Para Stuart Hall, a identidade cultural habita o que fomos e o que ainda estamos a tornar-nos. É trama de relações, não herança imóvel. Memória que cada geração recompõe.
Nenhuma escolha cultural é inocente. Aquilo que uma nação repete entra no seu retrato; aquilo que silencia desaparece do rosto. O perigo começa quando a parte iluminada ocupa o lugar do todo.
Mas essa penumbra não é apenas metáfora. Tem vozes, ritmos e rostos da minha infância. Antes de a compreender, já a vivera como ausência. Cedo aprendi que uma cultura não precisa de autorização para existir.
Nasci numa ilha onde a cultura nunca foi espectáculo. Era a vida. Antes de alguém lhe chamar património, já o “Renado” percorria caminhos antigos, numa religiosidade que era também organização comunitária. As “Banderas” reuniam famílias; a “Canizade” revelava uma verdade mais funda: a festa pertence à comunidade, não ao indivíduo.
Nada disto nasceu por decreto ou precisou de selo oficial. Era cultura porque era vivido, memória porque era transmitido, identidade porque respirava nas colheitas, na fé, nos funerais, no vinho novo, no café e no vulcão. O folclore ainda não fora separado do corpo que o vivia.
Muitos anos depois, já longe, reparei que, sempre que Cabo Verde precisava de se representar, regressavam as mesmas imagens, ritmos e símbolos. Onde estavam a minha e as outras ilhas — não as da paisagem, mas as que cantam, celebram, rezam e guardam rituais anteriores ao Estado independente?
Aquela cultura continuava viva, mas raramente aparecia quando o país contava a própria história. Compreendi então a distância entre existência e visibilidade. A minha ilha nunca sofreu de pobreza cultural; sofreu de excesso de silêncio.
A distância transforma a lembrança em lupa e o esquecimento em ferida. Nos Estados Unidos, encontrei foguenses e bravenses que, sem ministérios ou a paisagem de origem, mantinham vivos o folclore, as festas e o crioulo das ilhas. A cultura é a biografia colectiva de um povo; nenhuma se torna mais verdadeira quando lhe arrancamos capítulos.
Essa repetição nunca é inteiramente espontânea. A cultura percorre os caminhos que o poder lhe abre: a rádio que transmite, o palco que acolhe, o festival que programa, a escola que ensina, a instituição que financia. Nenhuma política cultural inventa sozinha uma tradição, mas pode ampliar-lhe a voz até que uma expressão particular fale em nome do país inteiro.
A liberdade de um país não se consuma na conquista do próprio destino. É também «um acto de cultura» (A. Cabral). Em redor da independência, canções e ritmos transportaram libertação, africanidade e pertença. Foram música, mas também pedagogia de um país recente.
Toda a pedagogia da identidade, porém, selecciona. Algumas expressões atravessaram o arquipélago pelos caminhos institucionais; outras ficaram junto das comunidades que as criaram. Não foi preciso declarar uma superioridade. Bastou tocar, ensinar e celebrar umas com maior frequência. A insistência fez o resto. Uma parte adquiriu a aparência do todo.
Basta acompanhar jornais e redes sociais para perceber que até a homenagem obedece a uma geografia desigual. Ali sempre regressam nomes, ritmos e tradições de Santiago. Hoje um cantor de funaná recebe um dia em seu nome em Brockton; amanhã, uma voz do batuque é celebrada em Lisboa. São tributos merecidos; o problema não está na luz que recebem, mas na noite que se prolonga sobre os demais. A cultura de Santiago é cabo-verdiana, mas tornou-se tão ubíqua que a parte começa a passar pelo todo. De São Nicolau, do Maio, da Boa Vista, do Sal, do Fogo, et al. — chegam-nos homenagens, como se diz por aqui, once in a blue moon: tão raramente que parecem depender de uma lua improvável. Não lhes faltam criadores ou memória. Falta-lhes a insistência que transforma um nome em património e uma tradição particular no rosto do país.
As redes sociais deram ao mecanismo outra velocidade. Aquilo que já possui visibilidade recebe ainda mais, até que repetição e representatividade se confundam. O algoritmo não conhece a diversidade de um arquipélago: devolve-nos o que mais circula, e o que mais circula acaba por parecer tudo o que existe.
Vejo jovens compositores, músicos, escritores e poetas — capazes de dar voz e memória às suas ilhas — reproduzirem ritmos, tradições e falas de Santiago. Sem o perceber, devolvem o que os media, os palcos e as instituições lhes ensinaram a reconhecer como cultura nacional e, tacitamente, superior às demais. Quem poderia abrir outra estrada segue a única iluminada. Não é o encontro que ameaça a diversidade, mas a viagem de sentido único.
A minha ilha não é apenas uma montanha que entrou em erupção, mas uma comunidade que aprendeu a viver à sua sombra. Seu folclore é solidariedade; suas festas, memória organizada; suas músicas, uma forma de habitar o tempo. Não receio que Djarfogo deixe de produzir cultura. Receio que as novas gerações reconheçam o vulcão nas fotografias, mas já não escutem as vozes guardadas na lava. Uma cultura começa a desaparecer quando deixa de ser necessária para compreendermos quem somos.
Preservar não é embalsamar o tempo, mas garantir que uma comunidade se reconheça naquilo que transforma.
É aqui que a descentralização se torna cultural. Cada ilha e concelho deve guardar e transmitir a própria memória. Promover festas não basta. Um calendário cheio pode esconder uma memória vazia. Cabe às autarquias documentar e ensinar as tradições nas escolas e nos arquivos. Uma festa que termina no palco deixa aplausos; uma política cultural que chega à escola deixa herdeiros.
Não reclamo um privilégio para o meu berço. Uma ilha nunca basta para explicar um arquipélago; mas este também não se compreende quando uma das suas memórias permanece na sombra. A unidade não exige uma só voz. Exige que nenhuma ilha seja silenciada para que outras possam ser ouvidas.
É essa sombra que me inquieta. Primeiro esquecemos uma palavra; depois, uma cantiga; mais tarde, um costume. Um dia, já ninguém sabe explicar os gestos dos avós: separados da memória que lhes dava sentido, representam apenas a própria ausência.
Não se trata de substituir uma centralidade por outra, mas de alargar o retrato até que o país reconheça nele a pluralidade do próprio rosto. Uma cultura torna-se verdadeiramente nacional quando circula entre as diferenças, não quando uma diferença se transforma na linguagem de todas as outras.
Foi isso que a minha ilha me ensinou: a identidade não é uma bandeira erguida contra alguém. É uma chama que se transmite. E quando uma chama acende outras chamas, não diminui. Ilumina mais.
Se Cabo Verde conseguir fazer isso com todas as suas memórias, terá compreendido a mais difícil lição de um arquipélago: nenhuma ilha se torna menor quando outra é finalmente iluminada.
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Doutorado em Matemática Aplicada pela Harvard University, vencedor, em 2025, da 8.ª edição do Prémio Literário Arnaldo França com o romance: "Djarbás da Fontarém - Silhueta de um País em Trânsito".
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1293 de 09 de Setembro de 2026.
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