Elites de origem popular: as ambivalências da ascensão

PorCésar Monteiro,17 ago 2026 8:07

César Monteiro | Sociólogo e investigador
César Monteiro | Sociólogo e investigador

​Ao longo de várias gerações, a sociedade cabo-verdiana tem sido marcada por expressivos processos de mobilidade social ascendente de muitos técnicos e dirigentes políticos nacionais, oriundos de meios populares.

Considerada um dos objetos mais complexos e reveladores da sociologia da mobilidade social, a trajetória de ascensão de uma origem popular ao topo da hierarquia técnico-política, recorrente em Cabo Verde desde a independência nacional, por via da educação e da política, gera, muitas vezes, uma profunda tensão identitária, bem como contrastes, paradoxos e conflitos internos em quem ascende socialmente ou atravessa fronteiras de classe, num percurso que deixa marcas indeléveis. Uma das dimensões menos visíveis desta mobilidade vertical reside naquilo a que a sociologia chama «incongruência de estatuto». O conceito foi elaborado por Gerhard Lenski, em «Status Crystallization: A Non-Vertical Dimension of Social Status» (1954), sob a designação de «cristalização de estatuto», mais tarde substituída pela de «consistência» ou «inconsistência de estatuto», e traduz-se no desencontro entre a origem social popular dos indivíduos e o seu elevado nível de instrução ou, inversamente, entre posições sociais elevadas e baixos níveis de qualificação. Este desalinhamento pode gerar mal-estar, frustração e comportamentos específicos, visíveis na sociedade cabo-verdiana e, particularmente, no seio de elites locais em construção permanente.

Convém, todavia, ter presente que, no sistema de estratificação social cabo-verdiano, elite não é sinónimo de classe média. A classe média pode dispor de capital económico, cultural e social suficiente para se aproximar de segmentos da elite cultural e política, mas isso não a torna, por si só, elite, cuja definição conceptual tem variado ao longo da história. Na tradição clássica, Gaetano Mosca, em Elementi di scienza politica (1896), definia uma elite como uma minoria organizada que detém o poder e forma a classe dirigente; Vilfredo Pareto, em Trattato di sociologia generale (1916), acrescentou à definição o critério da excelência e distinguiu entre elites governantes e não governantes. Max Weber, em Wirtschaft und Gesellschaft / Economia e Sociedade (1922, obra póstuma), por sua vez, permitiu pensar a elite como grupo de estatuto e de poder, e não apenas de riqueza. C. Wright Mills, em The Power Elite (1956), realçou que uma elite se caracteriza sobretudo pela capacidade de decidir, influenciar e impor definições legítimas da realidade social e, por isso mesmo, não se circunscreve a um conjunto de ricos.

Numa perspetiva mais refinada e mais lata, Pierre Bourdieu, em La Distinction. Critique sociale du jugement (1979), sublinha que as elites são grupos que ocupam posições superiores do espaço social devido à acumulação e conversão de capital económico, social, cultural e simbólico. A sua posição é reproduzida também por vias culturais e simbólicas, e não apenas através de mecanismos políticos ou económicos. Daí que, em qualquer sociedade, pertencer à elite dependa da composição desses capitais e da posição ocupada no campo do poder. Importa, por isso, não reduzir a elite aos «ricos», nem pensar em termos rigidamente dicotómicos de «nós» contra «eles», numa retórica moralista e anti-elite. A elite também não deve ser idealizada, demonizada ou instrumentalizada por discursos de vitimização política. Enquanto categoria sociológica, a elite, pela sua posição privilegiada, pode ser uma alavanca de mudança e de crescimento, desde que alinhada com o interesse público e integrada numa estratégia adequada de desenvolvimento. Em sentido contrário, quando toma o Estado como refém, fecha oportunidades, bloqueia a mobilidade social e revela falta de qualidade no modo como interage e dialoga com a sociedade, converte-se num fator de retrocesso.

À semelhança do que ocorre noutros países, as elites cabo-verdianas revelam-se, na sua generalidade, frágeis, segmentadas e incompletas. Segundo Cláudio Alves Furtado, em Génese e (re)produção da classe dirigente em Cabo Verde (1997), destacam-se sobretudo nos domínios político-administrativo, intelectual e cultural, cabendo ao Estado e às instituições de ensino um papel relevante na sua mobilidade e consolidação. Contudo, frisa o sociólogo, do ponto de vista económico, não se constituiu uma elite suficientemente autónoma e robusta que pudesse sustentar um bloco dirigente plenamente consolidado. Em síntese, pode afirmar-se que na sociedade cabo-verdiana há elites plurais e estruturalmente frágeis, maioritariamente escolarizadas por via estatal e socialmente heterogéneas, em contraste e em tensão com a sua origem popular. A mobilidade social de indivíduos provenientes destes meios, combinada com a distribuição desigual dos recursos e das posições sociais, é responsável pela produção de situações de «incongruência de estatuto». Os dados disponíveis confirmam a dimensão do fenómeno, de acordo com Crisanto de Barros, em Génese e formação das elites político-administrativas cabo-verdianas: 1975-2008 (2012): cerca de 22% da elite político-administrativa cabo-verdiana provêm dos segmentos sociais mais desfavorecidos e três em cada quatro altos dirigentes da administração pública foram beneficiários do programa estatal de bolsas de estudo.

A passagem de uma origem popular à elite faz-se, em Cabo Verde, sobretudo por via da escolarização, o principal mecanismo de ascensão social. Trata-se de um processo que Bourdieu teorizou em Esquisse pour une auto-analyse (2004), sob a figura do «trânsfuga de classe», caracterizada por um «habitus clivado» (dividido), e que Chantal Jaquet (filósofa), em Les transclasses ou la non-reproduction (2014), prefere designar por «transclasse». É um percurso que comporta frequentemente uma rutura identitária profunda, geradora de traumas, complexos e desconforto, cujas marcas são duradouras. A origem social popular não desaparece com a mobilidade ascendente; pelo contrário, permanece inscrita nos gostos, na linguagem e na relação com o mundo, deixando marcas que se manifestam em comportamentos ambivalentes e em custos psicológicos invisíveis. Quem ascende socialmente vive simultaneamente em dois mundos diferentes: o da origem, cuja pertença reivindica e à qual quer manter-se leal, e o de chegada, que lhe exige um esforço permanente de integração.

Desta «dupla não-pertença», noção formulada pelo investigador Brady Smith, em «Other Atlantics: Cape Verde, Chiquinho, and the Black Atlantic World» (2012), a propósito da identidade cabo-verdiana, resulta um comportamento que oscila entre a reivindicação da sua origem popular e da sua autenticidade, sobretudo em situações de crise identitária, e o abandono do seu passado, sempre que o processo de integração social ponha em causa as suas raízes, as ameace ou as estigmatize. É nessa oscilação permanente entre duas escolhas identitárias inconciliáveis e dois caminhos que se cruzam e se contrapõem que reside o verdadeiro custo psicológico da trajetória ascendente. Afinal, a questão relevante não é saber se a sociedade cabo-verdiana produz ou não elites, nem avaliar o seu grau de rejeição ou de instrumentalização política. O que faz sentido apurar, analiticamente, é se o tipo de elite que o país produz está ou não ao serviço do desenvolvimento de Cabo Verde, sem que os seus atores reneguem a origem popular, percam a autenticidade ou se envergonhem do passado que os seus ancestrais edificaram de sol a sol.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1289 de 12 de Agosto de 2026.

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Autoria:César Monteiro,17 ago 2026 8:07

Editado porAndre Amaral  em  17 ago 2026 8:07

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