Cabo Verde pode “estar em posição de vanguarda”

PorAndré Amaral,23 fev 2019 11:26

​O tema das energias renováveis e da sua exploração em Cabo Verde ganhou, recentemente, um novo impulso com a chegada dos primeiros carros eléctricos. Mas já desde as décadas de 70 e 80 que Cabo Verde procura optimizar a produção de electricidade recorrendo a outros meios que não os combustíveis fósseis.

O futuro, garante o governo, passa pela mobilidade eléctrica. Os benefícios serão muitos, reforça o executivo que garante que a diminuição do consumo de combustíveis como a gasolina e o gasóleo será superior ao aumento do consumo de fuel para a produção de energia eléctrica para carregar as baterias destes novos automóveis.

“É como instalarmos um sistema de energias renováveis em casa: é caro ao início mas depois vai debitar naquilo que poupamos em termos de consumo da rede. Na mobilidade ele [o carro] também é caro à partida mas depois o que vai acontecendo é que se poupa no combustível que não estamos a colocar no automóvel”, diz José Pedro Duarte Fonseca, professor da UniCV na área das energias renováveis.

José Pedro Duarte Fonseca, em entrevista à Rádio Morabeza, defende que a mobilidade eléctrica e a aposta nas energias renováveis em Cabo Verde surge no seguimento de uma tendência mundial. “O que se fala agora surge na sequência do que vem sendo desenvolvido ao longo dos últimos anos. Isto tudo é impulsionado pelo contexto internacional. Pela problemática global do clima, da ameaça de escassez de combustíveis fósseis e a sua necessidade para outras coisas que não a queima. Isso tem pressionado os países em geral para se virarem para as energias renováveis e para o combate às alterações climáticas”.

Quanto a Cabo Verde, entende este professor universitário, é um facto que “se tem tentado manter na crista da onda e tendo esse potencial de bons recursos, nomeadamente vento, sol e os oceanos, nós podemos estar sempre nessa posição de vanguarda”.

Energias renováveis em Cabo Verde

As primeiras aplicações de energias renováveis em Cabo Verde aconteceram logo após a independência.

José Pedro Duarte Fonseca recorda: “A partir de 75 começou-se a desenvolver, com a criação do Instituto Nacional de Investigação Tecnológica, na Praia, os primeiros sistemas. O ministério do Desenvolvimento Rural também o fazia e começou-se a implementar, a tomar contacto e a escolher os parceiros - e isto foi um bom caminho que Cabo Verde escolheu e que ainda hoje mantém com os dinamarqueses para a energia do vento”.

A implementação das energias renováveis conheceu depois anos de algum ‘arrefecimento’ em Cabo Verde.

Só mais tarde é que se voltou a apostar no sol e no vento como alternativas para a produção de electricidade. “É certo que houve um impulso grande quando se começou a falar do Cabo Verde 100% renovável, isso é também o desafio que tem ocorrido em ilhas de vários países como é o caso da Grécia, com a ilha de Creta, de Portugal com a ilha do Corvo e outros [países] em que se tem tentado fazer uma autonomia total com as energias renováveis”, explica.

No entanto, “começamos com algum exagero”, diz José Pedro Duarte Fonseca. “Começou-se com o patrocínio da Alemanha, que tem grandes tecnologias nos painéis solares e das eólicas. A Alemanha interessou-se por Cabo Verde como um protótipo de estudo para análise dessa viabilidade de 100% de energias renováveis. Fizeram-se anúncios muito grandes com ambição demasiada para os 100% até 2020 e nós temos de cair na realidade e perceber que as coisas não podiam ir nesse passo. Esse grande projecto que a Alemanha estava a avançar para Cabo Verde durante o governo anterior teria um custo elevadíssimo. Empenhávamo-nos e às próximas gerações para conseguir ter isso. Envolvia o hidrogénio e outras tecnologias que de facto existem mas que nos escapam um bocadinho. Temos ido paulatinamente”.

Financeiramente compensador

Rui Amante da Rosa é um dos mais antigos empresários a trabalhar na área das energias renováveis em Cabo Verde e para si as vantagens de se apostar nestes sistemas de produção de energia são muitas. Começando pelas financeiras: “O valor compensa, porque quando se faz o investimento inicial, ele é pesado mas ao fim de 4 ou 5 anos o investimento já está pago e a exploração é por mais 20 anos porque o tempo de vida é de mais ou menos 25 anos para estes equipamentos. E quando se produz e injecta imediatamente na rede, sem bateria, os ganhos são muito maiores, porque os custos do KW/h são muito inferiores do que quando se faz a reserva de energia”.

Para este empresário a questão do preço dos equipamentos que fornecem electricidade a partir de energias renováveis já não pode ser considerado um entrave. “O preço não é elevado, já é competitivo em relação ao fóssil. A única coisa é que se investe logo no início. Quando se compra um gerador ele vai sendo alimentado ao longo dos seus anos de vida e aqui, com os painéis solares, já não há isso, faz-se o investimento com o custo permanente e assim os custos já são muito menores. Nós estamos a trabalhar nisto desde 1980. Desde essa altura que estamos a ensaiar isto das energias renováveis com várias experiências e com vários resultados positivos. Agora, na altura, os custos eram realmente elevados porque isto tornou-se um negócio muito bom para os investidores e os produtores. Agora não, agora é que se banalizou totalmente. O preço da tecnologia caiu substancialmente”.

