Família: Pilar fundamental no combate ao alcoolismo

PorSara Almeida,8 jan 2017 6:00

A família é quem mais sofre quando vê o ente querido afundar-se no álcool. E quem consegue deixar a bebida lamenta, em primeiro lugar, os maus momentos a que expôs a sua família e as situações emocionais e financeiras em que a colocou. Mais, a família é, além do próprio sujeito, fundamental para o sucesso no tratamento e recuperação de um alcoólico  … a Família, sempre a família. Elemento incontornável quando se fala de Alcoolismo.

Rui (de quem já falamos na I parte do Especial sobre Alcoolismo) viveu anos sob a dependência do álcool. O hábito de beber umas cervejas depressa passou a um consumo excessivo, particularmente de grogue, num ambiente propício a tal. O consumo foi-se intensificando e a certa altura era já uma doença, que interferiu com a sua profissão, a sua família, a sua dignidade.

Em 2004, foi internado na Trindade para desintoxicação. Ficou aí 29 dias. Saiu e ao fim de dois dias já estava a consumir novamente. Foi preciso uma experiência de quase morte, no ano seguinte, para que de facto deixasse de beber.

“Lembro-me bem do dia: 8 de Setembro de 2005”. Até hoje.

Já lá vão onze anos. Para trás ficaram diversos episódios que ainda o entristecem, mesmo que o seu lema seja “não fazer contas ao passado, ao tempo perdido.“ Olhar o presente e o futuro. Lembrar-se que venceu (e continua a conseguir vencer) a luta contra o alcoolismo. Fazer as pazes com o passado. “Costumo dizer, nasci de novo”. O passado já lá vai, mas deixou marcas.

 

Dignidade no fundo do copo

O fundo do copo não tem nada de glamouroso. A certa altura da sua vida como alcoólico, Rui – que sempre foi sociável e bem visto na sua comunidade – começou a ter atitudes que perturbavam vizinhos e familiares. E viveu situações humilhantes, onde a sua dignidade e imagem foram postas em cheque.

Recorda, por exemplo, ter acordado um dia na esquadra. Tinha arranjado uma briga num boteco. Os seus familiares foram à sua procura. Quando o agente o foi buscar ao calabouço, “abriu a porta e era um amigo meu”. Vergonha.

Na sua relação destrutiva não faltaram, pois, brigas, e também exageros, irresponsabilidade e até um acidente de carro. Mas o que mais marca a sua memória desse período negro tem mesmo a ver com as relações humanas, familiares e amigos.

Marcou-o imensamente a morte da avó, em 2000. Na tarde em que a senhora, que era como uma mãe para Rui, faleceu, este estava a beber algures. Não foi possível contactá-lo. Bebeu, e bebeu mais um pouco. Quando finalmente chegou a casa o seu estado de embriaguez era tal que não pôde participar no funeral. A própria esposa fez questão de o impedir, para não perturbar as exéquias e para não verem a sua figura.

E ainda hoje, onze anos depois do último copo, vai descobrindo coisas que o entristecem. Como aquilo que um amigo deixou escapar num momento em que elogiava a sua abstenção. “Por mais que eu tente esquecer não esqueço”, diz. Rui estava a chegar a um determinado local quando uma pessoa exortou esse amigo a que saíssem dali, para “fugir” dele. Era uma pessoa próxima de Rui, e até essas o evitavam.

É, de certa forma, paradoxal. “O consumo de álcool, principalmente pelos homens é muito tolerado [na sociedade], mas estando dependente do álcool, uma pessoa já não é bem aceite”, comenta Orlando Borja, presidente da Associação Cabo-verdiana de Prevenção do Alcoolismo (ACPA). E até “o alcoólico recuperado ou em recuperação é muito julgado”, assinala. Abandona o álcool mas de certa forma a sombra deste nunca mais o deixa.

 

Economia Familiar

As situações indignas em que, muitas vezes, se colocam os alcoólicos não são o único sinal de decadência. Há mais, muito mais quando falamos dos efeitos do álcool. Por exemplo, o comprometimento da economia familiar, aos mais diversos níveis: do próprio rendimento, ao modo como ele é aplicado.

