100 anos de revolução russa pelos olhos de Cabo Verde

PorExpresso das Ilhas,11 nov 2017 6:51

Há um século a Revolução Russa mudava o panorama político mundial. O fim da monarquia e, mais que isso, a implementação do comunismo teve ondas de choque que se repercutiram por todo o século XX. Entrevistados pelo Expresso das Ilhas, Manuel Faustino, Corsino Tolentino e Aquilino Varela dão um olhar cabo-verdiano à Revolução de Outubro.

 

No dia 7 de Novembro de 1917, há cem anos, não havia verdadeiras democracias no mundo. Nos países onde se faziam eleições para o poder legislativo só uma pequena parte do povo tinha direito a voto: na maior parte dos casos só os proprietários, os empregados, os mais velhos ou alfabetizados é que podiam votar. No dia 7 de Novembro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder na Rússia e herdaram o voto universal instituído pelo governo provisório da revolução de Fevereiro.

A Rússia bolchevique, como escreve Pedro Tadeu, juntou à noção de direito de voto universal muitos outros de sua lavra: habitação, assistência médica e educação gratuitas, legalizou-se o divórcio, terminou a distinção entre filhos legítimos e ilegítimos, promoveram-se direitos das crianças e dos idosos, proibiu-se o trabalho infantil, as jornadas de trabalho foram limitadas a oito horas diárias, houve férias pagas, segurança social, estabeleceu-se salário igual para trabalho igual entre homens e mulheres. Quase ninguém no mundo tinha leis destas.

Estas são algumas das razões por que a revolução russa representa um marco essencial na história da humanidade para Manuel Faustino, Chefe da Casa Civil do Presidente da República. “Por um lado, porque permitiu que se tivesse colocado na ordem do dia questões centrais que afectam a humanidade desde sempre, como a questão da justiça social, a questão da função do Estado, a forma como se admite ser possível organizar a sociedade. É a revolução em si, que trouxe à luz do dia essas preocupações. Foi possível lutar por determinados ideais, que num contexto diferente continuam vivos, como a utopia da igualdade de oportunidades, a utopia de um Estado que, de facto, possa defender os mais fracos e dar voz aos que têm mais dificuldades. Temos de aceitar que a questão da liberdade nunca foi tratada de forma adequada. Deu-se uma prioridade quase que exclusiva às questões sociais, mas diria que hoje as ideias fundamentais mantêm-se: ter sociedades mais justas, protecção dos mais desfavoráveis, naturalmente aliado à liberdade, que foi o que falhou”.

É verdade que o regime saído da revolução acabou com o analfabetismo na URSS, o que constitui um factor importante para o desenvolvimento de qualquer país. Mas esse passo foi igualmente fortemente travado e, muitas vezes até neutralizado, por uma feroz censura. Os soviéticos estavam proibidos de ler livros de milhares de autores nacionais e estrangeiros, de ver filmes de realizadores mundialmente reconhecidos, bem como de ouvir música de bandas ocidentais. E claro, ao longo do processo revolucionário, e à boa maneira russa, houve banhos de sangue que custaram a vida a milhões.

“Do meu ponto de vista”, refere Manuel Faustino ao Expresso das Ilhas, “não se pode ver apenas a desgraça que representou o estalinismo, isso foi mau, terrível, mas determinados valores e aquisições em matéria social, de direito e de protecção decorrem das bandeiras desfraldadas nessa ocasião. Há coisas trágicas, mas há conquistas absolutamente fundamentais que continuam a influenciar os dias de hoje”.

“Hoje considero-me herdeiro de grandes utopias dessa época, que é possível ter sociedades, não igualitárias, mas onde há igualdade de oportunidade e protecção dos mais vulneráveis, naturalmente, combinado com os direitos democráticos: liberdade de expressão, liberdade de organização política. Estudei muito a revolução russa, mas procurei e tenho procurado retirar bandeiras que continuam actuais porque temos gravíssimos problemas de ordem social no mundo inteiro, algumas até se agravaram e essas preocupações continuam actuais”, continua o Chefe da Casa Civil do Presidente da República.

Na União Soviética, como escreve o historiador russo Guennadi Bordiugov, cada décimo aniversário da revolução conjugava-se com uma grande meta: o plano quinquenal de 1927 que permitiu realizar a modernização da indústria, a purga massiva de 1937, e outros aniversários foram sendo assinalados com avanços na conquista do Cosmo, com projectos de reforma económica radical, ou a criação de um Estado popular. O 70º aniversário da revolução fica marcado pela Perestroika.