Uma opinião que é partilhada por José Pedro Duarte Fonseca. “O problema não se põe se a tecnologia já esta devidamente amadurecida. Se há 10 anos um dos óbices seria a questão da autonomia, hoje já não se coloca. A tecnologia tem avançado imenso, os custos de desenvolvimento e produção têm diminuído muito, nomeadamente com a presença da China na área dos painéis fotovoltaicos. Os avanços são imensos e isso permite já ter essa capacidade de muita gente ter acesso a painéis fotovoltaicos na medida em que eles já estão a preços satisfatórios para se poder instalar o sistema e em 5 ou 6 anos ter o retorno do investimento e o sistema estar a dar lucro”.

Mobilidade eléctrica

Como já foi referido, a aposta nas energias renováveis sofreu um novo impulso depois de o governo anunciar a vontade de Cabo Verde atingir os 100% de carros eléctricos até 2050.

O anúncio foi feito pelo ministro da Indústria, Comércio e Energia no final de Janeiro.

Alexandre Monteiro explica que o governo está a incentivar a mobilidade eléctrica no país, daí a alteração na lei, para que a importação de veículos eléctricos seja livre de direitos aduaneiros.

“Constituindo assim um incentivo fiscal de carácter aduaneiro para introdução dos veículos no mercado cabo-verdiano. Queremos com o programa aumentar a taxa de penetração de energias renováveis, e a interligação da energia com transporte, através da instalação de postos de carregamentos com sistema solar fotovoltaico. A meta é atingir 100% de veículos eléctricos em Cabo Verde, em 2050”.

Para a encarregada de negócios da Embaixada do Luxemburgo em Cabo Verde, Angèle da Cruz, o PASER (Programa de Apoio ao Sector de Energias Renováveis) que é financiado por aquele país europeu prevê, para 2019, o apoio para a operacionalização do mercado da micro-produção.

“Há toda uma regulamentação que está feita. Felicitamos o governo de Cabo Verde, porque no Orçamento de Estado de 2019 foi prevista uma ajuda de bonificação de taxa de juro para as famílias que gostariam de adquirir esse equipamento fotovoltaico. Depois, apoio também a vários concursos públicos para licenciamento de capacidade adicional de energias renováveis”, explica.

“Em Cabo Verde temos um sistema aduaneiro complicado”, aponta José Pedro Duarte Fonseca. “Apesar de haver isenções, os custos desses automóveis eléctricos estão ainda muito acima dos outros. O capital, à cabeça, para a aquisição da máquina é exagerado e vai impedir, a não ser que haja mecanismos de subsídio vantajosos, para o contribuinte comum – que às vezes até tem dificuldade sequer de ter um carro normal - de se lançar nessa aventura”.

Para Rui Amante da Rosa a mobilidade eléctrica não devia ser uma prioridade para o actual governo. “Não compensa, ainda não compensa. O custo da energia está caro para se estar a pensar nisso. Acho muito cedo. O governo devia estar a pensar noutras coisas, nem devia entrar nisto, devia ter deixado para os privados fazerem”.


30% de energias renováveis em Cabo Verde até 2025

O Governo quer que, até 2025, 30% da energia eléctrica seja produzida através do recurso a energias renováveis. Objectivo está de acordo “com os compromissos obrigatórios já assumidos por Cabo Verde no COP21”, disse o porta-voz do Conselho de Ministros.

Este “plano estabelece os objectivos e as metas nomeadamente atingir 30% de produção de energia eléctrica a partir de fontes de energias renováveis até 2025 e está de acordo com os compromissos obrigatórios já assumidos por Cabo Verde na conferência de Paris COP21”. Outro dos objectivos é superar os 50% de produção de energia eléctrica através de energias renováveis até 2030.

O governo anunciou ainda que com a aprovação desta resolução o governo reavaliou “a estratégia anterior, de ter 100% de energia até 2021, dado que tecnicamente não era possível. Cabo Verde estabelece metas mais realistas. Por fim, vamos manter a aposta na eficiência energética e no combate às perdas de energia como vectores chave na redução dos custos tanto para as empresas como para os cidadãos”.

Com base neste novo plano, o governo confirmou a possibilidade de Cabo Verde candidatar-se aos fundos disponíveis no COP 21, mas escusou-se a entrar em detalhes, porque “por não tutelar essa área, não tem dados técnicos para dizer as metas de Cabo Verde a nível de captação de recursos.”

Texto originalmente publicado na edição impressa doexpresso das ilhasnº 899 de 20 de Fevereiro de 2019.

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Autoria:André Amaral,23 fev 2019 11:26

Editado porAntónio Monteiro  em  25 fev 2019 9:34

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