No caso de Rui, este professor aferia um ordenado menor do que muitos dos seus colegas devido às poucas habilitações literárias. Tentou e desistiu várias vezes de tirar a licenciatura. Só depois de abstémio o conseguiu.

Quando recebia o já por si parco salário, a primeira coisa que fazia era pagar as dívidas do álcool. Ia de casa comercial em casa comercial a saldar o que consumira fiado durante o mês. Aliás, a venda “fiada” é apontada por muitos cabo-verdianos como um factor que não só delapida de imediato as finanças mensais de uma família como potencia o consumo excessivo de álcool.

Dinheiro para outros “extra”, não havia. O álcool era um poço sem fundo onde lançava o salário. Coisas que agora lhe dão prazer como comprar os jornais impressos ou manter a barba bem aparada eram algo em que “nem pensava”.

Do seu salário pouco chegava a casa, mas nem isso o demovia. E se hoje para si é impensável não ter um pé-de-meia para uma qualquer eventualidade, na altura era algo que nem sequer ponderava. Até a própria alimentação estava abaixo do álcool. Se havia comida saudável ou não para os próprios filhos, era secundário.

Hoje já não. “Agora preocupa-me abrir a geleira e não haver fruta para o meu filho pequeno”, exemplifica.

Na altura em que consumia, Rui tinha dois filhos – o seu terceiro nasceu após dois anos de abstinência.

Nenhum dos dois conseguiu seguir a formação superior na idade certa. “Agora é que estão a iniciar”. Tal deveu-se, segundo analisa, à falta de “suporte financeiro, por causa do consumo”, mas também ao facto de um alcoólico não conseguir assumir a responsabilidade de orientar os filhos. “Isso doí-me. Acho que falhei a formação dos meus filhos”, confessa Rui.

O caso de Rui, que foi alcoólico mostra como a doença destrói as bases de muitas famílias. Mas não é só quem tem a doença propriamente dita que direcciona mal as suas finanças. O consumo excessivo é uma constante na realidade do país. Aliás, os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) - divulgados em Julho, aquando da apresentação da campanha apadrinhada pela Presidência da República “Menos Álcool, mais vida” (que reúne cerca mais de 60 parceiros no combate ao consumo excessivo de álcool), mostram que os cabo-verdiano os gastam em bebidas alcoólicas mais do dobro do que em educação (e o mesmo que em saúde). A tendência está a melhorar, mas ainda é preocupante.

 

Deixar o álcool

Quando se é alcoólico perde-se muito. Inclusive a saúde. Nos últimos anos do seu período de consumo excessivo, Rui estava doente. Todas as semanas tinha dores de estômago, o coração falhava… “Tive ataques cardíacos”… “insónias, perturbações”…

Não foi fácil deixar o consumo. É uma luta pessoal. E depois é necessário ultrapassar a descrença. “As pessoas não acreditavam na minha abstinência”, conta.

Ele próprio, até à experiência de quase morte, nunca pôs “fé” em que pudesse deixar o consumo.

“Às vezes não consumia porque não tinha dinheiro, não consumia porque o corpo já não aguentava mais, estava doente…”

Na realidade, reconhece, não tentou parar. “Sabia que tinha um problema, mas não queria parar. Às tantas já não podia parar”. Até certo dia…

A 8 de Setembro de 2005 tomou o seu último copo. No dia seguinte levantou-se tarde. No dia 10 tentou consumir mas não conseguiu. “Vomitava tudo”. Passou o dia na cama. Estava mal. As memórias estão fuscas. “Lembro-me da presença da minha mãe”… No dia 11, o vómito persistia, no dia 12 foi para o Hospital e no dia 13, em “algum momento eu disse ‘N ka sta bebe más’”. Foi uma decisão quase mística. Foi preciso estar quase a morrer.

Mas a data que fica é a da última bebida, que é repetida várias vezes ao longo da conversa. 8 de Setembro. Não fosse esse o marco daquilo que considera a maior vitória da sua vida.

“Já tive dois carros, tenho casa própria, fiz dois cursos, tudo depois…  mas isso não são vitórias, vitória par mim é estar abstinente”, diz.

