Paludismo: "Precisamos, nesse momento, é de mudar o chip"

Artur Correia
Artur Correia

​Há mais de 20 anos que Cabo Verde está na fase de pré-eliminação do Paludismo. Por isso, o Director Nacional da Saúde defende que o momento é de “mudar o chip” e é isso que está sendo feito pelas autoridades sanitárias, no sentido de evitar que se faça mais do mesmo, com aposta centrada na inovação e na vigilância imunológica. Artur Correia avança ainda que há quase um ano e meio que o país não regista nenhum caso autóctones.

Como tem sido a evolução dos casos do Paludismo nos últimos tempos?

Somos um país altamente vulnerável ao Paludismo, porque temos a presença do vector do paludismo que é o mosquito Anopheles gambiae, e temos pessoas a circularem entre Cabo Verde e zonas endémicas de Paludismo. Quer cabo-verdianos que se deslocam a países vizinhos onde o Paludismo existe permanentemente, quer pessoas desses países que se deslocam a Cabo Verde com o parasita no sangue. E como temos o vector, se o vector não estiver bem controlado, dá origem a um surto ou até a uma epidemia aqui no país.

Ou seja, temos casos importados permanentemente em Cabo Verde e esse desafio enorme que é o controlo da densidade do mosquito vector. Este é o nosso trabalho permanente, manter a densidade do vector a um nível abaixo do nível de risco epidémico. E sempre que há chuvas a nossa vulnerabilidade aumenta porque os mosquitos aumentam. Mas nós aqui em Cabo Verde temos o “saber fazer” suficiente para controlar uma epidemia de paludismo. Se estivermos atentos, com a vigilância epidemiológica a funcionar, como estamos agora, com o controlo vectorial em mãos podemos dar uma resposta muito eficaz. Nós tivemos essa epidemia de 2017, mas nos últimos 5 anos, uma média entre 18 a 28 casos.

Já vai fazer mais do que um ano que estamos sem nenhum caso autóctone. Nenhum caso de transmissão local. Temos casos importados, que é inevitável já que não podemos fechar as fronteiras. Mas como temos uma vigilância muito apertada, temos um controlo vectorial também, que está sendo muito bem monitorizado, só por azar é que poderia haver uma epidemia.

Temos agentes em todas as ilhas para fazer o controlo vectorial, a maior parte das ilhas são ilhas livres do Paludismo. Todas, com excepção das ilhas de Santiago e da Boa Vista, há mais de 50 anos que são ilhas livres do paludismo. Conseguimos manter este estado, que é muito positivo. Nos últimos 20 anos tem ocorrido casos autóctones somente nas ilhas de Santiago, isto é, no concelho da Praia e na ilha de Boa Vista.

Temos tido ganhos, alguma estabilidade...Mas 2017 tivemos mais de 400 casos e 1 morto. O que ainda trava esta luta contra o Paludismo?

As principais medidas de luta são a anti-vectorial e é a vigilância dos casos, isto é, estarmos prontos para detectar precocemente os casos e quando o detectamos, seja importado ou mesmo autóctone, imediatamente actuarmos para manter, para focalizar estes casos no local de origem e impedir a sua disseminação pela população de Cabo Verde. É um desafio que está sendo ganho, estamos a circunscrever a transmissão do Paludismo ao concelho da Praia nos últimos anos, mas a parte do diagnóstico, do tratamento e seguimento também é um dos grandes ganhos de Cabo Verde. Na última epidemia, apesar dos 420 casos tivemos somente um óbito, porque soubemos diagnosticar precocemente e tratar bem rapidamente. Porque somos uma população que não tem nenhuma imunidade contra o Paludismo, somos uma população que não está habituada a ter Paludismo permanentemente. A população comporta-se como se fosse uma população da Europa, por exemplo, que não tem imunidade contra o Paludismo. Quando é assim, quando os casos aparecem podem desenvolver situações gravíssimas rapidamente. Então se não actuarmos rapidamente pode levar à morte. Mas felizmente temos actuado rapidamente e temos evitado estas situações.

Em relação à água e seu armazenamento, que ainda é prática comum?

Temos que distinguir duas coisas em relação ao Paludismo: nós temos mosquitos (para a população é só mosquitos), mas dentro dos mosquitos há aqueles que transmitem o Paludismo e aqueles que transmitem outras doenças,nomeadamente a Dengue, o Zika, a febre-amarela, entre outras. O mosquito de Paludismo não é um mosquito doméstico, digamos assim, não se cria dentro das casas, nos bidons que estão dentro dos quintais, é um mosquito mais rural, que se cria mais ao ar livre, em águas estagnadas expostas ao sol, águas poluídas. Temos que ter em atenção esta bio-ecologia do mosquito para podermos actuar convenientemente na densidade, na capacidade de multiplicação desses mosquitos. Aqui no concelho da Praia, que é o único sítio onde temos tido nos últimos anos Paludismo, os locais de água estagnada permanentemente são poucos. E são todos conhecidos. Só uma falta de atenção é que poderá nos levar a essas situações de epidemia como aconteceu em 2017. Mas são situações que estão sendo controladas, muitas situações dependem das obras da Câmara Municipal, do Ministério do Ambiente, e a Saúde tem o seu papel específico. Não actua em obras, o nosso “negócio” é detectar e tratar doentes e fazer o combate anti vectorial, que é uma luta multi-sectorial e que exige a colaboração de várias entidades como as entidades camarárias, que têm melhorado muito as condições ambientais aqui no concelho da Praia, as autoridades ambientais que também têm colaborado, num “djunta mon” multi-sectorial para podermos manter este estado de não transmissão local.

