Os donos do maior Carnaval de África, o futuro e os clichés do costume (II)

PorJosé Almada Dias,27 mar 2019 6:17

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​Na crónica anterior, iniciámos uma viagem por um debate instalado nas redes sociais sobre a “soberania popular” do Carnaval, utilizada como arma de arremesso contra as medidas tomadas pela LIGOC.

Este filme já é conhecido. Aconteceu algo semelhante com o Festival da Baía das Gatas. Quando a Câmara Municipal de São Vicente resolveu instalar as primeiras barracas de madeira para substituir as barracas improvisadas pela população, e resolveu alugá-las, muita gente gritou aos microfones dos media que “estavam a querer tirar o Festival do povo, algo que nos pertence”. Lembro-me de nessa altura ter ficado pasmo a imaginar quando é que o povo tomou a iniciativa de criar o Festival. Uns anos depois, aconteceu o capítulo seguinte, quando a edilidade resolveu iniciar a cobrança de portagens às viaturas, o que gerou novo berreiro.

Agora respondam-me: alguém tem saudades das barracas dos primeiros anos do Festival da Baía das Gatas, em comparação com o sofisticado ambiente dos nossos dias?

Voltando à novela carnavalesca nas redes sociais, também notei um desnecessário enviesamento do debate sobre um eventual conflito entre os desfiles dos denominados grupos “espontâneos” e os grupos “oficiais” (mais uma “luta de classes”?).

É mais uma questão que não se põe, porque o que torna o Carnaval mindelense especial é ser uma festa democrática onde sempre houve e haverá espaço para todos esses grupos, que são complementares e constituem um todo. Agora, temos de ter mais organização, não podemos andar todos ao molhe numa festa onde já desfilam mais de meia centena de grupos, desde crianças de tenra idade, passando por escolas do ensino básico, liceus, universidades e grupos de bairro. E aqui acho que a Câmara Municipal tem feito um excelente trabalho nos últimos anos, ao criar um programa que se estende por 5 dias, com horários devidamente estabelecidos, o que permite ao público escolher o que quer ver. Simultaneamente, cria um evento que se prolonga, o que é benéfico para a sua transformação num cartaz turístico diferenciado em relação ao dos seus concorrentes mais directos, como são os Carnavais de Tenerife, Las Palmas e da Madeira.

O que não se pode querer é que todo o mundo desfile na terça-feira à tarde.

Há quem tenha colocado a questão a nível de precedência, alegando que “os grupos espontâneos é que fizeram o Carnaval”. Quem disse isso?!

Peguemos, por exemplo, no caso dos Mandingas, o mais mediático dos grupos ditos “espontâneos” (para mim, os desfiles dos Mandingas há muito deixaram de ser espontâneos, são grupos organizados que desfilam de forma ordeira e com horários previsíveis).

Mas voltando à precedência... quando os guerreiros guineenses da etnia Bijagó dançaram na Praça Estrela em 1940, dando origem, posteriormente, ao fenómeno Mandinga, os desfiles de blocos carnavalescos já existiam no Mindelo desde 1920.

Todos nos lembramos dos anos em que, por algum motivo, não havia desfiles dos blocos carnavalescos. As ruas enchiam-se de gente (ou será povo?), havia os tais grupos “espontâneos”, mas no fim a sensação que ficava era de não ter havido Carnaval nesse ano, uma frustração colectiva que não poupava ninguém.

No meio da onda de contestação às medidas da LIGOC, até houve quem tenha manifestado alguma nostalgia do Carnaval da nossa juventude, entrando naquela onda de que naquele tempo é que era bom (não havia organização). Please! Querem voltar ao tempo dos blocos que desfilavam com filas de moças a brandir um pauzinho com 3 balões?! Eu não quero de certeza!

Ou regressar aos “bailes” (reservados a muito poucos) onde se cantava “Mamãe, eu quero” e “Dá a chupeta pro bebê não chorar”?! Come on!