Rui deixou portanto o álcool por quase ter morrido devido ao seu consumo. De facto, os problemas de saúde são a principal razão para abandonar o consumo. Segundo dados do I Inquérito Nacional sobre a Prevalência de Consumo de Substâncias Psicoactivas na População Geral, realizado em 2012 pela Comissão de Coordenação do Combate à Droga (CCCD), 41,4% dos inquiridos apontam esta razão. (De seguida aparece “bebe apenas em festa” (8,1%) e “problemas familiares” (8,1%).)

Do seu contacto com pessoas com a doença do alcoolismo, também Orlando Borja da ACPA aponta que a maior parte deles abandona o álcool “quando acontece alguma coisa muito grave na saúde.”

Rui nem pensava em parar de consumir, mas, como referido, sabia que tinha um problema com a bebida. Contudo, muitas vezes o que acontece é que o alcoólico está em negação. “Pensa ‘eu paro quando quiser’, ‘eu sou comedido a beber’… enfim, a pessoa cria estratégias de autodefesa para não encarar o problema. Porque reconhecer que o tem é reconhecer que o álcool venceu”, explica Orlando Borja.

“Não é fácil para a pessoa chegar e dizer preciso de ajuda. Eu não posso, por mim” deixar o álcool.  Assim, por norma chegam sempre acompanhados por um familiar ou alguém próximo aos centros de apoio. “Porque precisam desse apoio. A pessoa não consegue chegar sozinha”, adverte o presidente da ACPA.

Não é fácil deixar o consumo. Tampouco o é manter-se abstémio. E é fundamental, nesta luta diária, ter pois um forte apoio da família.

 

“A minha esposa é o meu suporte”

Rui conseguiu. E deve essa recuperação a si mesmo, mas também à sua família e amigos. Graças aos pais, ainda vivos que “gritaram” com ele. Graças aos amigos. Graças, “em primeiro” lugar à esposa que o “suportou”.

O ambiente familiar, obviamente, é afectado quando um dos membros é alcoólico. A esposa de Rui chateava-se com ele, teve inclusive problemas de saúde devido ao stress e preocupação que as situações provocadas pelo consumo do marido provocam, chegou a sair algumas vezes de casa mas regressou sempre.

“Ela contou-me que as pessoas diziam “bo ta fika ku kel dimónio”, uma colega de trabalho dizia-lhe ‘mi N ka ta fikaba ku homi asi ”.

De facto é difícil viver com um alcoólico, reconhece Rui. “É insuportável”. Ele teve a sorte de ter uma mulher que o salvou. “Sem ela o destino era a morte. Ela é o meu suporte”.

Por isso é que Rui defende sempre, no grupo terapêutico, orientado pelo médico Manuel Faustino, que ainda hoje frequenta, que “ter uma boa companheira é indispensável” no processo de recuperação.

Mas isso nem sempre acontece. “As esposas que sacrificam a vida para suportar uma relação com uma pessoa assim, são poucas”.

Rui viu e continua a ver uma falta de apoio entre os que padecem de alcoolismo que o entristece. Recorda por exemplo uma vez que foi chamado para ajudar um outro colega alcoólico. Bateu à porta deste, atendeu a esposa que disse não querer saber onde estava o marido. “Encontrei-o deitado num carro abandonado, sucata. Estava quase a morrer”, relembra.

Vê também não raras vezes alcoólicos que durante o internamento na Trindade não podem contar com família. Esta não lhes leva o necessário para amenizar a estadia, “nem uma fruta, nem pasta de dentes, nada…” nem sequer os visita.

“A ausência familiar é terrível e é difícil cobrir este lado familiar que tem de existir”, diz.

Outros membros do grupo terapêutico e da ACPA têm a mesma percepção de Rui. E as mulheres são o elemento de destaque.

Aliás, conforme recorda, por seu lado, Orlando Borja, presidente da Associação, há cerca de um ano foi feita uma homenagem “às mães e esposas dos membros que já se recuperaram, ou estão nesse processo de recuperação”.

“Eles próprios quiseram fazer essa homenagem, dizendo que elas é que foram o grande suporte”, observa Borja, que integrou a ACPA após ter trabalhado sobre a problemática n’ A Ponte (ONG que também lida com o alcoolismo e outros problemas de saúde mental).

 

Todos Juntos

Se a família é consensualmente o pilar principal na luta contra o alcoolismo, a verdade é que ainda há um trabalho a fazer para que esta assuma em pleno o seu papel nesta problemática.

