Com o propósito de alertar para uma “realidade silenciada” pela sociedade portuguesa, a obra é o testamento histórico de exilados políticos, desertores e refratários, que saíram de Portugal durante a Guerra Colonial (1961-1974) e que se recusaram a combater por razões políticas, mas também por motivos de “moral e de ética”.
“A deserção é considerada uma traição à Pátria, independentemente da guerra. Nem que tenham desertado de uma guerra de genocídio, os desertores continuam a ser considerados traidores à Pátria. A cultura portuguesa ainda não percebeu bem o que é isto de desertar de um exército e de uma guerra injusta”, declarou à agência Lusa Fernando Cardoso, 68 anos, da Associação dos Exilados Políticos Portugueses (AEP61-74) e coordenador do livro.
O mesmo acrescenta que a sociedade portuguesa nunca debateu a questão dos desertores, facto que espera agora ver alterado. Para já, está em curso uma investigação académica que, entre outos contributos deverá apurar o número concreto de desertores e refratários (estima-se em mais de 110 mil).
“Como a Revolução do 25 de Abril foi feita por militares e os militares têm um conceito muito rígido em relação à deserção, o problema passou como se nunca tivesse existido. Está silenciado. Este livro pode ser uma ocasião para promover o assunto”, sublinha Fernando Cardoso, que desertou em 1970 para Paris, tendo regressado definitivamente a Portugal em 1976.
Cardoso considera que existe uma componente política na deserção potenciada pela consciencialização ideológica pela qual passaram muitos universitários ao longo das crises académicas durante os anos 60, entre outros fenómenos mundiais.
A Dinamarca foi um dos principais destinos dos desertores portugueses. Isto porque, ao contrário da França, verificava-se neste país “uma política pública” assumidamente contra a Guerra Colonial e que apoiava os movimentos de libertação africanos assim como os jovens portugueses que se recusaram a combater.
Aliás, a embaixada da Dinamarca em Lisboa apoiou a edição do livro que, depois de apresentações em algumas cidades portuguesas, é hoje apresentado na Fundação José Afonso em Lisboa e terá ainda Maio apresentações em França. Irene Pimentel, historiadora que assina o pósfácio, é a apresentadora da sessão de hoje.
Fonte: Inforpress/Lusa/
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