Nela, o autoproclamado último “morgado” da ilha do Fogo traça obsessivamente a sua genealogia, a construção da casa, bem como, a origem material que serviu de base para o capital político e social que gozou esta família ao longo dos tempos. No final ele termina com uma frase lacónica: «Não teem filhos». Esta frase trágica e o facto de o manuscrito estar fundido fisicamente com a casa servem de metáfora perfeita para a nossa análise que se segue.
Mas, antes de avançar, convém elucidar o leitor sobre duas categorias operacionais que iremos abordar: instituições vinculares e “Casa”. Os vínculos, sejam morgadios ou capelas, eram figuras jurídicas, ligadas sobretudo à nobreza, que visava a perpetuação e a reprodução social das famílias de elite. O aparecimento desta instituição no arquipélago, remonta aos inícios do século XVI, e até a sua extinção em 1864, marcou indelevelmente a paisagem agrária em Santiago e no Fogo. Ao vincular terras, escravos e gado, um instituidor gerava um conjunto de disposições que ditava que a substância patrimonial deveria permanecer uno e indivisa e, ser transmitida preferencialmente ao varão primogénito (excluindo da herança os outros irmãos). Cabia a este herdeiro preservar a honra e o prestígio da família, bem como cumprir obrigações pias — como missas e atos de caridade — destinadas à salvação da alma do instituidor, que se acreditava estar no purgatório.
Por sua vez, a “Casa” no Antigo Regime, não era apenas a família nuclear, mas um vasto corpo de dependentes ligadas entre si por laços sanguíneos, afetivos e de trabalho. Nesta complexa estrutura política e administrativa os membros inferiores estavam subjugados ao comando e proteção do patriarca (pater famílias), o qual acumulava a potestade marital, paternal e senhorial sobre a mulher, filhos e escravos, respetivamente. Nesta senda, perceba-se, por exemplo, que os morgados tanto em Santiago como no Fogo, definiam quem deveria casar e, obviamente, escolhiam o cônjuge dando preferência a indivíduos de origem europeia como estratégia de “branqueamento da raça”. É sob esta perspetiva que buscaremos responder as ânsias e motivações que estarão por detrás deste manuscrito e, sobretudo, as suas omissões.
Ao tentar traçar a sua árvore genealógica de forma imaculada, Francisco do Sacramento Monteiro foi, no entanto, traído pelos séculos de distância (“bota não bate com a perdigota”). O cruzamento de documentos arquivísticos, permite-nos observar que o autor buscou simplificar a história, criando uma linha quase mítica até aos fundadores originais. Talvez devido à homonímia geracional— pois o fundador da capela de Pico Pires (1534) viu o seu nome repetir-se várias vezes ao longo dos séculos —, o autor condensou três ou quatro gerações distintas numa única narrativa simplificada.
Por outro lado, cruzamento deste manuscrito com os documentos do arquivo revelam que as várias capelas foram fundadas de forma isolada ao longo dos séculos XVI e XVII, acabando por se aglomerar sob o controlo da sua família muito mais tarde, através de uma intrincada teia de heranças, casamentos colaterais e apropriações. Este aspeto concentracionário da terra estrutura-se como uma das maiores clivagens sociais que percorreu Cabo Verde ao longo da sua história. Sem a base fundiária, o acesso ao poder local — Câmara, Milícias, Misericórdia — estava vedado.
Ocultar este documento na estrutura da casa foi, na verdade, um profundo ato de legitimação social e um grito de nostalgia. Importa sublinhar que, quando escreveu a carta em 1897, a figura legal do morgadio já tinha sido abolida por lei há mais de trinta anos. Juridicamente, o autor já não era morgado, mas apenas um cidadão comum, destituído, em certa medida, dos velhos privilégios. Porém, o peso do apelido e a herança imaterial falavam alto. No tecido social e no imaginário da ilha do Fogo, a reverência à velha "Casa" perdurava intacta, e a população continuava a tratá-lo como o autêntico senhor da terra. O manuscrito é, assim, a sua derradeira tentativa de eternizar na pedra um título e um prestígio que a legislação liberal lhe retirara, mas que a tradição teimava em manter vivos.
Francisco do Sacramento Monteiro quis passar uma imagem gloriosa e imaculada da sua linhagem. No entanto, há um outro facto crucial que o autor do manuscrito omitiu e que jaz esquecido nos arquivos. Ele buscou apagar da memória familiar o momento em que a sua gloriosa "Casa" quase colapsou. Com efeito, António Barbosa Aranha, seu antepassado e então administrador das capelas de Pico Pires, Fragoso, Cancela, Penteada e Lagete, fez um termo de desistência em 1745, tentando abrir mão do património. A justificação registada na época contrasta violentamente com o tom de grandeza do manuscrito: “[...] por cauza da seca estar a fazenda perdida em firmeza de tudo”.
Segundo o despacho da petição, o escrivão da época confirma as alegações, atestando que as terras estavam destruídas pelas secas cíclicas e desprovidas de escravos. Este silêncio no documento de 1897 é absolutamente revelador. Para o "último morgado", admitir que um patriarca anterior tentou devolver os vínculos por incapacidade financeira seria destruir o mito de invencibilidade da família. O arquivo, no entanto, expõe a fragilidade dessa narrativa, lembrando-nos que, em Cabo Verde, até a aristocracia local vivia sob a ditadura implacável do clima.
Para finalizar, importa debruçar-nos sobre uma questão fundamental: a sobrevivência biológica da “Casa”. O que está em causa aqui é a impossibilidade de o casal ter descendentes, o que constituía o pior pesadelo para estas famílias, pois significaria o fim da linhagem. Contudo, análise genealógica revela que Francisco e Amélia não eram apenas primos pelo lado paterno, mas as suas mães eram também primas entre si e, mais grave ainda, ambos eram já filhos de casamentos entre primos. Tratava-se de um sistema fechado, onde o sangue circulava em 'circuito curto' há mais de meio século, potenciando drasticamente a catástrofe genética.
A frase final do manuscrito — «Não teem filhos» — não é apenas uma constatação genealógica; é o atestado de óbito biológico de uma classe que, por tanto querer preservar-se, acabou por extinguir-se. Contudo, por ironia do destino, se a linhagem biológica pereceu, o corpus material resistiu: a velha “Casa” mantém-se de pé e imponente, cumprindo hoje o seu papel não apenas como espaço museológico, mas assumindo-se como a última e mais duradoura testemunha do legado do último “morgado” do Fogo.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1271 de 08 de Abril de 2026.
homepage











