Quando o assunto é a educação sexual na infância, as opiniões divergem. O tabu que ainda existe na sociedade cabo-verdiana muitas vezes impede que haja uma conversa fluente entre pais e filhos e até mesmo entre professores e alunos. É que se se para uns esse diálogo é fundamental, para outros, essa “conversa” não é para crianças.
Para tentar perceber o que os cabo-verdianos pensam acerca da Educação Sexual Infantil, saímos à rua e conversamos com alguns transeuntes, com o objectivo de esclarecer as dúvidas que existam acerca do tratamento desse tema no seio familiar e escolar.
“Eu acho que se deve ensinar a educação sexual às crianças sim, porque quando aprendem em casa não ficam com aquela curiosidade de aprender na rua com os outros, nem vão ficar espantados ao ouvir tratar deste assunto”, afirmou Manuel Soares. Mas nem todos concordam com este entrevistado. João Brito, por exemplo, considera que essa não seria a resolução do problema. Pelo contrário, seria o início do mesmo. “Não sei se se deve falar com as crianças desde muito cedo sobre sexualidade. Acho que acaba por incutir neles uma certa curiosidade e vão querer experimentar também”, argumenta.
Cada qual mantém a defesa do seu ponto de vista. “Conheço muitos jovens que desde criança já sabiam muitas coisas sobre como funciona o seu corpo e quando começaram a sentir as transformações da puberdade não estranharam. Reagiram com naturalidade e começaram uma vida sexual activa muito mais tardia do que aquelas que eram mais conservadoras e não tinham uma orientação sexual na família”, contrapõe Manuel Soares.
Segundo este transeunte, muitas jovens que iniciam a vida sexual cedo - com complicações como a gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis como a sífilis, gonorreia etc. - , são aquelas em que a sexualidade em sua casa é um tabu. É neste sentido que considera que o diálogo entre país e filhos acerca da sexualidade é fundamental para o desenvolvimento das crianças. Mais ainda, Manuel Soares acredita que o ensino da educação sexual, tanto nas escolas, como no seio familiar, ajuda, e muito, no processo de desenvolvimento do jovem e, quiçá na sua formação social como parte integrante da sociedade.
A educação sexual é, na realidade, e segundo os especialistas, fundamental, pois, possibilita o aumento da capacidade do jovem em compreender as suas próprias emoções, ajudando assim na construção de uma vida sexual saudável. Ao mesmo tempo, permite discutir sentimentos e atitudes e elevar a capacidade das crianças e pré-adolescentes na tomada de decisões, tanto individuais como de grupo. Além disso, na mesma linha do que defende Manuel Soares, considera-se a nível internacional que uma boa educação sexual leva os jovens a iniciar a vida sexual um pouco mais tarde, com mais maturidade.
As questões religiosas
Muitas vezes também, as conversas sobre sexualidade são travadas por questões religiosas, preconceitos, mitos e os valores morais, que resistem ao desenvolvimento e modernização. Como frisa Luísa Freire, professora do 5º ano do Ensino Básico Integrado, a religião não proíbe o início da vida sexual, mas diz que ela deve ser feita após o casamento.
“De acordo com o que a religião Católica, os dez mandamentos dizem para guardar castidade, que sexo só pode ser feito depois do casamento”.
Hoje guardar castidade ficou apenas nos mandamentos, uma vez que os jovens têm iniciado a sua vida sexual activa um pouco mais cedo, mas cabe ainda às igrejas um papel importante na formação sexual dos crentes, assevera Luísa Freire.
“A igreja tem um peso relevante porque, se repararmos, as pessoas que frequentam as igrejas e se relacionam bastante com os dez mandamentos, principalmente o de ‘guardar castidade’, podem até iniciar a sua vida sexual antes do casamento”, mas encara essa questão com outro olhar. Ou seja, não vê o sexo como algo tão banalizado.
O preconceito
Os filhos podem até questionar os pais sobre as suas dúvidas sexuais, mas o facto é que grande parte dos pais cabo-verdianos evitam essas conversas, levando em conta os seus valores e princípios morais. Face a isto, muitas vezes cabe unicamente às escolas educar as crianças neste sentido.
“Às vezes, não é fácil para os pais saberem que os filhos estão a ter aulas de educação sexual. Por exemplo, por vezes quando falamos na equidade e igualdade do género, costumamos dizer que tanto as meninas como os rapazes podem brincar com as bonecas, mas os pais não aceitam. Dizem que as bonecas são para as meninas e os carros para os rapazes, que os seus filhos não vão ser uma “florzinha”, revela Luísa.
Segundo declarações de Luísa Freire, a comunicação social também tem um papel fundamental na formação dos jovens e deveria apostar na educação sexual, além de esclarecer as dúvidas dos pais em relação à Educação Sexual Infantil.
Há pais que “pensam que queremos conduzir os seus filhos para um mau caminho, porque a nossa cultura pesa e muito nesse sentido. Podem achar que se um professor mostrar um preservativo aos alunos, está a conduzir os alunos para dar início à sua vida sexual. Muitos pais pensam assim e a formação deveria ser para a sociedade em geral. Devem sensibilizar os pais de modo que, quando começamos a abordar esses temas, os pais também saibam, qual a sua atitude que devem ter para com os seus filhos e como devem proceder para os sensibilizar” para estas questões.