“Tem de haver a sensibilização familiar, a família tem de assumir a sua responsabilidade, assumir que algo correu mal”, defende Luís Xavier, membro fundador da ACPA e actual vice-presidente da Associação.

Porém, se por um lado, o alcoolismo, “é um problema de família”, por outro, sendo um “problema que está a mexer com todos”, com o próprio país, é não só um problema do governo, como de toda a sociedade cabo-verdiana”, aponta Xavier.

“O alcoolismo é um problema de urgência nacional”, pelo que é necessário a união de todos para o combater. O custo de não o fazermos, aponta, é ter “num futuro muito em breve, uma sociedade completamente destruturada por causa do consumo excessivo”, vaticina.

 

ACPA

A Associação Cabo-verdiana de Combate ao Alcoolismo (ACPA) é uma de várias ONGs que em Cabo Verde trabalha na prevenção e combate ao alcoolismo e consumo abusivo de álcool. Tem a particularidade de ter sido criada, em 2008, por pessoas que pertencem ao grupo terapêutico orientado por Manuel Faustino, e portanto que viveram na pele a dependência do álcool.

 

Álcool no seio familiar

Falando em família, origem e centro do indivíduo, há outros aspectos que devem ser destacados: o papel desta na prevenção do alcoolismo e do consumo excessivo.

É que, como destaca Orlando Borja, presidente da ACPA, há uma forte presença do álcool nas famílias. Ou seja, há uma relação de familiaridade entre crianças e jovens e esta substância.

“Começam cedo e isso deve-se, em grande parte, a esta condição de que na família o álcool é muito presente”, aponta.

Os dados de 2012, do I Inquérito da CCCD, corroboram a percepção. Segundo o estudo, cerca de 37% dos indivíduos tiveram o primeiro contacto com bebidas alcoólicas com idades situadas entre os 7 e 17 anos, sendo que o local preferido para o consumo é a “casa própria” (seguido de “casa de alguém e só depois “nas discotecas”).

Há também mitos e convicções associados ao álcool - “nomeadamente de que é um remédio” para determinados problemas de saúde – que é preciso desacreditar.

 

Basta de fóruns

Sensibilizar as famílias para o alcoolismo e consumo excessivo é fundamental. Mas não basta. “Muitos outros factores interferem nessa problemática”, refere Orlando Borja.

Assim, outras acções se tornam necessárias.

Por exemplo, agir sobre a publicidade e sua mensagem. “Temos uma publicidade muito agressiva, elaborada, as grandes marcas querem garantir os seus consumidores. Assim, nem que o adolescente, por exemplo, não queira beber o mecanismo da publicidade – junto com toda a vivencia social e cultura -  é tão forte, que não é fácil manter-se abstémio. Ir a um festival nocturno e não beber? É preciso ter uma boa capacidade de resistência a todos esses factores”, analisa o presidente da ACPA.

Palestras e afins sobre o consumo é algo que se terá de manter, mas reconhecendo as limitações destas intervenções.

Até porque, falar de alcoolismo em Cabo Verde não é algo para o qual a sociedade mostre muita abertura. “Se você anuncia uma palestra, não vai muita gente, há uma certa resistência e as pessoas consideram que já sabem tudo sobre o tema, que o evento não vai trazer nada de novo”.

Também Luís Xavier defende que combate ao alcoolismo tem agora de partir para “uma acção prática”.

“Já basta de fóruns. Temos de parar com isso. Temos boas leis”, agora é preciso é cumpri-las, aponta o vice-presidente da ACPA.

Entre as leis e medidas já preconizadas que urge levar a cabo Xavier enumera: “Tem de haver fiscalização na produção e venda, pôr cobro, por exemplo, à produção desenfreada e à venda a menores. Fiscalização espaços nocturnos, nomeadamente fazer cumprir os horários. Tolerância zero para a publicidade. Temos também de ver outras formas de fazer festivais...”

Na sua opinião o governo deve pois apostar nas medidas coercivas para pôr cobro a essas práticas, muitas das quais já contempladas na lei. Mais acção, menos conversa.

  

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 788 de 04 de Janeiro de 2016.

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Autoria:Sara Almeida,8 jan 2017 6:00

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  9 jan 2017 8:46

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