Réveillon na Baía do Porto Grande: da tradição de “Pite na Baía” a cartaz turístico internacional

PorJosé Almada Dias,30 jan 2019 6:55

​Nasci a 1 de Janeiro de um longínquo ano do século e milénio passados (não digo qual não por ter vergonha de assumir a minha idade, mas para que as más línguas não dizerem que me estou a gabar de estar bem conservado).

Reza a história familiar que nasci às 20h45 da noite do primeiro dia desse ano. Já nessa altura revelei a característica de não gostar de incomodar ninguém, tendo permitido assim que a minha mãe assistisse na Rua de Lisboa ao espectáculo tradicional da população a celebrar em coro com os apitos dos carros e dos barcos na Baía do Porto Grande, de onde partiam os foguetes que iluminavam o céu do Novo Ano. Uma tradição cujas origens se perdem no tempo e que fazem parte do roteiro cultural desta cidade de eventos, por essa razão justamente considerada a capital cultural de Cabo Verde.

A cidade que me viu nascer já se chamava na altura Mindelo, um nome que celebra a Liberdade, atribuído à antiga Vila Leopoldina, que por sua vez sucedeu à povoação de Nossa Senhora da Luz. Nesta ilha nunca nada foi fácil, desde as várias tentativas para o seu povoamento, até a própria denominação da cidade. Mas à terceira foi mesmo de vez e a ilha de São Vicente tem no Mindelo o seu ex-líbris.

Contam os amigos da família que o meu pai, um boémio que apreciava as coisas boas da vida, terá exclamado no ano seguinte, quando a minha irmã nasceu precisamente a 22 de Janeiro, dia de São Vicente e feriado municipal: “o que hei-de fazer, os meus filhos nascem só em dias de festa!”. Sei, portanto, de onde herdei o espírito festeiro…

Calha bem falar em Liberdade em pleno mês de janeiro, mês em que há bem poucos anos os cabo-verdianos puderam finalmente respirar um ar livre a partir de 13 de Janeiro. Uma sensação que nos fugia desde que há cinco séculos atrás começou a aventura do povoamento destas ilhas atlânticas, onde afortunadamente se criou a primeira nação crioula do mundo moderno. Somos, portanto, uns privilegiados, algo que devíamos celebrar… passamos a terminar o ano no mês de dezembro a celebrar o Dia Nacional da Morna e entramos o ano a celebrar a Liberdade duramente conseguida.

Logo na primeira quinta-feira do ano, na primeira reunião de 2019 do Rotary Clube do Mindelo, Ron Huges, um inglês proprietário de um dos primeiros operadores turísticos a enviar turistas britânicos para Cabo Verde deu-nos os parabéns pelo excelente Réveillon a que assistiu no Mindelo. Elogiou tudo, desde o clima de festa que começa com os grupos que tocam o Racordai, o fogo-de-artifício, os apitos dos carros e dos barcos, o banho de mar à meia-noite na Avenida Marginal com o Monte Cara como testemunha, o baile popular na Rua de Lisboa com dezenas de milhares de pessoas e finalmente o convívio de manhã cedo na Praça Nova à espera do desfile da banda municipal que percorre as ruas da cidade despertando os mindelenses com música para um Novo Ano. E fez questão de realçar o civismo com que tudo isso é feito, referindo que se fosse no país dele, a velha e democrática Inglaterra, com tanta gente junta assim as coisas não se passariam de forma tão pacífica. Não se cansou de elogiar esse facto, o que vindo de um homem que fez do turismo a sua vida, tem o seu peso específico.

Os crioulos das ilhas de Santo Antão e de São Nicolau trouxeram para a cidade que os cabo-verdianos fundaram as suas festas e tradições, entre as quais a tradição de grupos cantarem e tocarem o Racordai de casa em casa, cujas portas se abrem generosamente para uma troca amiga que marca o virar do ano: os que chegam cantam, os que recebem retribuem com oferendas, que vão do acesso a mesas fartas de comida e bebidas a dinheiro.

