Eduarda Vasconcelos: o Ritmo Musical da Ginástica Dançante (parte II)

PorCésar Monteiro,16 out 2018 6:14

Os múltiplos e sucessivos esforços consentidos pela Professora Eduarda Vasconcelos, Presidente da Associação de Ginástica de S. Vicente, nos jardins infantis e nas escolas, ainda no limiar da segunda metade da década de 70, assinalariam, finalmente, em 1988, a implantação e a expansão, na ilha do Porto Grande, faseadas da Ginástica Rítmica, adiante designada, abreviadamente, por GRD, que abrange, na actualidade, meninas, maioritariamente, e todas as camadas sociais. Hoje em dia, na composição da GRD, em S. Vicente, participam pessoas de todas as condições sociais, sem qualquer distinção,e só pagam aquelas que, na verdade, tenham meios financeiros para o fazer.

Do ponto de vista da sua abrangência, a GRD não está estratificada socialmente, nem sequer há bairros mindelenses virados especialmente para essa modalidade desportiva, “as pessoas vêm de todos os lados, sem qualquer preferência”. Relativamente às faixas etárias representadas, “o primeiro tapete, como costumo afirmar, vai dos 4 a 5-6 anos e abrange o maior número de ginastas participantes”. Depois, de forma progressiva, a fasquia vai aumentando para 7, 8, 9, 10, 11 e 12 anos, até aos 17-18, precisamente quando as ginastas optam pelo ensino superior, no exterior, “enquanto as mais pequenas, permanecem e evoluem, como se fosse uma cascata”. Afora as faixas etárias preferenciais acima referidas, também frequentam a GRDginastas maduras,“já na casa dos 40 anos, fazem exercícios próprios da sua idade e da sua estrutura física, mas não à altura daquilo que faz uma ginasta de 14 anos, por exemplo um ‘pivot’, ou uma roda”. Nas suas composições, os aparelhos da GRD diferem muito em razão da própria natureza dos movimentos, ou elementos corporais, e os mais usados são a corda (sisal ou sintético), o arco (madeira, ou plástico), a bola (borracha), a maça (madeira, ou material sintético) e a fita (cetim), entre outros.

Criadas as condições indispensáveis ao seu arranque formal, no país, em 1988, a parte rítmica da ginástica entra logo e é muito aceite, nos dois maiores centros urbanos, “justamente porque ligava o exercício físico à música (…). Todas as vezes que organizávamos actividades coreográficas, na Praia, ou em S. Vicente, havia enchentes, por causa da música”, sem se pôr de lado, naturalmente, a expressão corporal, que, também, de forma articulada, agradava imensamente ao público. Pelo próprio nome ou expressão, a GRD encerra, para lá da dimensão física, a musicalidade, que, de resto, reside na sintonia do exercício com as partes da música, numa combinação harmoniosa entre a melodia, que tenha sentido, e o respectivo tema, “tudo em sintonia e não de qualquer maneira”. Se bem que a dança e a ginástica sejam componentes fundamentais da GRD, o certo é que a música, mais contagiante e mais mobilizadora, dentro do sistema respectivo, que a própria expressão corporal, tem grande peso, porquanto “os espectadores se deixam levar mais pela música”.

Ao sabor da sonoridade musical, o ginasta deixa-se embalar e transportar-se, dependendo a escolha da melodia da própria personalidade da artista. Importa, pois, à partida, conhecer-se bem a personalidade do ginasta, “não é a música que o coreógrafo, ou o treinador, gostem ou deixem de gostar, mas, primeiro, o ginasta tem que gostar e se entrosar com a música”. Sendo assim, é desejável que o ginasta se identifique com a música e saiba “contar a história, através da música”. Na generalidade, quando se faz uma coreografia, constituída pelas figuras (mudanças), pelo figurino e, ainda, pelo próprio ginasta protagonista, tendo em vista a interpretação gímnica da música, escolhe-se uma música que deve ser bem executada, sentida e interpretada com alma, em conformidade com a sua própria história, “a coreografia tem, necessariamente, que consistir naquilo que a música diz, ela tem que a seguir”. O corpo, na execução da GRD, deve sentir a música e transmiti-la imediatamente ao cérebro, que comanda, numa função terapêutica deveras essencial.

