Terras e metais raros

PorAmílcar Spencer Lopes,7 mar 2025 14:30

Creio que, desde a sexta-feira passada, não se fala noutra coisa, senão no encontro na Sala Oval, em Washington, DC, entre o Presidente da Ucrânia e o seu anfitrião americano, coadjuvado pelo vice deste, a pretexto de umas terras e metais raros…

E não é para menos, dado o inusitado da ocorrência, em matéria de grosseria e falta de modos diplomáticos, num país com a tradição liberal, a cultura democrática e as responsabilidades políticas dos EE.UU. Um espectáculo arrasador e sem precedentes, desde que os países convencionaram a troca de representantes e o estabelecimento de conversações, a qualquer nível, nas relações internacionais.

É um sinal que relembra, porém, outras ocasiões na história dos povos ditos civilizados e preanuncia o descalabro das instituições padronizadas e o afundamento da Humanidade a níveis de insanidade, terror e aniquilamento, de todo insuportáveis.

Aqui, pelas nossas bandas, de forma não tão brusca e evidente, diria mesmo, com pezinhos de lã, as forças políticas vão se digladiando, umas contra as outras e intramuros, com laivos de populismo e autocracia que começam, no entanto, a ser preocupantes, para quem queira observar, com olhos de ver.

E, de facto, já é assustador a maneira como uma simples disputa à liderança de uma força política começa a revelar contornos e similitudes com movimentos totalitários ocorridos, outrora, na Europa, dos anos trinta do século vinte, na Alemanha ou na então União Soviética, por exemplo.

A gente vai tomando as coisas de ânimo leve e, quando menos cuida, se nos depara o Urso, escarrapachado no sofá da sala-de-estar.

E logo Cabo Verde que gosta tanto de estar na moda e de ser citado como exemplo de pioneirismo, naquilo que alguém chamou, há tempos, com graça, complexo de virgindade.

Porque, não é só aos outros que as coisas acontecem. Aliás, há realidades bem próximas.

No entanto, sabe-se que a técnica é o fazer de conta. Ou seja, por um lado, afirmar que é tudo ficção e que a realidade não existe e, por outro, prometer estabilidade, de modo a esconder a intenção de criar um estado de instabilidade permanente.

Claro que não temos terras nem metais raros, o que é uma pena, sinceramente. Porque precisados estamos, para, como soe dizer-se, “tirar boca” do Turismo.

Ontem, vendo pela televisão, a inauguração de uma joint-venture, no Mindelo, lembrei-me de uma história da Boa Vista, que se contava, nos anos 50/60, do século passado:

Um transeunte imprudente e ainda por cima de sapatos, chutou o tornozelo de um pacato espectador do movimento de ponte, no cais de Sal-Rei. A vítima lançou um grito de dor, mas não conseguiu lembrar o nome esquisito, dessa junta óssea dos pés. Na sua queixa, porém, foi dizendo:

- Ó môçe, odjâ um pancada q djâ bô dó-me na clavícula!

Perante a galhofa geral dos assistentes, justificou -se:

- ´Mó!... Tem tcheu qualidade d´clavícula!

Isto é, o importante é que, tanto o tornozelo como a clavícula são estruturas ósseas, e uma pancada dada ou sofrida em qualquer delas dói.

Pois é, por cá, o comboio do populismo vai já em andamento e, na carruagem, vão comodamente sentados o povão, veteranos, gente da alta fidalguia, representantes de confissões religiosas, desportistas e ainda há gente nas bilheteiras, para adquirir o passe.

Não sei se o actual Gengis Khan das estepes tem condições objectivas para alcandorar-se à reencarnação do Ditador de Gori.

Sei, no entanto, que um novo Führer está à porta da mansão global, a bater, com estrondo.

Olhem que essas modas pegam e garanto-vos que não é piada de Carnaval. 

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Autoria:Amílcar Spencer Lopes,7 mar 2025 14:30

Editado porAndre Amaral  em  7 mar 2025 14:30

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