Nós temos um grande desafio que é a eliminação do paludismo até 2020. Este processo implica que tenhamos zero casos autóctones por ano. É um desafio grande, já disse que temos casos importados durante todo o ano, temos constantemente que estar vigilantes para podermos evitar que a partir desses casos importados aconteça uma transmissão local.

Há mais de 20 anos que estamos numa situação de pré-eliminação, que é ter um caso por mil habitantes. Precisamos nesse momento mudar o chip, é o que estamos a fazer, não fazer mais o mesmo, fazer mais qualquer coisa, inovar, reforçar a vigilância imunológica, reforçar o combate vectorial, controlo vectorial, para evitar que tenhamos casos de transmissão local a partir de casos importados. E há quase 1 ano e 6 meses estamos com zero casos autóctones. Estamos a fazer de tudo para que a gente caminhe nesse sentido.

Como estão os trabalhos de Pulverização?

Nós temos dois ciclos de pulverização intra-domiciliar, nas casas, nas zonas mais vulneráveis. Um vai começar agora, em Maio/Junho.Mais tarde vamos ter o 2º ciclo, que é depois das chuvas, na última semana de Outubro. Assim podemos estar protegidos durante toda a época das chuvas e depois logo a seguir reforçarmos a protecção das. Isto, só a nível de pulverizações nas casas, contra o mosquito adulto. Nós temos também um trabalho de luta anti-larval, contra as formas aquáticas do mosquito, que é permanentemente, que é todos os dias. Temos agentes nas principais zonas onde há colecções de água, onde há água exposta e estagnada, que fazem esse tratamento anti- larval, contra as larvas que se criam nas águas.

Houve já no passado, pelo menos dois casos de ladrões que se fizeram passar por equipa de pulverização para assaltar residências. Há alguma identificação específica para estas equipas?

Sim, as equipas são devidamente equipadas, protegidas e com equipamento próprio. Tem identificação para as populações não serem defraudadas por gatunos que se possam aproveitar dessa situação. Temos todo esse cuidado pessoal devidamente identificado pelos serviços de saúde. Para evitar essa situação a população tem que estar alerta. É claro que nós não podemos estar a desviar a atenção, o foco fundamental da população deve ser ao combate ao mosquito e não misturar isso com gatunos. Podem solicitar a identificação das pessoas, é claro que não vão sozinhos, é uma equipa que vai e quando está numa zona, toda gente já sabe.Mas todo cuidado é pouco, devem estar em vigilância em relação a isso.

E em termos de investigação. Como sabem que os produtos que estão a usar são os melhores?

Como eu disse, neste momento estamos a já mudamos o chip, o chip de pré-eliminação para eliminação da doença e então a vigilância entomológica é uma componente fundamental que está sendo feita regularmente através do Instituto Nacional Saúde Pública, que é um braço do Ministério de Saúde que se ocupa da investigação e tem um laboratório de entomologia . Foi feito para dar essa resposta. Regularmente,temos os dados sobre a sensibilidade dos nossos mosquitos aos produtos que estão a ser utilizados, portanto neste momento temos dados que nos permitem agir com segurança em relação a isso. Mas não só a nível da vigilância da sensibilidade do mosquito ao insecticida. E também o controlo da vigilância no sentido de saber qual é densidade de mosquitos que estamos a ser a cada momento do estudo, para podermos acompanhar e saber se já estamos no limiar epidémico ou não. E isso quer dizer que conhecendo a densidade, se estamos acima ou abaixo do limiar, podemos actuar para baixar ou para consolidar a manutenção da densidade a baixo nível e evitar epidemias. Estamos a ter esses dados e, portanto, todos os serviços estão atentos em relação a isso.

Sabendo que isto é uma luta, mais do que multi-sectorial, que tem que envolver todos, que parcerias têm?

