A nossa galinha dos ovos de ouro

PorJoão Chantre,16 ago 2021 7:35

Procura-se a todo o custo a nossa galinha de ovos de ouro. Uma galinha rica em ovos de ouro, numas ilhas paradisíacas despidas de riqueza, mas riquíssima em beleza natural. A galinha que no início dos anos noventa voou da Europa para estabelecer o seu ninho no arquipélago de mar abundante, sol brilhante e praias de areia branca encantadoras.

E como sempre, no início, a moda crioula, a morabeza, funcionou lindamente até que o valor dos ovos disparou. Finalmente, os europeus tinham de novo descoberto o paraíso das férias, quando em 1460 – a história reza outras razões para a descoberta das ilhas atlânticas, onde numa cooperação horizontal entre os portugueses, os africanos e outros povos – edificaram por mérito próprio uma população genuinamente mestiça. Um encontro perfeito de vários povos, numa plataforma ideal, no meio do Atlântico. Apesar de todos os cabo-verdianos reconhecerem o valor do turismo para o arquipélago, sempre se acomodaram entre uma política pública passiva e as críticas permanentes de muitos especialistas nacionais contra o modelo all inclusive que facilmente se implantou nas ilhas. Até agora, os outros segmentos têm sido uma atividade marginal, mas que vai ganhando terreno e valor.

Sal & Boa Vista

Não nos restam dúvidas que quando o turismo aterrou nestas ilhas, as mesmas eram virgens, e paradisíacas. Tanto assim é que são as duas ilhas irmãs com as melhores praias do arquipélago e que podem competir em qualquer parte do mundo no segmento sol e praia. Como é óbvio, a Ilha das Salinas foi a primeira a deslocar-se por razões óbvias. Afinal, nos meados da década de 30, os italianos construíram um aeroporto internacional para abastecer as aeronaves em trânsito entre Roma e América Latina. Uma janela de oportunidades aberta a partir da ilha do Sal para o mundo. Ademais, pelas características da ilha, com a praia de Santa Maria, uma praia de areia branca invejável, com um mar azul turquesa maravilhoso, com um sol brilhante ao longo do ano, capaz de curar muitas doenças contemporâneas deste planeta e proporcionar a qualquer um doses de vitamina D em abundância para aqueles que chegam da Europa e não só, à procura de terapia, relaxamento e energia acompanhada de uma música adoçante e cativante para complementar. São essas características que não abundam no mundo e que proporcionaram ao país um mar de esperanças. Receitas para o Estado, para as empresas (públicas e privadas), para as famílias e muitas oportunidades de trabalho para a juventude.

O modelo all inclusive, estimado por uns, odiado por outros!

Trata-se de um dos produtos turísticos mais comercializados no mundo e que tem como destino lugares maravilhosos do planeta, na descoberta do mar, das praias, do sol e de temperaturas amenas. O tempero ideal para este segmento abunda nas ilhas, mas não no mundo. Um segmento do turismo que aposta na economia de escala por forma a rentabilizar os seus avultados investimentos e que tem o valor que tem na economia das ilhas, na área da aviação civil (companhias aéreas, handling, aeroportos, catering, Jet A1-combustíveis de aviões) e com potencialidade para alavancar todos os setores de atividade económica, na agricultura, na pesca, na pecuária, na restauração e na criação de empregos e receitas para o Estado. Mas a diferença entre a potencialidade e a operacionalidade é ainda grande. Trata-se de uma máquina de Marketing, de curto-médio-longo prazo, por forma a criar, desenvolver e manter o mercado, sob pena de colocar em risco os seus investimentos. Mas a chave do sucesso está nas nossas mãos, na qualidade das nossas políticas públicas para o turismo, no planeamento rigoroso e na regulação. Ser rico em ouro não significa ter grandes joalharias com joias de qualidade. Saber o que temos e saber o que queremos é determinante para o sucesso desta indústria. Contudo, esse modelo de negócios não traz apenas rosas para o país e acarreta grandes desafios sociais e ambientais para as nossas ilhas, mas que pode se converter em ganhos caso houver uma política pública inteligente e um planeamento rigoroso e adequado. Mas o contrário também é verdade! Portanto, nenhum país do mundo dá-se ao luxo de abdicar da sua fatia desse precioso bolo, nessa indústria mundial que vale trilhões de USD. Tanto quanto sabemos, a indústria turística do país caiu de paraquedas, e a promoção da atividade turística no exterior tem sido muito tímida e descontinuada, e a maior parte das vezes assumida pelos grandes grupos, o que já per si é algo positivo. O reconhecimento é um valor determinante para o sucesso. Assim sendo, uma cultura de serviços, de melhoramento contínuo e a não repetição dos erros do passado deve ser sempre a nossa grande prioridade.