Na ginástica, isto é, na sua parte mais física, verificam-se, igualmente, influências de muitos ritmos musicais, responsáveis pela sua própria musicalidade. No caso cabo-verdiano, tendo em atenção o peso e o indiscutível valor da música nacional, tem-se procurado, tanto quanto possível, introduzir na GR, os primeiros géneros musicais ditos tradicionais, em sintonia, naturalmente, com a própria música moderna, esta última já mais virada para a juventude. Seja como for, não é nada fácil conseguir-se o equilíbrio e a proporção entre a música tradicional cabo-verdiana e a música estrangeira, conforme refere Maria Eduarda Vasconcelos, Presidente da Associação de Ginástica de S. Vicente: “Para os jovens, não é muito fácil e isso é uma grande ‘guerra’ que faço com a malta jovem, porque, normalmente, os jovens preferem, na GR, música estrangeira. É um trabalho paciente e sério que o treinador e o coreógrafo devem fazer, porque, via de regra, a juventude não gosta que se meta música cabo-verdiana na GR”, conquanto a também Coordenadora do Club de Ginástica Mindelgina reconheça não haver qualquer rejeição, nesse sentido, pelo menos de forma premeditada, flagrante, ou visível.

Por outro lado, na procura da valorização da dita música tradicional cabo-verdiana, a GRD tem utilizado, nas coreografias, a coladeira, o batuque, o San Jon, o funaná e a mazurka, entre outros géneros da música tradicional com harmonia, desenvoltura, imaginação, graça e beleza necessárias. Aquando, por exemplo, da 15ª edição da Gymnaestrada, realizada em Julho de 2007, em Dornbirm, na Áustria, país do violino, “o nosso trabalho foi muito na base da mazurka interpretada pelo Travadinha e teve sucesso”. Já amorna, não obstante o seu estatuto nobre e a sua representatividade nacional, é, de facto, dos géneros musicais pouco usados na GRD, ainda que, pontualmente, se tenha utilizado uma ou outra composição, com igual sucesso. Em qualquer circunstância, indepentemente de ser nacional, ou estrangeira, ou do seu andamento rítmico, “a música que se vai interpretar tem que ter um tema e o tema tem de ser demonstrado com a dança”, que se revela fundamental para a execução da GRD.

Curiosamente, dentro das coreografias, há cada vez mais dança, de acordo com o Presidente da Federação Internacional da Ginástica Rítmica (GRD), que justifica e sustenta a sua posição defendendo a necessidade da dança para que cada ginasta sinta a sua cultura e, ao mesmo tempo, promova o espetáculo, sem, todavia, se limitar à execução apenas daqueles exercícios. Daí que não se consiga, citando, ainda, Eduarda Vasconcelos, membro e Presidente em substituição da Academia Olímpica de Cabo Verde e nomeada Embaixadora do Desporto da CPLP, na Cimeira do Sal, em Julho de 2018, separar a dança da ginástica, pelo contrário, “a dança tem que estar na ginástica, um bom ginasta tem grande probabilidade de vir a ser bom bailarino”, na linha, aliás, daquilo que, correctamente, se poderá apelidar de ginástica dançante. Afora a função de natureza terapêutica e estética, que lhe é sobejamente reconhecida, a GRD tem vindo a assumir um valioso papel educativo através, designadamente, da formação de ginastas disciplinados, não importa o sexo, a procedência geográfica, ou a extracção social, reveladores de qualidades humanas e de valores, enfim, mulheres e homens do porvir, em prol da afirmação de uma modalidade desportiva cada vez mais inclusiva e com uma fortíssima componente musical, a favor, em última análise, do desenvolvimento social e cultural do país.

Última parte

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 880 de 10 de Outubro de 2018.

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Autoria:César Monteiro,16 out 2018 6:14

Editado porrendy santos  em  16 out 2018 6:14

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