As Câmaras Municipais são os nossos principais parceiros e o Ministério do Ambiente é um parceiro fundamental na luta anti-vectorial. Em Cabo Verde fazemos uma luta integrada que inclui a luta química através dos insecticidas, quer para o mosquito adulto, quer para mosquitos na fase de larvas nas águas. Temos para cada um insecticidas próprios, temos trabalho de saneamento básico a nível das Câmaras Municipais, correcção das colecções de água para não haver águas estagnadas espalhadas, no ambiente. Ainda há alguns desafios, nomeadamente aqui no concelho da Praia. Temos a vala da Várzea, que já melhorou bastante, mas o nosso grande desejo é que se continue os trabalhos para que essa água chegue até ao mar - que é o percurso que a água faz - e evitar que se acumule ao longo desse trajecto no vale da Várzea. Isso vai-nos ajudar muito, aliás foi esse o foco principal que deu origem à última epidemia que tivemos, em 2017. Também temos um outro que vai dar ao shopping da Praia, o vale de Fontom, onde há água que desce da estação de tratamento (ETAR) e onde temos que fazer vigilância permanente. E há todo um trabalho que foi feito também de cobertura de poços, de fazer valas para o escoamento de água devidamente orientadas em toda essa zona que nos tem ajudado muito. A zona de Fontom hoje é uma zona muito melhorada em relação aos riscos de paludismo, isso dá-nos algum alívio e facilita-nos o controlo do mosquito vector nessa zona.

Os insecticidas que usam não contaminam o ambiente?

Os insecticidas que usamos nas águas de bebida de animais e até pessoas, é o larvicida, que é biodegradável e não faz mal aos seres humanos nem aos animais. Desaparece rapidamente no ambiente com o tempo.

Disse que o mosquito é mais da zona rural. Então como é que explica que o foco principal seja a Praia?

Por isso falamos em Praia Urbana e Praia Rural, a Praia sofreu uma urbanização intensa, de melhoria dos bairros, mas o mosquito adapta-se, tem uma flexibilidade bio-ecológica que lhe permite adaptar-se as situações. Por isso é que temos que estar sempre vigilantes. Apesar do mosquito ser, digamos, essencialmente rural, estando num ambiente urbano que já foi rural e adaptado, temos que ter isso sempre em atenção isso, e ver que às vezes nem tudo que está nos livros correspondem a realidade concreta. É um processo de adaptação do mosquito, o mosquito adapta-se. Há mosquitos que picam predominantemente dentro das casas, mas se as casas estiverem a ser tratadas há vários anos com insecticidas podem mudar de comportamento e passar a picar fora da casa. Esse mosquito vector do paludismo, procura sangue humano onde estiver..

Os casos que têm aparecido são os importados, sabendo que muitas vezes a população imigrante mora em condições de grande aglomeração, em que várias pessoas vivem em um mesmo quarto ou casa, como é que vocês trabalham com essa população imigrante?

Sabemos mais ou menos as zonas onde estão concentrados, temos vigilância muito especial nessas zonas. Nomeadamente vigilância epidemiológica no sentido de detectar precocemente os casos febris e tratar rapidamente, e fazer o tratamento focal contra o mosquito na casa e nos arredores. Os casos importados aqui são tratados como se fossem um caso local. Todas as medidas empregues num caso de transmissão local são aplicadas nos casos importados para cerrarmos as fileiras e diminuirmos o risco de transmissão a outras zonas ainda não infectadas. O nosso vector, como dizia, não existe em todas as ilhas de Cabo Verde. Não foi detectado em Santo Antão, São Nicolau, Sal, Fogo e Brava. Está em, Santiago, Boa Vista, Maio e São Vicente. No passado já esteve em todas as ilhas, por isso é que há ilhas receptíveis e não receptíveis ao paludismo. Se não existe o vector pode haver casos importados, mas transmissão local não pode haver. Isso leva-nos a ter uma atenção especial devido a especificidade dessas ilhas em relação ao paludismo.

Com tudo isso, acha então que neste momento já não seria possível acontecer o que aconteceu em 2017?

Tudo faremos para evitar que aconteça o que aconteceu em 2017. Temos um programa ao nível do ministério que se ocupa fundamentalmente deste aspecto para mantermos livre do paludismo e termos zero casos autóctones até 2020. Quando tivermos três anos sem nenhum caso autóctone solicitaremos um processo de certificação da eliminação. O grande desafio é conseguir a eliminação e manter. Um país livre do paludismo tem as suas vantagens. Assim como já estamos livres da cólera, estamos no processo da certificação do sarampo, há mais de 20 anos que não temos nenhum caso de sarampo e uma alta taxa de vacinação.

O que a população pode fazer para ajudar nesta conquista?

Retirar a água estagnada com mais de uma semana, fazer campanhas de sensibilização junto das próprias populações, e pode também autonomamente tratar as águas estagnadas nos arredores das habitações. Proteger as casas com redes nas janelas para evitar que sejam picadas pelos mosquitos. Não há nenhuma doença que possa ser combatida somente pelas autoridades, se não houver o envolvimento, o engajamento e responsabilização da própria população…

Eu acredito na vontade das populações em colaborar. Desde que as campanhas de sensibilização sejam feita correctamente, as populações colaboram para a sua própria saúde.

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Autoria:Sheilla Ribeiro (Estagiária), Sara Almeida,25 abr 2019 9:13

Editado porSara Almeida  em  26 abr 2019 11:41

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