Ilhéu de Santa Maria: a coragem venceu a inércia

PorLuis Carlos Silva,2 fev 2026 8:19

​A decisão de reverter o processo de concessão do Ilhéu de Santa Maria deve ser reconhecida como aquilo que verdadeiramente é: um ato de coragem política e institucional. Coragem para recusar a opção mais cómoda — a da passividade — e para não aceitar que um dos espaços mais centrais e simbólicos da cidade da Praia permaneça ad eternum como um território “morto”, suspenso no tempo, sem função urbana, económica ou social.

A escolha feita foi simples: agir sobre um problema real, em vez de normalizar a sua permanência. Uma decisão com impacto direto no futuro da cidade.

Importa, contudo, ser rigoroso e intelectualmente honesto na fundamentação dessa decisão. A reversão não resulta de uma rejeição do instrumento da concessão enquanto política pública. A concessão foi, no seu tempo, uma opção legítima, assumida, aliás, de forma suprapartidária, coerente com a lógica de valorização de ativos públicos e com uma visão que extravasava ciclos eleitorais e disputas partidárias.

O que justifica a reversão é um facto objetivo e incontornável: o projeto inicialmente concessionado não avançou. E quando um projeto estruturante falha na sua execução, deixando um espaço central da capital num estado prolongado de indefinição, a manutenção do status quo deixa de ser neutra para passar a ser um problema.

Aceitar que o Ilhéu de Santa Maria permanecesse indefinidamente parado, à espera de uma solução que não se materializou, seria transformar a inação em política pública. A reversão surge, assim, como uma decisão consequente, responsável e alinhada com os interesses da cidade e de Cabo Verde.

Com a reversão, não se fecha o debate, abre-se um novo ciclo de reflexão. Uma nova oportunidade de pensar o espaço com ainda mais ambição, mais integração urbana e maior exigência quanto à visão, à exequibilidade e ao impacto coletivo. A concessão continua a ser um instrumento possível; o que deixa de ser aceitável é a ausência de resultados.

Neste quadro, impõe-se uma questão simples, mas essencial: quem pode estar contra a reversão de um processo que não avançou e que manteve um espaço central da cidade num estado prolongado de indefinição?

A reversão não retira nada à cidade. Pelo contrário, devolve-lhe margem de decisão, capacidade de reflexão estratégica e a possibilidade de construir uma solução mais integrada e mais ambiciosa para um dos seus ativos mais valiosos. Estar contra a reversão é, na prática, defender a manutenção do status quo: um Ilhéu parado, sem função urbana, sem contributo económico e sem impacto positivo na qualidade de vida da cidade. E essa é uma posição difícil de sustentar quando o que está em causa é um espaço frontal, central e identitário da capital.

O centro de uma cidade, sobretudo de uma capital, não pode ser irrelevante, vazio ou residual. Deve ser um espaço nobre, vivo, qualificado e funcional, capaz de agregar valor à qualidade de vida urbana, à economia da cidade e à sua identidade coletiva. O Ilhéu de Santa Maria insere-se plenamente nessa lógica.

Pensá-lo de forma isolada seria um erro estratégico. Ele deve ser integrado numa visão urbana ampla, articulada com o Plateau, a Prainha, a zona portuária e toda a frente marítima da Praia. Um espaço capaz de acolher funções económicas de valor acrescentado, lazer urbano, cultura e turismo, sempre numa lógica de integração e não de enclave.

Esta ambição exige método, planeamento e elevação institucional. Exige estudos sérios de ordenamento do território, impacto ambiental, mobilidade, viabilidade económica e retorno social. Exige também um modelo de governação transparente e robusto, capaz de resistir a ciclos políticos e a tentações de instrumentalização ou a captura por narrativas políticas, como acontece, por exemplo, com o mercado do coco.

Há ainda uma dimensão que não pode ser ignorada: projetos desta natureza despertam, naturalmente, interesse externo e têm leitura diplomática e geoestratégica. A maturidade institucional mede-se pela capacidade de gerir esse interesse com autonomia estratégica e defesa inequívoca do interesse público.

Mas, acima de tudo, a Praia tem de ser ambiciosa consigo própria.

Cidades que se afirmam são aquelas que sabem transformar os seus ativos centrais em símbolos de futuro. O Ilhéu de Santa Maria pode (e deve) tornar-se uma grande mais-valia para a capital: um espaço vivo, qualificado, integrado e identitário, que contribua efetivamente para a qualidade de vida das pessoas e para a projeção da Praia como capital moderna, atlântica e confiante.

A reversão foi um gesto de coragem. O passo seguinte tem de ser um exercício coletivo de visão, responsabilidade e elevação, à altura da cidade que a Praia ambiciona ser.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1261 de 28 de Janeiro de 2026.

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Autoria:Luis Carlos Silva,2 fev 2026 8:19

Editado porAndre Amaral  em  2 fev 2026 8:19

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