Da expansão à fragmentação
Cabo Verde fez, em poucas décadas, um percurso assinalável. Durante muito tempo, o acesso ao ensino superior dependia largamente da saída para o estrangeiro. A criação de instituições no país ampliou oportunidades, formou quadros e democratizou o acesso ao conhecimento. Essa expansão correspondeu a uma necessidade histórica. Chegou, porém, o momento de avaliar se o sistema cresceu de forma compatível com a dimensão demográfica, económica e científica do país.
Uma universidade não é apenas uma soma de cursos, salas de aula e estruturas administrativas. Precisa de professores qualificados, investigação continuada, laboratórios, bibliotecas, pós-graduação, cooperação científica e capacidade de produzir conhecimento. Quando recursos humanos e financeiros escassos se dispersam por instituições pequenas, aumenta o risco de multiplicar estruturas sem criar verdadeira densidade académica. Em Repensar a Educação, já se apontava para a necessidade de uma reorganização capaz de optimizar recursos, reduzir redundâncias e consolidar áreas de especialização.
A questão não se esgota, contudo, nas duas universidades públicas. Se a dimensão do país obriga a interrogar a sustentabilidade de duas instituições estatais, também deve levar a olhar com atenção para a existência de nove instituições privadas num mercado reduzido. O ensino privado teve um papel importante na expansão da oferta, mas permanece muito dependente das propinas e enfrenta limitações no financiamento da investigação, na qualificação do corpo docente e na modernização das infraestruturas. O problema, portanto, não é apenas saber quantas universidades públicas deve haver, mas perceber se o sistema, no seu conjunto, está ajustado à escala, às necessidades e à capacidade científica do país.
Uma universidade com forma arquipelágica
Uma eventual integração da UTA na Uni-CV poderá fazer sentido, desde que não seja entendida como simples absorção administrativa nem como concentração territorial do ensino superior. Uma universidade nacional pode ser una na governação e na estratégia e, ao mesmo tempo, distribuir-se pelo arquipélago segundo áreas de conhecimento ligadas às vocações e potencialidades das diferentes ilhas.
Essa perspectiva parece mais fecunda do que reproduzir ofertas semelhantes em vários lugares. Cabo Verde poderia organizar polos especializados de uma mesma universidade pública: Ciências da Saúde e Tecnologias em Santiago; Ciências Agrárias e Ambientais em Santiago ou Santo Antão; Geologia, Vulcanologia e Enologia no Fogo; Turismo e Aeronáutica no Sal; Engenharias e Ciências do Mar em São Vicente. A distribuição deixaria de obedecer apenas a critérios administrativos para passar a articular conhecimento, território e desenvolvimento.
A própria geografia poderia transformar-se em recurso académico. São Vicente possui tradição marítima e o Campus do Mar; o Sal reúne aviação, turismo e mobilidade internacional; o Fogo oferece condições únicas para o estudo da vulcanologia e da agricultura de altitude; Santo Antão constitui um espaço privilegiado para investigação em agricultura, água e ambiente; Santiago concentra população, administração pública, saúde e grande parte das instituições nacionais. O Campus do Mar mostra já como uma área especializada pode ligar formação, investigação aplicada e economia.
Um modelo desta natureza exigiria uma política séria de mobilidade, com residências universitárias, bolsas, transportes interilhas, laboratórios partilhados e plataformas digitais comuns. A circulação de estudantes e docentes deixaria de ser um complemento e passaria a integrar a própria experiência universitária. A insularidade, tantas vezes vista apenas como constrangimento, poderia tornar-se também parte da formação.
Menos estruturas, mais universidade
Qualquer reforma só terá sentido se a racionalização administrativa se traduzir em reforço académico. Menos estruturas devem significar mais professores qualificados, mais investigação, melhores laboratórios, bibliotecas mais fortes, mais pós-graduação, mais bolsas e maior cooperação internacional. Se a fusão servir apenas para alterar organigramas e transferir serviços, pouco terá sido ganho.
Cabo Verde precisa igualmente de decidir se quer instituições predominantemente voltadas para a oferta de cursos ou universidades capazes de produzir conhecimento próprio. Num país de pequena escala, a universidade deve ir além da certificação. Deve ajudar a compreender problemas, antecipar desafios e formular soluções. Oceanos, alterações climáticas, energias renováveis, vulcanologia, biodiversidade insular, mobilidades, turismo, pequenas economias, línguas e culturas crioulas, governação de pequenos Estados insulares são áreas em que o país pode construir conhecimento com interesse nacional e projecção externa.
Essa projecção pode tornar-se parte do próprio modelo universitário. A Universidade de Cabo Verde pode ser pensada para se afirmar como polo internacional de formação e investigação, atraindo estudantes estrangeiros para licenciaturas, mestrados e doutoramentos, bem como docentes e investigadores para projectos, estágios científicos e programas de mobilidade. A posição atlântica do país, a proximidade à África Ocidental, a pertença à CPLP, a relação com a Macaronésia e a diáspora oferecem condições para construir redes académicas que ultrapassem o mercado interno. Uma universidade pública nacional pode, assim, formar em Cabo Verde, produzir conhecimento a partir de Cabo Verde e projectá-lo para o mundo.
A pequena dimensão não obriga a pensar pequeno. Obriga a escolher melhor, concentrar recursos e definir prioridades. O debate sobre o ensino superior deve, por isso, deslocar-se do número de instituições para a qualidade do sistema, da multiplicação de cursos para a especialização e da gestão corrente para uma visão de longo prazo.
Pensar antes de decidir
A eventual extinção da UTA poderá vir a ser uma consequência racional de uma reforma, mas não deve ser confundida com a própria reforma. O anúncio do ministro pode servir de ponto de partida para uma reflexão nacional sobre o futuro do ensino superior, envolvendo universidades públicas e privadas, professores, estudantes, investigadores, empresas, municípios, diáspora e parceiros de cooperação. Antes de decidir quantas instituições devem permanecer, importa definir que áreas o país quer desenvolver, que conhecimento pretende produzir, que modelo de financiamento consegue sustentar e que relação deseja estabelecer entre universidade, território e desenvolvimento.
Cabo Verde já venceu uma primeira batalha histórica: conseguiu criar ensino superior no próprio território. A etapa seguinte é mais exigente, porque já não se trata apenas de garantir acesso, mas de construir um sistema com qualidade, massa crítica, investigação, sustentabilidade e sentido nacional. Talvez tenha chegado o momento de trocar a pergunta «quantas universidades devemos ter?» por outra mais difícil e mais fecunda: que universidade precisa Cabo Verde? Talvez seja esse o desafio: construir uma universidade pública nacional suficientemente forte para ser una, suficientemente aberta para ser internacional e suficientemente cabo-verdiana para ser arquipelágica.
Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1294 de 16 de Setembro de 2026.
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