Para a professora, trata-se de complementar o trabalho da escola até porque “a educação vem de casa”. “Nós aqui complementamos mas, há assuntos que abordamos e iniciamos, que eles devem complementar”.
O tabu
Falar sobre a Educação Sexual com os filhos é constrangedor para alguns pais. Por isso, os pais não ensinam aos seus filhos como nascem os bebés e muito menos os nomes científicos dos órgãos sexuais.
“Há seis anos atrás, eu e minha colega estávamos a leccionar o 6º ano, e saiu o aparelho reprodutor masculino num teste. A seta apontava para o testículo, e os alunos deveriam colocar o nome. Como era um teste de exame se o aluno estivesse acostumado com o nome científico não ia esquecer. Mas um aluno não conseguiu lembrar-se do nome e escreveu “obo”, que foi o nome que aprendeu em casa. Consideramos certo porque foi esse o nome que ele aprendeu. Somente no 6º ano é que aprendeu o nome correcto”, recorda a professora. É que eles vêm de casa com nomes como “lalau”( pénis) , “tutuxa” (vagina), desconhecendo de todo o nome científico.
O tabu que existe é de tal ordem que, quando um colega faz perguntas sobre sexualidade, alguns alunos reagem com risos e outros sentem-se intimidados.
“Temos alunos que começam a rir e ridicularizam aquele aluno que fizer perguntas. É por isso que muitas vezes há alunos que não questionam, para não sentirem mal. É que os outros começam a dizer que ele/a questiona porque já iniciou a vida sexual activa ou então está a tentar preparar o caminho para isso. Mas não sei, se calhar é da nossa educação, nossa cultura. Não fomos educados para ver o sexo como algo bom, que devemos começar com uma certa idade e uma certa responsabilidade. Temos esse tabu, os alunos troçam daquele que faz perguntas e por isso, por vergonha, muitos deles não colocam questões, acabando às vezes por cometer erros graves”.
A formação dos professores
Muitas vezes as próprias escolas não possuem as condições necessárias para promover a conscientização desses jovens e, estes acabam por ter uma vida sexual activa, sem haver antes um preparo físico e psicológico que os leve a proteger-se e a proteger o seu companheiro de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) ou de uma gravidez indesejada.
“Nós não recebemos nenhuma formação que nos ajude a colmatar esta situação. Ensinamos de acordo com a nossa formação de professores. Temos a disciplina de ciências integradas e costumamos abordar esses temas, em trabalhos de grupo. Não temos nenhuma formação profunda que nos ensine a forma como trabalhamos esses tipos de temas, sem criar tabu, fazendo com que os alunos tenham uma mente mais esclarecida”, diz, insistindo que não são “somente os professores necessitam de uma formação nesse sentido. Os pais também precisam”.
A professora Luísa considera, pois, que este derrubar do tabu como fundamental, para que a informação seja transmitida da melhor forma.
“Acho que desde o 1º ano devem começar a abordar esses temas. Devemos despertar neles a noção de que sexo não é algo negativo, nem deve ser visto como uma via para conseguir dinheiro. Se forem desde muito cedo educados, vamos derrubar esse tabu e veremos de que sexo é algo bom, que deve ser iniciado com responsabilidade e com uma certa idade”.
A própria nudez é encarada com preconceito.
“Há pouco tempo estávamos a trabalhar com os alunos os australopitecos, homo sapiens… e uma aluna trouxe um livro [com imagens de nu]. Um outro colega professor, que tem também um certo tabu, disse que o melhor seria não mostrar aquele livro aos alunos, mas nós temos que mostrá-lo para que possam crescer sem tabus. Quando escondemos vão procurar [conhecer por outras vias] porque sentem curiosidade”.
As situações delicadas também fazem parte da vida dos professores. Uma vez que hoje os jovens acabam por se envolver sexualmente mais cedo e com parceiros muito mais velhos, os docentes de algumas escolas tentam em conjunto com os pais abordar esses temas e encaminhá-los de acordo com as idades das crianças e jovens.
“Muitas vezes no nosso encontro com os pais, tentamos em conjunto orientar as nossas crianças para um bom caminho de vida sexual. É claro que abordamos de acordo com a idade deles, porque não aprofundamos. De facto temos estado a constatar gravidez precoce nas alunas, mas não é o caso de [Escola] Capelinha. Aqui ainda não verificamos esse tipo de situação, mas é um dos aspectos que nos preocupa bastante. Já costumamos é ter casos de alunas que se envolvem com pessoas mais velhas mas tentamos sempre chamar os pais e dialogar com as alunas para não se desviarem do caminho. A escola sempre faz a sua parte. Fazemos palestras, os professores abordam temas relacionados na sala. Não estamos indiferentes a esse tipo de situação”, garante.
O papel do Estado
Luísa Freire acredita que se fosse criado um programa, os professores saberiam melhor o que oferecer aos alunos em matéria de educação sexual.
