Humor.CV ou rir online

PorChissana Magalhães,27 jan 2018 6:54

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​A internet tornou-se, nos dias de hoje, ponto de passagem e de paragem quotidiana para os milhares de cabo-verdianos com acesso a ela. E, para além de consumir, os internautas também criam conteúdo. Um dos tipos de conteúdo mais populares na rede são os vídeos de humor e os memes. O fenómeno “Bloku” serviu-nos de pretexto para buscarmos saber quem faz rir, hoje, os cabo-verdianos.

O humor é um fenómeno social e as manifestações de humor são formas de comunicar e de socialização. Contudo, não temos pretensões de aqui esmiuçar as diversas dimensões sociais do humor.

Considerado assunto fútil e coisa de tolos por muitos, o humor ganhou estatuto entre o século XX e o actual, sendo-lhe dedicado até teses académicas (lá fora). Em muitos países tornou-se hoje uma das categorias mais lucrativas da indústria do entretenimento.

Disse Arthur Schopenhauer que “o bom humor é a única qualidade divina do homem”. Já Chaplin lembrou acertadamente que “ o humor alivia-nos das vicissitudes da vida”. Os cabo-verdianos parecem então ter uma centelha de divino pois, não obstante as vicissitudes da vida a que constantemente estão sujeitos, estão sempre prontos a rir.

Já foi com Nhu Puxim, com Mocho [Ka ta Kumi Banana], com Juventude em Marcha, mais recentemente com Tikai ou com os muitos que se têm dedicado à stand up comedy em shows para plateias sequiosas de uma boa gargalhada.

Agora, com o crescimento do acesso à internet, proliferam nas redes sociais os canais e páginas que se dedicam ao humor, feito por cabo-verdianos. Um dos primeiros a investir na criação de um canal no YouTube para partilhar os vídeos humorísticos que criava foi Carlos Andrade, que também usa o pseudónimo Artolas.

Em 2012, era ainda estudante universitário em Lisboa, e já se dedicava a publicar vídeos em que o material para paródia era sobretudo as situações do quotidiano de um cabo-verdiano emigrado, que recriava em monólogos ou diálogos simulados. O seu humor terá caído no gosto de alguns já que o canal conta mais de 14 mil inscritos e há lá vídeos com mais de 500 mil visualizações.

Outros cujos vídeos fazem rir os internautas cabo-verdianos e são profusamente partilhados são os Bololo, um grupo ao estilo dos brasileiros “Porta dos Fundos” e que inovou (por estas bandas) ao apostar em vídeos a parodiar hits musicais. O vídeo “Bacon” (paródia do sucesso “Beijam” de Djodje) publicado em Dezembro passado já beira as 30 mil visualizações no Youtube. No Facebook são quase 100 mil.

Alcibíades Horta, o protagonista de grande parte dos vídeos Bololo, também tem se dedicado à stand up comedy, área da comédia que desde 2014 tem ganhado expressão no país e onde Enrique Alhinho (na Praia) e Ricardo Fidalga (em São Vicente) têm sobressaído.

Foi com uma paródia musical que Micael Lima, de 21 anos, finalmente conseguiu que um dos seus vídeos se tornasse viral. Os amigos sempre o acharam engraçado por isso, em 2016, inspirado em Carlos Andrade e Benji (comediante de São Vicente que é também um caso de sucesso com as suas dublagens a cenas de filmes e animações) criou o seu próprio canal no youtube (MicaelRs). Mas foi em 2017 que Micael se tornou mais activo e, depois de alguns vídeos bem recebidos, há algumas semanas ele e os amigos tornaram-se celebridades na rede.

O grupo de rapazes (agora denominados Bloku Boys) da mesma vizinhança na cidade da Praia fez um vídeo a satirizar os vídeos de rap de teor agressivo. Em poucos dias o hilariante vídeo “Bloku”, assim se chama a música, viralizou-se (que em linguagem de redes sociais significa que espalhou-se como um vírus, através das partilhas e referências) e passagens da música estavam na boca de todos. Qualquer post sobre o assunto rendia dezenas de likes, smileys (riso), LOLs (laughing out loud) e comentários. Memes foram criados e o vídeo chegou às 136.000 visualizações no youtube, fora outros milhares no Facebook.

Micael Lima e os amigos têm dado entrevistas a rádios e TVs e já têm uma actuação pública agendada para os próximos tempos. Mas segundo o próprio conta, ainda estão a ver se apostam na criação de uma linha de t-shirts, como lhes foi sugerido. Fosse no Brasil e talvez já estivessem ricos.

