona mais profunda, no extremo do esporão ou mais adiante, com correnteza suficiente para carrear os dejetos e sedimentos mar adentro.

Uma solução melhor, no nosso ver, seria o deslocamento do esporão alguns metros para Sul, para coincidir com a saída de águas pluviais, já existente. Dali a água seria canalizada no interior do esporão até o seu ponto extremo. Esta solução permitiria ter uma faixa de praia com águas mais transparentes, para os banhistas que apreciam esse atributo, e melhores condições para o mergulho e permitiria a prática do surf/bodyboard com ondas de maior duração (pois a localização atual do esporão corta as ondas de maior duração ao meio perigando de certa forma a integridade dos surfistas/bodyboarders) valorizando de forma considerável a praia, para bem da população e dos turistas, e valorizando consideravelmente o(s) hotel(eis) que se pretende(m) construir no local. Claro que essa solução seria bem mais dispendiosa, mas os retornos seriam bem superiores, e quem quer qualidade tem que investir.

5. Diálogo com o promotor da obra

Quando soubemos dessa obra, eu e os biólogos citados mais à frente, solicitamos um encontro com a ENAPOR, financiadora do projeto, que se disponibilizou com prontidão para tal e reuniu-se connosco por duas vezes, nos dias 7 e 15 de junho. Enviamos também à ENAPOR, por email, que por sua vez deu conhecimento à CMSV, dona da obra, um documento com o nosso ponto de vista e os endereços dos vídeos (no youtube) "Peixes da Laginha" e "Coral Laginha1". A ENAPOR alegou sensibilidade aos nossos argumentos e vontade em mudar o projeto, mas disse-nos estar com grandes dificuldades técnicas em o fazer. Infelizmente acabou por não mudar o projeto. 

  • Guilherme Mascarenhas, mestre em Engenharia Eletrotécnica, docente na FECM da UniCV. Praticante assíduo de mergulho livre, estudioso e fotografo da biodiversidade marinha desde 2013 (ver vídeos no anexo), organizador/participante em muitas campanhas de limpeza submarinas, instrutor de cursos livres de introdução ao mergulho em apneia e à biodiversidade marinha e guia turístico de mergulho com snorkel.
    Grande parte do artigo foi escrito com o apoio técnico dos biólogos, docentes na FECM da UniCV: Corrine Almeida (PhD), Bióloga Oceanógrafa; Evandro Lopes (Msc) (PhD student), Biólogo Marinho; Rui Freitas (Msc) (PhD student), Biólogo Marinho.
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Autoria:Guilherme Mascarenhas,4 out 2018 8:26

Editado porPaulo  em  10 out 2018 14:03

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