“Estamos a trabalhar a cidadania e abordamos todos esses temas, mas não temos um programa específico. É nesse sentido que o ministério está a pecar. São introduzidas novas disciplinas, mas os professores estão sem orientação, sem um programa para saber o que de facto devem abordar. Depende da dinâmica do professor saber o que abordar. Vê-se os alunos no liceu a trabalhar essa disciplina, doenças sexualmente transmissíveis, sida, vários outros, e, começam a ter um esclarecimento que é bom. E nós aqui no básico, não temos nenhum programa que defina o que deve ser leccionado”.
Cabe a cada professor, pois, conhecer os seus alunos e encontrar uma forma de fazer passar a informação a todos sem excepção, mas também respeitando a religiosidade de cada um.
Esses temas devem ser abordados, principalmente, de forma transversal tendo algo como referência, cabendo a cada professor de acordo com a sua formação, adaptar a sua disciplina de trabalho aos demais.
“A educação sexual propriamente dita começa-se no 4º ano de escolaridade mas é o básico. No 5 º ano de escolaridade não abordamos esse tema, que apenas retomamos no 6º ano, de uma forma mais aprofundada. Tendo em conta o programa, tratamos dos temas transversais como doenças sexualmente transmissíveis, sida, até fazemos trabalhos de grupo, onde as crianças vão pesquisar e vem com um conhecimento mais esclarecido. Fazemos também um debate onde partilham os seus conhecimentos, e nós, também de acordo com a nossa vivência, tentamos conduzir os alunos para caminhos certos no que diz respeito á vida sexual”, esclarece Luísa Freire.
Daí que a formação dos professores neste aspecto seja indispensável para a própria formação dos alunos, em matéria de educação sexual, reitera.
Aliás, o artigo 43º do Estatuto da Criança e do adolescente (ECA), criado pelo governo de Cabo Verde em parceria com a UNICEF-Cabo Verde, e aprovado em Dezembro de 2013, diz, no seu artigo 2, sobre Saúde Sexual e Reprodutiva que “o Estado, com a participação activa da sociedade, deve garantir o acesso a serviços e programas de saúde sexual e reprodutiva a todas as crianças e adolescentes, de forma gratuita e confidencial, resguardando o seu direito à intimidade e respeitando o seu livre consentimento”.
Mas segundo Luísa Freire, “a sociedade cabo-verdiana ainda não evoluiu de tal forma”.
“Não sei se em conjunto com as escolas se pode fazer alguma coisa. Mas é preciso que nós educadores evoluamos para que junto com a nossa comunidade, os nossos educandos, consigamos aplicar o que diz no artigo 2 do ECA. Mas acho que ainda não estamos nesse nível.”
É importante, por fim, realçar que os pais, professores e encarregados de educação, devem criar um ambiente que seja propício, tranquilo e descontraído, mas também respeitoso e seguro, para que possam transmitir aos seus filhos e alunos que, de facto, é importante conhecer-se a si mesmo, para que possam conhecer o seu parceiro. Mais ainda é preciso fazer entender a importância do acto sexual, mas também das suas consequências, quando é feito sem conhecimento e responsabilidade.
Como falar com as crianças sobre Sexualidade?
- É importante que os pais conversem com os filhos sobre sexualidade e dêem respostas informativas o suficiente, pois, se assim não for, a dúvida não será satisfeita e as crianças poderão recorrer a outras fontes que nem sempre são confiáveis. Por outro lado, dar respostas extensas também não é indicado. É necessário responder simplesmente aquilo que a criança perguntar.
- As respostas sobre sexualidade devem ser de acordo com as perguntas das crianças. E, não se preocupe, a própria criança dará sinais do momento adequado para saber cada coisa.
- O ideal seria falar sobre sexo com as crianças de forma objectiva, como se estivesse a falar de qualquer outro assunto.
- É importante que o casal fale, junto, da sexualidade com a criança, oferecendo, assim, visões diferentes e enriquecedoras.
- Quando uma criança usar palavrões, o melhor é explicar o que significa e porque é que não deve ser utilizado.
- A sua atitude ao responder à questões, o tom de voz, a segurança ou não nas informações e o facto de estar ou não a vontade influencia a aprendizagem da criança.
- Devem ser utilizados os nomes cientificamente correctos para as partes sexuais (pénis, vagina…), evitando nomes populares como “lalau” ou “tutuxa”.
- É importante falar das transformações físicas como menstruação, desenvolvimento dos seios, etc, antes que ocorram de forma natural.
- Ensine as crianças que a sexualidade deve ser algo agradável e não deve aceitar qualquer forma de sexualidade que não o seja.
- No mesmo sentido, ensine à criança que é certo dizer “não” a um adulto, a fim de que ela possa se defender de abuso sexual.
- Se não souber responder a uma questão, não tenha medo de assumir para a criança que não sabe.
- Depois de ter respondido às questões das crianças, certifique-se de que a criança entendeu a sua resposta e dê-lhe oportunidade de fazer outras questões.
- Note bem que para compreender a curiosidade das crianças é necessário que participem activamente nas suas vidas, no que ela vê e escuta.