Sim, na terra de Jô Soares e dos Porta dos Fundo, um jovem de menos de 20 anos, oriundo de uma família humilde do nordeste que mal tinha como comprar um computador, criou um dia um canal de humor no YouTube. Depois de várias tentativas, um dos vídeos “viralizou”. Hoje, com 23 anos, perto de 26.500 milhões de inscritos, Windhersson Nunes (o nome é real) é milionário. O número de inscritos no canal e os milhões de visualizações trouxeram anunciantes (sim, em outras paragens empresas pagam e bem para ter seus produtos ou serviços anunciados num canal com audiência expressiva) e convites para shows de stand up por todo o imenso Brasil. Windhersson comprou uma casa para sí, outra para os pais, entre outros investimentos.

Coisas a que ainda os comediantes cabo-verdianos não podem almejar. Aliás, lucrar com a sua comédia é algo que parece nem lhes passar pela cabeça. Inclusive notamos uma salutar camaradagem entre eles, com quase todos a referenciarem-se uns aos outros. Por exemplo, a repercussão de “Bloku” foi tal que nas semanas que se seguiram vários dos humoristas fizeram vídeos, memes ou charges com referências ao vídeo de Micael e os Bloku Boys.


Humor Inteligente

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Também com a internet como território de partilha, Alan Alan (nome de “guerra”) é de outra escola. Para já, este humorista de São Vicente, aposta no grafismo; na criação de cartazes a partir da montagem de fotografias ou desenhos feitos à mão e em textos carregados de ironia e tiradas humorísticas.

Começou nos tempos áureos da blogosfera, com o «Jornal da Hiena» que vai mantendo mais ou menos activo. Não tem página nas outras redes sociais mas, no seu perfil no Facebook os posts são públicos. Os políticos são o principal alvo das suas sátiras corrosivas, onde o humor e a ironia se misturam a alguma crítica social.

“Em Cabo Verde, como em boa parte do mundo, [a política] é quase sacralizada, [o humor] é uma forma de banalizar a política, de a tornar mais «acessível», e de levar as pessoas a pensar ou pelo menos a vê-la dos mais diversos ângulos, e embora tenhamos alguns exemplos de grande expressão, pelo menos para mim, o «Grau de Scada de Nhô Djunga» é uma obra prima, pra mim a referência –maior de Humor-politico ou humor-cidadão.

E ressalvando que a escolha da política cabo-verdiana como material não foi programada e sim algo que foi acontecendo, Alan Alan cita outras referências quando aponta o seu gosto por um humor “subversivo, de contra-pé (é como em contra-mão mas, com os pés), resultado de leituras de magazines de humor como o MAD [ n.r: revista de humor americana criada nos anos 50 ] ou Chiclete com Banana [nr: revista de humor brasileira dos anos 80 ], e muita banda desenhada humorística dos anos 70, como Freak Brothers de Shelton, e Crumb, que serviram de molde ao que faço (sem nenhuma pretensão), os ingleses dos Monty Phyton e parte dessa nova pop-cultura trazida pela internet”.

O humorista é dos que acredita que os cabo-verdianos têm o humor à flor da pele e diz mesmo que o povo cabo-verdiano precisa como do oxigénio, de rir pra viver.

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“Temos humor para dar e até exportar e ganhar uns trocos (riso). O mais fantástico é que não temos uma «escola de humor», somos assim (no meu caso). Temos muitos comediantes, actores, one-man etc. Já tivemos na rádio programas humorísticos de grande escuta...Parto sempre de um princípio, claro. Tento não ser vulgar ou ofender as pessoas, mesmo que isso às vezes possa acontecer. Mas, o meu objectivo é fazer rir e «tmâ consciência»...

Nos cartazes e textos que partilha salta à vista o seu olhar atento à realidade nacional algo que ele diz ser “vital”.

“Se aliarmos a isso o bem comum, com consciência, e uma certa liberdade política (não tenho carta de partidos), se isso serve para chamar atenção para um ou outro comportamento ou acção, já fico satisfeito”, afirma, acrescentando de seguida que o seu não deixa de ser “aquilo que chamo de humor doméstico, para amigos e desconhecidos”.

“Muitas vezes são estados de alma e não penso que isso possa ser importante mas, é o que me mantém activo ou num processo criativo, pois já tenho idade para ter juízo, mas confesso que faz parte da mim e que sou meu primeiro “cliente”, para grande tristeza das minhas professoras de português”, brinca.

Quanto a comparações com o que se faz lá fora, Alan Alan defende que os humoristas e comediantes cabo-verdianos não são tão diferentes de outros, sendo sim que os canais e os meios postos à disposição para criação e divulgação é que escasseiam.

“Imagino que dentro de 5/10 anos as coisas sejam diferentes; a nova geração nasce quase com os códigos todos”, conclui.

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Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 843 de 24 de Janeiro de 2017.

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Autoria:Chissana Magalhães,27 jan 2018 6:54

Editado porPaulo Querido  em  1 fev 2018 16:18

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