Dez notas sobre Deflagrações de José Luís Hopffer C. Almada

PorJorge Fonseca de Almeida*,8 mar 2022 8:45

​Realizou-se no passado dia 17 de fevereiro na sede da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) a apresentação da nova, aumentada e revista versão de Deflagrações, obra do Poeta e Ensaísta cabo-verdiano José Luís Hopffer C. Almada.

Este trabalho merece uma análise cuidada. Transcrevo de seguida o essencial da minha intervenção na UCCLA. Antes de começar, porém, gostava de deixar três alertas prévios, ao jeito de aviso à navegação.

Primeiro alerta. Não sou escritor, não sou crítico literário, nem sequer estudei literatura ou segui qualquer curso de línguas vivas, mortas ou moribundas. Não sou autodidata nestas áreas e desconheço as escolas, as filiações, as linhagens dos grupos e as tendências artísticas e literárias são-me alheias. Sou apenas um leitor ávido e eclético, gosto que compartilho com outros no Clube de Leitura que animo, e que anota as suas impressões sobre os livros que vou lendo num blogue anódino. É, então, no papel de simples leitor que vou deixar as minhas impressões sobre Deflagrações.

Segundo alerta. A minha intervenção não é uma análise estruturada segundo os cânones académicos que ignoro mas, antes, um conjunto organizado e sequenciado de rememorações do que li e as impressões e reflexões suscitas por esses textos.

Terceiro alerta. Só li o livro uma vez. Por limitações de tempo. E Deflagrações merece ser revisitada várias vezes, tal riqueza das imagens, das metáforas, das descrições, das ideias, tal a variedade dos temas, das histórias, das lutas, tal a multiplicidade dos ritmos, dos andamentos, das melodias e das músicas, tal a vibração das emoções, das pulsações, dos batimentos. Tendo lido apenas uma vez sinto que vos devo alertar para a necessária incompletude, para a inevitável imperfeição, para a irremediável natureza lacunar das minhas notas, das minhas impressões.

Falemos então de Deflagra­ções em dez notas ordenadas em três capítulos. O primeiro capítulo debruça-se sobre o Autor, o segundo sobre a Poesia e o terceiro sobre a Prosa.

Capítulo 1 – O Autor

Primeira nota – Os autores. Paradoxalmente esta é uma obra de um só autor assinada com diferentes nomes, não heterónimos mas, como reivindica José Luís Hopffer C. Almada, assinaturas de um ortónimo. Ora o ortónimo é o nome real do escritor, que aqui, em vez de assumir falsas identidades, heterónimos, pretende manter-se uno e identificável em toda a sua obra, desdobrada é certo mas ligada, interligada, entretecida e coerente. Assim como na trilogia católica, Pai, Filho e Espirito Santo, em que os três são apenas Um e cada um os Três, também aqui as assinaturas, os temas e os estilos podem diferir mas o Autor é só um, presente em todas as suas declinações. Estamos, pois, muito longe, dos heterónimos pessoanos, que a cada um correspondia uma história e uma personalidade própria. Em José Luís Hopffer C. Almada existe sim uma múltipla ortonímia e este é um dos aspetos centrais da sua obra e está, inevitavelmente, muito presente em Deflagrações.

Segunda nota – As escolhas. José Luís Hopffer C. Almada é um poeta erudito, pela ampla cultura que demonstra, pela qualidade dos versos, pela riqueza vocabular, pelas múltiplas evocações de filmes, de livros, de filósofos, de vultos históricos, de ideias e teorias. É um poeta erudito com escolhas políticas. Muitas vezes perpassa para o grande público a errónea ideia que exibir escolhas políticas é ser panfletário. Nada mais desacertado e enganador. Panfletário é o que mais longe e absurdo podemos imaginar da obra de Hopffer C. Almada. Mas as escolhas estão lá. Bem marcadas. A primeira a cabo-verdianidade. A segunda a negritude. A terceira a africanidade. A quarta a opção pelo povo.

Todas estas escolhas têm contrapontos. Todas têm raízes profundas. Todas são justas, assumidas e transparentes. Escolhas derramadas nos temas, nas palavras, na ética de Deflagrações. Estas escolhas, que vão contra a corrente dos dias, que vão contra a espuma das manhãs, contra as modas e as marés, contra o atual gosto político e académico, emocionam-me pelo desassombro com que são assumidas, pela inteligência com que são abordadas, pela persistência com que são trabalhadas.