“Tenho tentado acompanhar esses processos de uma perspectiva crítica, não de uma perspectiva religiosa, que as coisas têm de ser desta ou daquela forma”, conclui Manuel Faustino. “Sinto-me influenciado pela revolução russa, pelas suas bandeiras e pelas suas utopias. Naturalmente que não concordo com a pouca valorização da liberdade, abomino os desvios que levaram a situações trágicas, mas as bandeiras da igualdade, da fraternidade e da solidariedade internacional, naturalmente comungo desses princípios”.

“O comunismo era uma ideia boa, bonita, no início. E acho que não está morto. O comunismo vai voltar, mais à frente no tempo...”, disse Svetlana Alexievich, a prémio Nobel da Literatura que escreveu O Fim do Homem Soviético, e uma das maiores denunciantes da degradação do comunismo real.


Corsino Tolentino:“Num plano especulativo o PAIGC não existiria sem a União Soviética”


Que importância teve a Revolução de Outubro na criação de uma Nova Ordem Mundial?

Pois, falava-se e ainda fala-se em Nova Ordem Mundial, com mais igualdade, liberdade e justiça para todos...

 

O socialismo foi o grande suporte dos movimentos independentistas em África e um pouco por todo o mundo. Seriam esses movimentos possíveis sem esse suporte? Que importância teve a União Soviética no desenvolvimento do independentismo africano?

Pois foi. Tudo começou com a revolução de Outubro (que veio a ser Novembro por questão de calendário). Escrever a História com se é sempre complicado. Porém olhando para trás, somos levados a aceitar que se não fosse a revolução de Outubro, algum fenómeno parecido tinha de acontecer e a Ordem mudaria. Tomando os factos como aconteceram, há uma relação directa entre a existência dos países socialistas, a União Soviética, principalmente, e os Movimentos Africanos de Libertação Nacional. E é preciso analisar as coisas no contexto. O Mundo não era igual ao de hoje. Havia a agressiva NATO e Portugal era membro. Praticamente não havia alternativa para quem buscava a independência nacional. 

 

Falando especificamente de Cabo Verde, e num plano meramente especulativo, seria possível a existência do PAIGC sem o apoio da União Soviética?

Não, num plano meramente especulativo, porque não tinha de ser assim, mas foi, o PAIGC não existiria sem a União Soviética.  Não convém esquecer que a utopia de um mundo sem exploradores nem explorados (era a linguagem daqueles belos tempos) tomou conta do Mundo, não só da Rússia.

 

O que falhou na Revolução Russa?

O que falhou na Revolução Russa foi sobretudo a falta de liberdade. É o mistério que persegue a Humanidade sempre que uns iluminados chegam ao poder. Em vez de liderarem, mandam. A União Soviética falhou, o Muro de Berlim caiu para ambos os lados e há muitos sistemas a falharem. Não chegámos à Democracia perfeita e o pior pode acontecer nos países pequenos, médios ou grandes.

 

Aquilino Varela: O ideário do socialismo mantém-se actual


Qual foi o impacto da Revolução Russa em Cabo Verde?

Curiosamente desencadeada em nome de mais Pão, Terra e Paz a eclosão da Revolução Russa, em 1917, contrariamente do que se pensa, não obteve eco sinalizável junto da intelligentsia de Cabo Verde de então.  As influências, traduzidas em ideário, arquétipos e apoios concretos  só mais tarde se fizeram sentir. Não obstante, nas escritas dos mais ilustres  protonacionalistas de então, como Eugénio Tavares (1890 – 1936), José Lopes (1872 – 1962) e Pedro Cardoso  (1883 – 1942), apercebe-se nas suas exigências a solicitação de mais irmandade no tratamento do colono, mais pão e mais justiça social no acesso a terra por parte dos nacionais das ilhas, o certo é que estas reivindicações nunca afiguraram-se de cunho revolucionário, susceptível de ser evidenciado como uma influência da conjuntura mundial em que a Russia pontificava-se. Quando se alça como empreitada seguir as pizadas para identificar os possíveis  contágios do cunho revolucionáerio nos intelectuais cabo-verdianos da época, a dada altura, aparece pelas penas de Pedro Cardoso o poema Unidos Avante que, distraidamente, podemos concluir que se tratava de uma recpção dos ecos da revolução. Contudo, só anacronicamente podemos ser induzidos a assim pensar. Pois, este poema, pelos dados da investigação coligidos, foi escrito em 1913, e os seus aportes conteudais remetem-nos para uma dedicação, sem dúvida, aos operários mindelenses, mas inspiradas nas proezas dos escritos de Karl Marx. Portanto, a luta de ideias que desencadeou a Revolução Russa, e outras que se seguiram em nome das supramencionadas exigências, para se requer maior representatividade nas assembleias locais russas e mais responsabilização da classe política não teve publicamente recepções intelectual e social. As narrativas dos intelectuais cabo-verdianos de então foram urdidas em torno de dramas  nacionalmente vividos como a seca, a emigração, a fome, etc.