E depois dizem que o Carnaval agora é que está a ficar abrasileirado! Haja paciência, pessoal! Vamos agora ressuscitar o estafado cliché da imitação do Brasil?!

O Carnaval em Cabo Verde nunca teve tanta criatividade endógena “Made in Cabo Verde”, algo para o qual esta coluna tem chamado a atenção desde há cinco anos.

Hoje, ao invés de ouvirmos na rádio as músicas do Carnaval do Brasil, ouvimos as músicas bem ritmadas e bem compostas por uma verdadeira indústria musical nacional, na época do ano com maior produtividade musical neste arquipélago. Bem hajam os nossos compositores, que até já exportam músicas carnavalescas para outras ilhas.

Não, meus amigos, no passado é que o Carnaval por cá era totalmente abrasileirado. As marchas dos blocos eram inspiradas nas marchas brasileiras. Hoje, as batucadas de Carnaval, graças ao génio de Mick Lima e dos seus discípulos, possuem um ritmo próprio, que não é samba brasileiro e onde se podem descortinar repiques do nosso kolá sanjon. É um ritmo novo, ainda não apelidado, mas que nasceu aqui nas ilhas.

Por isso, temos espaço de manobra suficiente para irmos ao Brasil ver o que lá se faz de bem e que pode ser adaptado por cá, se queremos ter um Carnaval que seja o principal cartaz turístico cultural nacional, e sair desta economia de “nôs ku nôs”, que ainda é amplamente deficitária e agrava ainda mais a nossa balança de pagamentos.

O irónico de tudo isto é que o cliché da imitação do Brasil foi usado durante muitos anos pelas outras ilhas para apoucarem o Carnaval do Mindelo. Recentemente, deixaram de o fazer porque agora também querem ter Carnaval (à força ou a jeito), pois descobriram os evidentes benefícios para o turismo.

Na bonita ilha de São Nicolau, o Carnaval este ano teve o lema de “Genuinamente cabo-verdiano”, tendo os organizadores cavalgado mais um cliché conhecido, o que diz que o Carnaval nessa ilha é genuíno e o do Mindelo, comercial. Olhando para o programa de 2019 desse Carnaval, saltam logo à vista algumas expressões tipicamente “brasucas” – “trio eléctrico”, “bateria” e até “baianas”. Afinal, onde ficou a autenticidade cabo-verdiana?!

Desde tenra idade que vou à ilha de Chiquinho, de onde provém a maioria das minhas costelas. E sempre ouvi dizer que dois dos principais animadores do Carnaval da Ribeira Brava foram Serafim António Lopes (que se auto-intitulava de “Negro Sarafe”) e João Firmino Spencer “Djandja”, ambos ex-emigrantes no Brasil que trouxeram com eles muitas novidades que mudaram o Carnaval na ilha. Por isso...

Minha gente, não existe Carnaval genuíno em parte nenhuma deste planeta! Recupero o que escrevi em 2014 aqui neste espaço: “O Carnaval pela sua natureza é precisamente isso, contrário a tradições ou veleidades de autenticidade ditadas por uns e outros. E por isso mesmo é uma festa tipicamente urbana e aberta a influências externas. É a festa da fantasia e da imaginação, que todos os anos se renova e nos surpreende e deleita.”

Não confundamos ter aspectos particulares e especificidades próprias, como toda a gente reconhece ao Carnaval da Ribeira Brava, com algum Carnaval genuíno nascido nessa ilha. Quanto muito os organizadores poderiam ter anunciado algo como “genuinamente são-nicolaense”, que ficaria mais perto da realidade.