Terceira nota – As versões, a infinidade e o Aleph. Jorge Luís Borges, o genial argentino, grafou a palavra Aleph para significar o ponto que contém todos os pontos. O ponto que contém simultaneamente o passado, o presente e o futuro, o grande e o pequeno, o gigantesco e o ínfimo, permitindo observar o universo de todos os ângulos. A poesia de José Luís Hopffer C. Almada tem tonalidades alefetianas. Abrange o passado, o presente e um vislumbre do futuro, o quilométrico e o milimétrico, a grande saga Negra através dos séculos e a pequena rua perdida e sem nome de um bairro pobre e periférico de uma grande urbe indiferente. O macroscópio e o microscópio. Abarca uma infindável visão, analisada de múltiplos ângulos, do devir africano. Ora esta tarefa ciclópica exige o método matemático das aproximações sucessivas. Temos então, ciclicamente, versões alteradas, aumentadas, limadas, para que nada escape, para que o texto corresponda ao olhar. Trata-se, como se pressente, de tarefa infindável e, muito provavelmente, teremos ainda novas versões de Deflagrações.

Capítulo 2 – A poesia

Quarta nota – As dedicatórias. Na obra de José Luís Hopffer C. Almada as dedicatórias, por vezes longas, incluindo dezenas de nomes, entre vivos e mortos, são parte integrante da poesia. O Autor integra-as no poema que, sem elas, perde parte do seu significado, perde parte da sua mensagem. Como uma carta que ganha outro e mais percetível sentido quando sabemos a quem foi dirigida, as dedicatórias são em Deflagrações a chave para uma melhor compreensão do texto, para uma melhor interpretação dos poemas.

Quinta nota – A construção da identidade. A poesia de José Luís Hopffer C. Almada é um esforço contínuo de construção de uma identidade cabo-verdiana, uma identidade única, vibrante, que não rejeitando a contribuição europeia sabe que as suas raízes são africanas, Negras e belas mas envoltas na dor causada pela na violência e opressão coloniais.

É uma identidade, como todas as identidades, feita de diferenças com o Outro, em contraponto com as gerações passadas, em oposição com as falsas ilusões, contra com as omissões e apagamentos de traços essenciais da cultura afro-Negra do povo cabo-verdiano. Como todas as identidades ela surge como um processo em construção, daí também as sucessivas versões. As identidades afirmam-se, encontram-se, através da construção de representações sociais. As representações sociais, ensinou Serge Moscovivi e depois Stuart Hall, o grande académico Negro, constroem-se através da objetificação e da ancoragem. Uma análise atenta da poesia de José Luís Hopffer C. Almada revela-nos estes dois processos em atuação. Este contudo é tema que daria pano para mangas e que não temos hoje o tempo para abordar.

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Resumiríamos aqui dizendo que José Luís Hopffer C. Almada é um sábio construtor da identidade cabo-verdiana, soldando-a às raízes afro-negras e não ignorando a herança europeia, que, como se sabe, se não limita ao contributo português.

Sexta nota – As polémicas. A obra poética apresentada em Deflagrações está pejada de diálogos com outras obras, com outros escritores e artistas, através da evocação dos seus nomes, da citação de frases ou de versos, da nomeação de livros, da exaltação das suas obras, da crítica das suas ideias, do contraponto ao que defenderam, na apropriação da sua herança. Esta é, então, uma obra que se não fecha no monólogo mas se espraia em múltiplas conversas com as gerações passadas e contemporâneas, principalmente com os escritores cabo-verdianos dos últimos dois séculos. Alguns destes diálogos são polémicas subtis, civilizadas, mas aguerridas, procurando o autor demonstrar sem ambiguidade o seu ponto de vista e as limitações da posição alheia. São um fator adicional de interesse e de estimulante leitura.

Sétima nota – As palavras-chave. Na poesia detetamos várias palavras que assumem um peso e um sentido forte como uma âncora que posiciona e fixa o fluxo do pensamento do Poeta. Destaco de entre elas ao acaso duas, que poderiam ser outras.

A primeira palavra é “rememoração” e a segunda palavra “entretecido”. Rememorar leva-nos para recordações antigas, que vibram inconscientemente dentro de nós sem que nos apercebamos delas. Recordações que é preciso trazer à tona, tornar conscientes, para que possam ser partilhadas e celebradas, mesmo quando são tristes e traumáticas. Nesse sentido a rememoração é um trabalho quase psicanalítico de recordar ao paciente o seu passado, para que possa enfrentar o futuro. Como no verso “na rememoração do tempo e da penumbra do áfrico continente” a rememoração é introspetiva, íntima, mas simultaneamente abrangente de uma realidade quase sem limites. Esta palavra condensa a meu ver toda uma vertente da tarefa artística do Poeta.

Entretecido, por seu lado, evoca a ideia de rede coesa, de malha de múltiplos fios que formam um todo, de múltiplas causas, contributos, presenças, atividades que tornam a sociedade possível. Evoca a origem, a génese, da nossa identidade, cosida, suturada, construída por numerosos fios, cada um deles frágil e inseguro, mas que no conjunto nos tornaram no que somos, ainda que não tenhamos consciência de todos eles. Assim uma identidade pode ser entretecida com “com os tambores libertários dos quilombos” ou “com os ásperos caminhos da fuga” encetados pelas pessoas escravizadas nas plantações americanas.