 

De que forma a Revolução Russa  influenciou a luta anti-colonial?

A Revolução Russa de 1917 foi o maior hino de fraternidade jamais alcançado no mundo. Nem a Revolução Francesa de 1789, com o seu ideário de  Liberté, Egalité, Fraternité, teve aplausos e alcances comparados, negativa ou positivamente ajuizados. Os lideres da revolução, sobretudo o seu maior obreiro, Vladimir Ilyitch Ulianov mais conhecido por Lenin, cedo manifestou-se a favor de internacionalização da revolução e um solidário apoio aos movimentos antifascistas e de luta de libertação. Por esta e por outras razões, países das ex-colónias portuguesas, e não só, não podem simplesmente compartilhar a ideia póstuma  de que a Revolução Russa, pelos efeitos perversos que gerou através da sua implementação contextual, deve ser lançada no caixote de lixo ou nas pratileiras dos museus da história. Há lições e ensinamentos de uma grande atualidade. O ideário do socialismo ontem implantado na URSS mantém-se actual hoje. Embora, hoje, reconheça-se também, há um mundo que se demonstra pouco disponível para celebrar o centenário da revolução russa.

 

Qual o impacto da ideia do centralismo democrático em Cabo Verde, particularmente durante a primeira república.

Hoje, quando somos instados a pronunciar sobre o centralismo democrático instaurado durante a Primeira República em Cabo Verde (1975 a 1990) somos futilmente a valiá-lo holisticamente como sendo nefasto. Porém, esquecemos que o progresso, o desenvolvimento económico e político são sempre produtos de uma construção social e que o seu caminho para os conseguir não é nem linear, nem pacífico. É um processo de tentativa de erro em que os agentes carecem da capacidade de prever com razoável precisão as consequências de suas ações. A elite política cabo-verdiana da Primeira República, à semelhança da sua congênere de uma centena de nações do mundo, sentiu-se atraída pelo socialismo “dito científico” em construção na ex URSS. Se do ponto de vista económico é bastante controvérsia a avaliação que se possa fazer sobre o centralismo democrático em Cabo Verde, do ponto de vista político é indiscutível o perdurar da sua censura. A atuação do Estado no sentido de  sacrificar os próprios cidadãos sobre o altar da sua vontade de potência, sem o sustento concreto da vontade moral dos individuos, continua ser ferida dolorida que é conservada no tecido social cabo-verdiano, sobretudo por parte daqueles que infelizmente experimentaram, em pessoa, a derriva implementada.

 

Qual foi impacto da Perestroika, também chamada a segunda revolução russa, na queda do regime de partido único?

Do Czarismo ao Comunismo, e deste para a uma Democracia centralizada, a Russia, pode-se dizer, é o território do mundo que mais reestruturação conheceu. A Perestroika, conhecida por reestruturação política, implementada por Gorbachev, então Secretário Geral do Partido Comunista entre 1985 a 1991 é tida como sendo o golpe de miséricórdia que levou ao fim da falida e convulsiva URSS. Enquanto vigorava, no seu explendor, com fluxos e refluxos de recursos estratégicos, naturais e financeiros a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas constitui-se em uma poderosa âncora para os vários Estados Socialistas, ou da sua inspiração, sustentados pelo Partido-Único em África, na América Latina e na Ásia. Com o seu desmoronamento estes Estados não só perderam o ideário-farol bem como deixaram de poder contar com os apoios económicos usufruídos durante  o processo da luta de libertação e construção nacional. Nestes termos, a par de outros desmantelamentos nacionais a que foram sujeitos os Estados sustentados por Partido-Único, os anais da história associam o desaparecimento simbólico do chamado Partido-Único com o fenómeno de Perestroika, sendo certo que para o efeito concatenou-se também o Glasnost. 

 

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 832 de 08 de Novembro de 2017. 

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Autoria:Expresso das Ilhas,11 nov 2017 6:51

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  10 nov 2017 14:23

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