O Asakusa Samba Carnival começou a ser festejado em 1981 e hoje é considerado um dos maiores eventos turísticos de Tóquio, atraindo anualmente mais de meio milhão de visitantes. É só entrar no YouTube e ver japoneses a sambar ao melhor estilo brasileiro (de “sambinha no pé” e “pelados”). É uma sociedade orgulhosa das suas tradições milenares, mas aberta a novidades e sem debates puristas sobre tradições, autenticidades e outros quejandos, que importou de A a Z uma festa que lhe era totalmente estranha. Assim são as sociedades modernas, cujas cidades são cosmopolitas e fãs da cultura urbana. Assim é o Mindelo desde que nasceu, uma bênção dos céus no meio deste petit pays da cosmopolita Cesária Évora.

Queremos ou não ter milhares de turistas a pagarem para ver o Carnaval do Mindelo e da Ribeira Brava (e de outras cidades) e assim criarmos postos de trabalho na indústria turística e um efeito arrastador em toda a economia?!

Então vamos ter de seguir o caminho da profissionalização e para isso o primeiro passo é o benchmarking em relação aos nossos principais competidores. Não só temos de ir ao Rio de Janeiro, no Brasil, como devemos ir a Barranquilla, na Colômbia (considerado o segundo maior Carnaval do mundo), a Tenerife, nas Canárias (maior Carnaval do Atlântico e de Espanha), e à Madeira (maior Carnaval de Portugal) e aos muitos Carnavais das ilhas crioulas das Caraíbas para vermos e aprendermos o que os nossos principais competidores andam a fazer. Faz parte dos compêndios académicos...

Um segundo passo é trabalhar a marca, com olhos e ouvidos postos no mercado mundial. São Vicente e São Nicolau são expressões difíceis de pronunciar em linguagem planetária. Carnaval de Soncent não serve, deve ser Carnaval do Mindelo (Mindelo’s Carnival), até porque o que interessa é publicitar o cartaz turístico e cultural das cidades. O Mindelo deve ser a marca e não Soncent ou São Vicente. Qualquer marketer perceberá isso.

Os criadores do Mindelact mostraram o caminho há duas décadas. Não criaram um “São Vicentact”, que seria impronunciável até para nós, lusófonos.

O Carnaval como cartaz turístico já é uma certeza como tínhamos previsto há muitos anos. Estamos, contudo, no princípio e ainda há muito caminho para desbravar e muitas dores de crescimento para suportar.

Termino com uma palavra sobre o enterro do Carnaval do Mindelo, ao qual, por razões profissionais, não assistia há 3 anos e que segui com especial prazer este ano. Impressionante a energia que a gente desta cidade consegue mobilizar para os grandes eventos. Uma pequena cidade que se transforma num gigante de cultura crioula e universal sempre que os bombos e os tambores chamam a sua gente. Um delírio para os olhos e os ouvidos, um achado em termos de atracção turística. Fiquei abismado com a quantidade de gente (entre indígenas e turistas) que aguardava e acompanhou o desfile ao longo de quilómetros pelos bairros da cidade. Mas o que me deixou siderado foi a multidão que enchia a Avenida Marginal e o antigo Cais de Alfândega à espera do desfile, e a quantidade de gente que se atirou ao mar ao anoitecer, acompanhando os caixões que foram atirados simbolicamente pelos Mandingas às águas atlânticas de uma das baías mais bonitas do mundo, num cenário a rivalizar com o ambiente da Passagem de Ano. Como me disse o meu primo Zé Pereira no meio do aperto da multidão que nos carregava ao ritmo da cadência crioula da música dos Mandingas, não dá para perceber esta cidade, o remédio é deixarmo-nos ir na onda contagiante (o Mindelo não se entende, sente-se...). É o que fazem com indisfarçável prazer um cada vez maior número de locais e visitantes de todo o mundo que participam activamente neste tsunami cultural.

O Mindelo não é apenas a capital cultural deste primeiro país crioulo do pós-Descobrimentos, é indiscutivelmente a capital da crioulidade atlântica moderna.


Texto originalmente publicado na edição impressa doexpresso das ilhasnº 903 de 20 de Março de 2019.

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Autoria:José Almada Dias,27 mar 2019 6:17

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  29 mar 2019 19:49

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