São tradições com origem europeia, como são grande parte das nossas tradições. Da gélida Suíça o meu amigo Paulo Noel Martins enviou-me no dia 3 um artigo de um jornal a relatar uma tradição semelhante nalgumas aldeias suíças: grupos de jovens que vão de porta em porta durante os dias 31 de Dezembro e 1 de Janeiro, sendo recebidos com oferendas e dinheiro. Tal e qual por cá. Também por lá as origens da tradição perdem-se no tempo, sabendo-se apenas que são centenárias.

Na Baía do Porto Grande festeja-se aquele que foi durante décadas o único Réveillon popular de Cabo Verde, em que toda agente sai de suas casas dirigindo-se para a Avenida Marginal para aí juntos em comunhão ouvirem o tradicional “Pite na Baía”, quando os barcos assinalam com apitos prolongados a chegada do Novo Ano, respondendo a população com gritos e apitos dos carros que circulam na Avenida, enquanto os mais corajosos (onde se incluiu este vosso cronista) se atiram ao mar vestidos, lavando as memórias do ano velho e entrando da melhor forma o novo ano, dentro das águas atlânticas que trouxeram os nossos antepassados de outras paragens.

Uma tradição que os mais antigos dizem ser centenária e que se confunde com a história desta cidade-porto que gosta de celebrar junto ao mar a maioria das suas tradições, tirando partido da dádiva da Natureza que é ter uma baia tão bonita.

Por ter nascido a 1 de janeiro, desde a tenra idade de 1 ano assistia ao colo dos meus familiares ao fogo-de-artifício à meia-noite, no terraço da nossa casa, onde recebia os primeiros beijos de parabéns ao som dos navios a apitar na baia e dos foguetes, imagens e sons que me ficaram gravadas e que recordo todos os anos. A partir da adolescência passei a receber os parabéns dentro de água, debaixo do fogo-de-artifício, um privilégio que faço questão de disfrutar todos os anos. Tenho como todos os mindelenses, uma relação especial com esta festa, o que no meu caso, é festa a dobrar…

Desde criança que ouço dizer que a Passagem do Ano no Mindelo é semelhante ao Réveillon na Cidade do Funchal, capital do arquipélago irmão da Madeira. Há uma diferença fundamental: no Mindelo ainda é uma festa para consumo interno, enquanto que no Funchal evoluiu para atractivo turístico, estrategicamente trabalhado pelas autoridades da ilha como o principal cartaz turístico de uma ilha que vive essencialmente do turismo e que graças a essa indústria consegue proporcionar à sua população um nível de vida superior à média da União Europeia.

De uma ilha de gente que vivia em dificuldades, a ponto de muitos madeirenses terem emigrado até para Cabo Verde, hoje a Madeira é uma referência turística mundial, tendo sido agraciada em 2018 pela quarta vez como Melhor Destino Insular do Mundo, durante a 25ª edição dos World Travel Awards, considerados os “Óscares do Turismo”.

A Madeira não tem o clima tropical nem o exotismo cultural de Cabo Verde, nem o Funchal está localizado numa das Baías Mais Bonitas do Mundo e muito menos produziram uma Cesária Évora. Mas possuem uma estratégia e investiram seriamente na criação de Sociedades de Desenvolvimento que transformaram uma ilha outrora pobre num destino turístico de classe mundial.

O turismo da Madeira deve o seu sucesso mundial sobretudo aos eventos da Cidade do Funchal, estrategicamente trabalhados como cartazes turísticos há décadas: Réveillon, Carnaval e outras festas populares. Mindelo tem tudo isso fruto da criatividade da sua população, ou seja, o produto genuíno e autêntico já existe.