A Poesia neste livro é um épico entretecer da identidade afro-Negra cabo-verdiana, dissecando cada minúsculo fio, expondo cada contributo, destacando cada acontecimento, lembrando cada herói, cada vilão, cada ato corajoso e cada vilania, rememorando a História.

Oitava nota – O ritmo. O ritmo da Poesia surge como uma deflagração, como explosões sucessivas, a serem lidas de rompante, porque sem pontuação formal, que nos deixam sem fôlego e sem ar. Como a erupção de um vulcão, que nos maravilha, pela cor, pela diversidade, pela altura a que se eleva o pensamento.

Este ritmo, esta forma, entusiasma o leitor e impele-o pelas páginas, mas força-o, por vezes, a voltar para trás para organizar ideias e entender o fluxo.

Capítulo 3 – A prosa

Nona nota – Temos aqui um ensaio monumental sobre a representação afro-negra na literatura cabo-verdiana. De raro rigor, extraordinariamente bem documentado e investigado, recorrendo a fontes diretas, muitas delas de difícil acesso, é um trabalho incontornável para quem queira conhecer, estudar ou, simplesmente, perceber a Literatura Cabo-verdiana.

O autor leva-nos a uma viagem histórica onde, sob os nossos olhos, assistimos à negação inicial da herança Afro-Negra transformar-se em presença diluída, secundária, tímida e envergonhada, e pouco a pouco ganhar o estatuto de componente essencial, se bem que, obviamente, não único, do discurso literário cabo-verdiano. A luta de libertação, o movimento da Nova Largada trazem a africanidade para o palco da cultura literária e erudita cabo-verdiana, que na cultura popular a vertente Afro-Negra sempre esteve bem presente, viva e atuante, quer na música, quer nas tradições, quer na vida social. Processou-se, então, uma aproximação, uma maior sintonia entre diferentes níveis de cultura e a procura de uma identidade comum que una o povo e promova a identificação saudável e verdadeira de todos os cidadãos com a sua pátria. Abrindo-se a África, Cabo-Verde abre-se às suas raízes, abre-se ao seu povo, abre-se a si mesmo.

O autor analisa as influências da cultura afro-negra brasileira, africana, americana e de outras diásporas na Literatura Cabo-verdiana e concluiu que “Foram, pois, e têm sido assinaláveis as repercussões das várias correntes revolucionárias e reformistas do nacionalismo-africano e do pan-africanismo político e cultural na constituição do povo cabo-verdiano como nação crioula soberana e na ereção do antigo arquipélago da fome na sua africana pátria amada do meio do mar”.

Na saga pelo pleno reconhecimento oficial da herança Afro-Negra uma das frentes passa pelo estatuto da Língua Cabo-verdiana. Neste ensaio Hopffer C. Almada analisa os autores que a ela recorrem para se exprimirem e transmitirem os seus pensamentos e as suas emoções. Na sociedade falta ainda um reconhecimento maior, a da sua oficialização enquanto língua do ensino e da administração pública. Também nesse capítulo Hopffer C. Almada tem dado um contributo importante ao seu país.

Décima nota – O auto posicionamento de José Luis Hopffer C. Almada. Aproveitando inteligentemente as palavras alheias e escreve “Sintetiza certeiramente o estudioso da poesia atribuída especialmente a Nzé di Sant´y Ago e Erasmo Cabral de Almada: “A poesia de Hopffer C. Almada busca a crioulização, pressupõe que os elementos culturais colocados em presença uns dos outros devam ser obrigatoriamente ‘equivalentes em valor’ para que essa crioulização se efetue realmente (GLISSANT, 2005), uma vez que a ‘crioulização’ exige que os elementos heterogêneos colocados em relação ‘se intervalorizem’, ou seja, que não haja degradação ou diminuição do ser nesse contato e nessa mistura, seja internamente, isto é, de dentro para fora, seja externamente de fora para dentro (GLISSANT, 2005), sem inferiorização”.

Em resumo. Um excelente livro. Na Poesia uma grande riqueza vocabular, de imaginativas metáforas, que vai ao âmago da alma cabo-verdiana e a puxa vigorosa, dolorosa e alegremente, à superfície. Aqui se revela e confirma um dos melhores poetas lusófonos da atualidade. Na prosa encontramos um monumental ensaio, obra incontornável na análise da Literatura Cabo-verdiana.

(*) Doutorando em Media e Sociedade no Contexto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa pela Universidade Autónoma de Lisboa, Estudos Avançados em Sociologia pelo ISCTE, Master in Business Administration (MBA) Universidade Nova e Wharton School da University of Pennsylvania, Pós-graduado Estudos Estratégicos e de Segurança pela FCSH da Universidade Nova e Instituto de Defesa Nacional, Pós-graduado em Psicologia Comportamental pelo ISPA, Licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo ISE (hoje ISEG).

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1057 de 2 de Março de 2022.

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Autoria:Jorge Fonseca de Almeida*,8 mar 2022 8:45

Editado porAndre Amaral  em  9 mar 2022 0:23

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