O Futuro! “O novo normal”

O Futuro só a Deus pertence! De repente o nosso turismo evaporou-se. Com a Covid-19 a indústria turística, a aviação civil e a restauração foram as áreas que mais sofreram e estão a sofrer no mundo, e Cabo Verde por fazer parte deste planeta e por ser pequenino, qualquer choque externo faz tremer as ilhas. A atividade turística sofreu uma queda de 74.5%, de 757.982 turistas que o país recebeu em 2019, em 2020 apenas visitaram o país 179.885 turistas. Estamos perante um grande tsunami, sanitário, económico e social. A dívida pública aumentou, a pobreza disparou, mas uma coisa é certa, tudo o que foi perdido jamais será recuperado. A única certeza que temos, neste momento, é que o país não pode parar e por isso é extremamente importante que os cabo-verdianos estejam se preparando para um futuro que tarda a chegar e que mesmo que chegue, chega carregado de incógnitas. É fundamental que para o futuro estejamos empenhados em acabar definitivamente com as barracas nas ilhas turísticas. Que estejamos a pensar seriamente na preservação do meio ambiente e que seja equacionada e resolvida o problema do lixo nas ilhas turísticas, o saneamento básico e o combate à desertificação, plantando árvores. Para que Cabo Verde venha a ser um exemplo no mundo, totalmente coberto de verde com produção de energia limpa, maximizando o nosso sol, vento e a água do mar. Planear tudo, significa sofrer no presente e preparar para um futuro brilhante que devemos sempre acreditar. Ora, se calhar, aproximamo-nos do momento em que a diversificação do turismo poderá ganhar terreno e destinos como Santo Antão, Mindelo, Maio, Santiago e as restantes ilhas venham a ser consideradas pérolas a serem lapidadas. Mas o futuro do turismo exige uma grande visão, um rigoroso planeamento e atração de Investimentos Direto Estrangeiro (IDE), nacional e da diáspora. É momento de chamar a diáspora para investir no país com produtos financeiros interessantes. “De resto, o tempo esclarecerá as restantes dúvidas”!

Em suma, estamos perante “um Cabo Verde di Sperança”. Empenhados em recuperar umas das maiores riquezas do país, o turismo. Pelos dados divulgados, a vacinação contra o vírus da Covid-19 parece estar a decorrer a um ritmo acelerado o que pode salvar a Nação. A digitalização pode resolver o problema do passaporte digital e projetar o país de novo, no mundo. E o uso das máscaras, a higienização das mãos e o distanciamento social continuam a ser as ferramentas fundamentais para combater este vírus que fez tremer o mundo. As grandes quantidades de vacinas que aterraram nas ilhas provenientes da União Europeia, da ONU, do Luxemburgo, da China, dos Estados Unidos, da Holanda, da Eslovênia e da Hungria é o testemunho do valor da nossa diplomacia no mundo e sobretudo a solidariedade dos países amigos. Estamos todos condicionados pelos nossos direitos à liberdade. Vamos todos vacinar e preparar o futuro! It ‘s time! 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1028 de 11 de Agosto de 2021. 

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Autoria:João Chantre,16 ago 2021 7:35

Editado porSara Almeida  em  16 ago 2021 7:35

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