Boa Vista: servir no luxo, viver no lixo

PorExpresso das Ilhas, Lusa,30 mar 2018 7:40

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Bairro da Barraca (Boa Esperança)
Bairro da Barraca (Boa Esperança)(Inforpress)

​O bairro da Boa Esperança é a "central de mão de obra" da ilha da Boa Vista, trabalhadores que passam longas jornadas mergulhados no "luxo dos resorts" para regressarem depois às suas barracas sem água, luz ou esgotos.

O bairro, que já foi da Barraca e a que agora quase todos preferem chamar de Boa Esperança, a escassos metros do centro de Sal Rei, principal localidade da Boa Vista, abriga entre nove e 10 mil pessoas, boa parte trabalhadores que fazem funcionar a máquina turística da ilha.

Às camareiras, cozinheiras, motoristas e guias juntam-se rabidantes, trabalhadores da construção civil, desempregados, jovens e crianças, um mundo de gente vinda das outras ilhas de Cabo Verde, sobretudo das zonas mais pobres do interior de Santiago, e da costa ocidental africana. Gente que há mais de 20 anos vem chegando, todos os dias, ao ritmo da demanda de mão de obra e da cadência, nem sempre regular, dos barcos que chegam à ilha.

Pedro Alexandrino, "Frank", 30 anos, natural da Calheta de São Miguel, interior de Santiago, motorista de turismo, é dos mais recentes habitantes da Boa Esperança, onde vive há quatro anos. Ocupa com a namorada, Carla Mendes, "Carlene", 21 anos, ajudante de cozinha num dos 'resorts' da ilha, uma barraca na zona que será demolida quando avançar o plano de reestruturação do bairro.

São escassos metros de habitação, numa mistura de blocos, cimento e chapa, a meio de uma das labirínticas ruas do bairro, onde à falta de água e saneamento se junta um emaranhado de fios eléctricos descarnados ao alcance das muitas crianças que por ali brincam.

Para "Frank", as instalações elétricas são um desastre à espera de acontecer e o maior receio dos habitantes do bairro, que têm ainda bem presente o grande incêndio de 2002.

"Na época das chuvas é muito perigoso [...] é uma ameaça para a sociedade. Morar aqui é um pesadelo. Ficamos todos dentro de água, na rua ou dentro de casa", disse à agência Lusa.

Com a namorada grávida do primeiro filho, "Frank" sonha com o dia em que poderá viver com melhores condições, mas os salários não chegam para alugar uma casa na vila, onde os preços das habitações são dos mais caros do país. Afastado do trabalho por motivos de saúde, quando trabalha "Frank" ganha cerca de 30 contos.

"Dá para desenrascar, mas o vencimento é muito pouco e não dá para pagar uma casa na vila, que custa no mínimo 25 contos. Por isso, tenho de morar neste bairro", adianta.

"Carlene", que chegou de Santa Cruz, interior da ilha de Santiago, há pouco mais de um ano, conseguiu trabalho como ajudante de cozinha num dos "resorts" da ilha. Ganha perto de 25 mil escudos por um turno de oito horas, mas a distância do local de trabalho obriga-a a sair de casa com uma hora e meia de antecedência e a regressar mais de duas horas depois do fim do turno.

"A vida é muito complicada" assegura "Carlene", que regressa a casa sempre depois da meia noite, altura em que o gerador já deixou de funcionar e o bairro fica mergulhado em escuridão.

Os jovens garantem que têm apenas o suficiente para viver e, com um bebé a caminho, a situação deverá complicar-se. Por isso, o casal levanta os olhos para os prédios coloridos do programa "Casa para Todos", paredes meias com o bairro, e onde Governo e autarquia prevêem realojar parte dos habitantes.

"Frank" inscreveu-se no cadastro social para o realojamento, mas a lentidão do processo deixa-o desesperado. "Esperamos todos os dias. É algo que desejamos mesmo", diz, por seu lado, "Carlene".

"Toda a gente está ansiosa para que chegue esse dia. Infelizmente não vai dar para toda a gente que mora aqui, mas temos de ver onde está a nossa sorte", acrescenta.

Do outro lado do bairro, a parte que vai ser reabilitada, onde não há barracas, mas casas clandestinas, vive Isabel Mendes Sanches, "Já", 65 anos, natural de Pedra Badejo (Santa Cruz), interior da ilha de Santiago. Peixeira de profissão, chegou há 22 anos nas primeiras levas de trabalhadores, depois de se ter cansado de esperar que chovesse em Santa Cruz.

"Vim para a Boavista porque não chovia em Santa Cruz, não havia trabalho, tinha filhos para sustentar", contou à agência Lusa, em frente à casa de dois andares, quase pronta, que conseguiu construir no bairro. Hoje com os 10 filhos espalhados por vários cantos de Cabo Verde e alguns no estrangeiro, "Já" fica sobretudo por casa, enquanto o marido procura alguns "biscates" como pedreiro.

"Tenho 22 anos na Boavista. Não me lembro quanto tempo na Barraca, mas já estou aqui há muito tempo. Fui um dos primeiros moradores do bairro", disse.

Lembra-se da chegada dos "amigos" da Guiné-Bissau, do incêndio de 2002, que matou dois jovens e deixou "muita gente sem nada", e dos tempos em que a Barraca "era um bom bairro".

"Começou a aparecer violência, roubos, guerras com facas, pistolas, pedras. É algo feio", problemas agravados pela falta de iluminação 24 horas por dia. A estes juntam-se a falta de arruamentos, de redes de água, esgotos e de tratamento de lixo, lacunas que quando chove tornam a circulação no bairro quase impossível.

Problemas que "Já" conhece bem, mas que não lhe tiram a esperança num futuro melhor para o bairro.

Governo promete intervir

Recentemente, o Governo cabo-verdiano aprovou em Conselho de Ministros uma verba de 352 mil milhões de escudos para avançar com a infra-estruturação de uma zona ao lado do bairro que será posteriormente loteada para permitir o realojamento de parte dos habitantes. Parte da verba será igualmente usada na requalificação da zona do bairro que não será demolida.

Um outro conjunto de habitantes será realojado no empreendimento “Casa para Todos”, do qual 300 habitações foram já transferidas pelo Governo para a câmara da Boa Vista, mas que, segundo disse à agência Lusa o seu presidente, José Luís Santos, não será suficiente. Por isso, o autarca disse ter já proposto ao Governo receber todas as 784 habitações do empreendimento.

As autoridades fizeram um levantamento para saber quantas famílias habitam as barracas do bairro da Boa Esperança, mas José Luís Santos escusa-se a avançar os dados dos realojamentos necessários, adiantando que o número está sempre a crescer.

“É um número considerável. A Boa Vista tem um défice habitacional de mais de dois mil fogos”, disse.

Os concursos para a expansão e requalificação do bairro, também conhecido como Chã de Salinas, foram já concluídos, mas fonte do ministério das Infraestruturas, Ordenamento do Território e Habitação disse à agência Lusa que foram contestados junto da Autoridade Reguladora das Aquisições Públicas (ARAP), decorrendo o período de esclarecimentos. O governo assegura, no entanto, que as obras arrancarão em breve.

Além das obras no bairro, estão igualmente projectadas para a ilha obras de saneamento e de requalificação de algumas estradas.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Lusa,30 mar 2018 7:40

Editado porNuno Andrade Ferreira  em  22 set 2018 3:22

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