Fruto dessa estratégia, a Madeira entrou para o Guiness desde 2016 detendo o título do “Maior espetáculo de fogo-de-artifício do mundo” graças ao seu Réveillon. Em 2018 o investimento total feito pelo Governo Regional na Passagem de Ano foi de 3,7 milhões de euros (mais 10% do que no ano passado), dos quais 1,3 milhões para o fogo, tendo-se batido o recorde em toneladas de fogos e número de disparos. Uma aposta séria e continuada que cresce todos os anos, que atraiu cerca de 50 mil turistas que encheram os hotéis e os 10 barcos de cruzeiro que ficaram fundeados ao largo.

Os cínicos responderão que a Madeira tem acesso aos fundos europeus e nós não. Bom, cada um tem que viver com as escolhas que faz. Curioso é que os madeirenses ainda acalentaram a ideia da independência do arquipélago, que acabou por não se concretizar. Hoje têm de facto acesso a fundos europeus, como têm os crioulos da Martinica e da Guadalupe, cujo herói nacional foi nada menos nada mais um dos proclamados heróis da “negritude”, o poeta Aimé Césaire, famoso por lutar pelos direitos dos seus concidadãos, ao mesmo tempo que lutava ferozmente contra as ideias de independência das duas ilhas da França, da qual essas ilhas crioulas das Caraíbas distam cerca de 6.850 quilómetros, mais do dobro dos 2.918 que separam Cabo Verde de Portugal. “Opçães” diria o outro, cada uma com as respectivas consequências: uns ganharam uma bandeira nova, vivem de donativos e não conseguem sair da pobreza (em várias dimensões), outros são cidadãos de pleno direito do maior bloco económico mundial e não têm que se preocupar tanto com as refeições de amanhã para os seus filhos…

Mas essa desculpa de acesso a fundos europeus não pode ser justificação para a falta de investimento na ilha de São Vicente e noutras ilhas. Existem inúmeras alternativas por esse mundo fora, desde a gigantesca indústria mundial de fundos de investimento que andam no mundo à procura de boas oportunidades de investimento. Mas para isso é preciso ter uma estratégia clara e o envolvimento de todos, falando a uma só voz, o que não é o caso.

Se eu perguntar que turismo se pretende para a ilha de São Vicente, conhecem alguém que tenha uma resposta concisa e coerente e que a pronuncie sem pestanejar?! Eu não conheço.

Existe uma estratégia pública clara, traçada concomitantemente com os projectos privados previstos para a ilha e assumida pelas autoridades locais e nacionais? Também não!

O Réveillon no Mindelo tem tudo para ser um grande cartaz turístico de dimensão atlântica – tem tradição com a participação massiva de toda uma população que gosta de glamour, acontece numa linda e organizada cidade à beira-mar, situada numa das Baías Mais Bonitas do Mundo, com um invejável enquadramento paisagístico, na cidade-berço de Cesária Évora, a Diva que é a maior marca internacional do país.

É como quase tudo neste país arquipelágico e atlântico: tem tudo para dar certo, mas fica sempre quase lá, adiando soluções óbvias, perdendo oportunidades umas atrás de outras…

A estratégia de investir na ilha de São Vicente, transformando-a numa Riviera Crioula, seguindo o que foi feito nas Rivieras francesa e italiana, ou mais recentemente na Riviera Maya no México é uma estratégia consequente e coerente com os ambiciosos projectos privados que investidores de vários cantos do mundo quiseram e querem fazer na ilha, baseada num turismo de luxo, tendo a cidade do Mindelo como pivot desse desenvolvimento, transformando-a numa verdadeira Mónaco dos Trópicos.

Isso requer um djunta mon e um diálogo estratégico entre as forças vivas da ilha e o Governo para se assumir esse conceito. Foi assim que aconteceu nas outras Rivieras turísticas do mundo. O problema por cá é precisamente o diálogo que não existe, o grande problema dos crioulos cabo-verdianos.

Vamos a ver se será assim em 2019. Gostamos de acreditar e de ter fé que o Novo Ano nos trará coisas melhores! Que assim seja…

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 895 de 23 de Janeiro de 2019.

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Autoria:José Almada Dias,30 jan 2019 6:55

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  18 jun 2019 23:22

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