A Uni-CV e o Fantasma da Continuidade

PorAdilson F. Carvalho Semedo,10 jan 2022 8:41

Professor Auxiliar da FCSHA – Uni-CV – Cientista Social/Sociólogo
Professor Auxiliar da FCSHA – Uni-CV – Cientista Social/Sociólogo

No dia 7 de janeiro de 2022 terão início as campanhas para a eleição do novo Reitor(a) da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

Contrariamente à disputa eleitoral de 2018, na qual a Reitora em exercício assumiu a candidatura da continuidade contra três outros preponentes da mudança, na disputa deste ano a continuidade desdobra-se numa candidatura de forma explícita e pessoalizada e noutra candidatura de forma implícita e estrutural.

O Professor Doutor José Arlindo Fernandes Barreto, rosto da candidatura «Juntos para uma Universidade de Confiança», tem a particularidade de ter sido eleito representante dos docentes da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes (FCSHA) no Conselho da Universidade (CONSU) (um órgão de Governo) em 2017. Ao colocar a tónica na confiança, valor basilar na construção e manutenção de qualquer tipo de relação humana e social, esta candidatura assume um viés ético/normativo. Nada a impede de apresentar-se como a candidatura da descontinuidade. Se assim será, caso esta seja vencedora, não é algo que se assegure hoje.

Por sua vez, a Professora Doutora Maria de Lourdes Silva Goncalves, Pró-reitora para a Extensão Universitária em exercício até o início do mês de Dezembro, viu-se na impossibilidade de se apresentar como o rosto da mudança quando a Reitora Professora Doutora Judite Nascimento, afirmou, no telejornal da Televisão Nacional de Cabo Verde do dia 21 de Novembro de 2021, que a sua equipa está preparando uma candidatura feminina para dar continuidade à luta das mulheres pelas lideranças de topo das instituições cabo-verdianas.

Esta candidatura configurada sob o slogan «Uma nova liderança com mais impacto social» está desenhada na óptica da continuidade do legado da atual governação (2014-2022), admitindo que ficou mais por fazer em termos de impacto social e reassumindo o viés do empoderamento feminista singularizado. Eis a candidatura que podemos identificar como a da «continuidade explícita e pessoalizada».

Por seu turno, o Professor Doutor Odair Bartolomeu Barros Lopes Varela aparece ligado ao atual regime administrativo da Uni-CV pelo facto de ter sido Presidente da Escola de Governação de Negócios (ENG) e de ser um dos atuais representantes dos docentes da ENG no CONSU. A sua candidatura «Por uma Universidade Sustentável, Internacional, Digital e Inclusiva», tem a particularidade de assumir o viés sul-globalista e foca-se na projeção da Uni-CV no espaço das relações da CEDEAO e do sul global. Esses dados, por si só, não o comprometem com o passado. Porém, na procedência familiar desta candidatura e no seu processo de construção outros aspetos esclarecedores vêm à tona, e fica evidenciado que se trata de uma proposta de «continuidade implícita e estrutural». Ora vejamos:

a) Contrariamente aos outros candidatos, o Professor Doutor Odair Bartolomeu Barros Lopes Varela congregou em torno de si um grupo de reflexão através de uma campanha preparatória para as futuras eleições por meio do Ciclo de Debates na Uni-CV que ele coordenou de março a julho do ano de 2021. Esse evento foi amplamente divulgado pelo Gabinete de Comunicação e Imagem da Uni-CV e acarinhado pela Pró-reitoria para Ação Social, Assuntos Estudantis e Cultura Universitária, liderada atualmente pelo Professor Doutor Mário Lima, que já tinha sido Administrador-geral no primeiro mandato da atual Reitora (2014-2018). Esses apoios institucionais permitiram-lhe, estrategicamente, projetar a sua candidatura de forma encoberta e antecipada; a conversão dos colegas cooptados no tal grupo de reflexão em núcleos duros da sua candidatura; e o reforço simbólico da sua autorrepresentação como intelectual orgânico.

b) Por outro lado, o Professor Doutor Odair Bartolomeu Barros Lopes Varela é filho do Professor Doutor Bartolomeu Lopes Varela, que, conforme se confirma no Curriculum Vitae depositado na plataforma Academia.edu, foi Administrador-Geral da Uni-CV (setembro 2007 – janeiro 2010), e Pró-Reitor para a Graduação, Desenvolvimento Curricular e Qualidade Académica (Março 2012 – Fevereiro 2014). Após a sua aposentadoria, em 2014, continuou prestando serviços de consultoria, à Uni-CV inclusive, no que se refere à elaboração de diplomas legais e regulamentares e foi membro, por cooptação, do Conselho da Universidade de 2016 a 2019.

Neste sentido, o candidato Professor Doutor Odair Bartolomeu Barros Lopes Varela, sendo filho do autor dos estatutos e dos principais regulamentos da Uni-CV, tem vínculos sanguíneos com um elemento basilar da estrutura organizacional, ou seja, do sistema de relações complexas e constantes, que interligaram as relações estabelecidas entre alguns indivíduos, por meio dos papéis organizacionais que estes assumiram nos oito anos da governação de Reitora Judite Nascimento.

Um exemplo da manifestação da confiança e de segurança nos serviços prestados pelo consultor Professor Doutor Bartolomeu Lopes Varela ficou evidenciado na resposta da Reitora Judite Nascimento à Nota de Repúdio dos Docentes de 22 de Março de 2021, relativamente à proposta de Regulamento dos Concursos de Desenvolvimento Profissional do Pessoal Docente da Uni-CV, quando sugeriu aos docentes contestatários que, para uma avaliação mais objetiva do processo e do documento apresentado, era de se esperar uma leitura atenta das propostas apresentadas e a consulta a profissionais com o mesmo gabarito e experiência do Consultor contratado.

Por tudo isso, foi significativo que, no dia 5 de dezembro 2021, este Consultor da Uni-CV tenha lamentado numa rede social o facto da Reitora em exercício ter expressado qual a candidatura da sua preferência, tendo reforçado nos diálogos tecidos nos comentários que a questão é grave, uma vez que a tomada de posição descredibiliza a Reitora em exercício como mediadora de algum possível litígio, e que em outro país justificaria a tomada de medidas graves, que poderiam incluir a destituição do Reitor.

Em suma, nas eleições que se avizinham, o que será escrutinado é a manutenção da faceta pessoalizada ou da faceta estrutural do regime vigente, ou a aposta numa possibilidade de mudança. Mas, acima de tudo, a eleição do novo Reitor(a) assegurará a ocupação dos principais cargos administrativos desta universidade e permitirá ao Governo da República continuar a olhar para a Uni-CV, salvaguardada a sua autonomia administrativa e financeira, como um problema menor para o Estado.

Para os docentes e os funcionários o período eleitoral é momento de posicionamento e de investimento no mercado eletivo de cargos e de mercantilização das relações com os aspirantes aos cargos. Será sensato que se conservem algumas alianças, pois outras batalhas advirão. Por exemplo, não é seguro que o resultado desta disputa eleitoral resolva a questão da regularização dos processos das carreiras dos docentes e dos não-docentes. Que a Uni-CV siga sendo uma «Universidade de Professores Auxiliares» e de «carreiras estagnadas» é outra continuidade assustadora. 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1049 de 5 de Janeiro de 2021. 

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Autoria:Adilson F. Carvalho Semedo,10 jan 2022 8:41

Editado porAndre Amaral  em  10 jan 2022 8:41

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