Testes HPV: apostando na prevenção do cancro do colo do útero

PorSara Almeida,2 jun 2019 11:10

Vários países têm vindo, nos últimos anos, a substituir, nos seus programas de detecção precoce de cancro do colo do útero, o teste Papanicolau por um outro mais avançado. Trata-se do chamado teste HPV e permite detectar infecções de alto risco pelo Vírus do Papiloma Humano (HPV), que causa o cancro, antes que este apareça. Este teste de diagnóstico (não só precoce como preventivo) está também já disponível em Cabo Verde, mas ainda não é utilizado nos rastreios nacionais. Hugo Prazeres, investigador na área da Detecção Precoce do Cancro, explica em que consiste esse teste HPV e fala, em particular, do “Teste da Mulher” criado pela startup I&D da qual é co-fundador.

O cancro do colo do útero continua a ser o que mais mulheres mata em Cabo Verde. Por ano, mata duas vezes mais do que o cancro da mama (embora este seja o que mais mulheres afecta). Medidas estão há anos a ser delineadas para tentar mitigar estas mortes, mas a lista de óbitos continua a mostrar parcos resultados.

Recentemente foi reiterada a introdução da vacina contra o HPV para “breve” no calendário de vacinação, um investimento na ordem dos 200 mil contos. Entretanto, tem havido alguma aposta no rastreio, sem que no entanto se tenha ainda conseguido implementar um programa estruturado, sistemático, contínuo e massificado.

Precoce e preventivo

No rastreio do cancro do útero, Cabo Verde continua a recorrer essencialmente ao Papanicolau (citologia). E embora este teste seja importante para identificar, concretamente, as lesões, a nível de detecção precoce o mundo está a voltar-se para os testes HPV.

Isto porque, como explica o doutor em biomedicina, Hugo Prazeres, a citologia Papanicolau, “destina-se a detectar sob microscópio lesões nas células da mulher quando ela já está infectada pelo HPV”. Ou seja, “é um teste indirecto que detecta alterações morfológicas nas células, quando elas já estão infectadas”. Mais ainda, “que não distingue quais são as infecções que vão dar origem a cancro daquelas que serão lesões benignas”.

Já os testes HPV detectam não só a presença do HPV, um vírus transmitido, como qual o tipo de HPV presente no tracto genital. É que nem todos os 40 tipos de HPV existentes têm potencial para provocar o cancro. Na verdade, desses 40, só 14 é que são vírus chamados de alto risco.

Assim, a vantagem desses testes, nomeadamente do “Teste da Mulher” (ver caixa), “é que detecta o agente causador, desde o início da infecção e não, tardiamente, lesões. Ou quando as células já estão infectadas. Ou ainda quando elas já são visíveis pela colposcopia a olho nu. É portanto um teste que pode detectar doenças numa fase mais precoce, porque testa a presença do vírus”.

Custo vs benefício

Quanto aos custos, a curto prazo, admite o investigador e empresário, o teste é mais caro do que o Papanicolau uma vez que este último tem “uma intensidade tecnológica baixíssima”.

“No papanicolau o componente mais dispendioso é, provavelmente, o técnico ou o médico que precisa de fazer a observação ao microscópio”, aponta.

Já o teste HPV, que é feito em contexto laboratorial, envolve reagentes e equipamentos com algum nível de sofisticação. Mas são investimentos, que no seu entender, compensam: “o teste HPV tem maior sensibilidade e, quando é negativo, tem um valor preditivo negativo muito alto. Quer dizer que se uma mulher não tiver HPV, ela de certeza que não vai ter cancro pelo menos nos 5 anos seguintes. Então, nos vários programas de rastreio o teste de HPV é repetido de 5 em 5 anos. Por seu lado, o teste Papanicolau por ter menor sensibilidade, que as vezes chega a ser 50, 60%, deve ser repetido anualmente”.

Vendo por este prisma, o teste HPV acaba pois por ser mais barato a médio e longo prazo.

Ademais, e tendo em conta que há uma relativamente baixa taxa de adesão ao Papanicolau, há imensos custos que depois terão de ser comportados no tratamento de doenças em estado mais avançado.

“Em termos de rastreio e no global, em termos de eficácia do investimento que se põe ao serviço da prevenção, e do combate ao cancro do colo do útero e da redução da sua mortalidade, provavelmente o teste HPV tem uma razão custo-benefício maior do que o teste Papanicolau”, contabiliza o especialista.

Combinação dos dois testes

Em Cabo Verde, as acções de rastreio, como referido, não usam o teste HPV. Os rastreios são então feitos geralmente por Papanicolau (e mais pontualmente, colposcopia). Contudo, por indicação médica e em casos muito específicos, o teste é realizado – é feita a colheita que é depois enviada para Portugal para análise.

Entretanto, e como também já dito, a tendência no mundo ocidental, ao nível dos programas de detecção precoce é de transição para o teste HPV, precisamente “por se ter demonstrado que o teste Papanicolau tem uma sensibilidade muito baixa e uma necessidade de repetição muito alta para ser um bom teste de rasteio”.

Essa transição, explica ainda Hugo Prazeres, tem também a ver com uma certa simplificação dos testes HPV e baixa de preço dos seus reagentes. “Tudo isso se tornou mais barato e acessível nos últimos anos, porque essa tecnologia entretanto passou a ser de domínio mais amplo”.

E “hoje em dia não se contempla outra forma de estudar o cancro do colo do útero q não seja estudando aquele que é realmente o seu agente causador. Todos os outros métodos são métodos indiretos de detectar o cancro do colo do útero”, resume.

Por outro lado, é certo que há outras infecções, como a candidíase, que só são detectadas pelo Papanicolau (estão fora do espectro do teste HPV, como o próprio nome indica).

“Quando se faz uma consulta junto de um profissional de saúde ele tem oportunidade de pesquisar não só o HPV e fazer o teste Papanicolau mas também, através da observação ao microscópio detectar algumas outras alterações. Portanto, [o Papanicolau] tem essa vantagem”, reconhece Hugo Prazeres.

Entretanto, a par com o teste HPV é importante, caso se identifique persistência de infeção dos serotipos de alto-risco, fazer a citologia (Papanicolau) para “ver se esse vírus já provocou alguma alteração a nível da célula, porque só com o HPV, não se vai saber se a célula já foi alterada ou não”, destaca por seu lado a oncologista Hirondina Borges. O rastreio deve contemplar os dois exames, como “está recomendado internacionalmente”, frisa a médica do HAN, contactada pelo Expresso das ilhas.

Vacina não substitui exames

O que têm em comum os países que se espera conseguirem vir a “eliminar” o cancro do colo do útero na próxima década? Um programa de vacinação contra o HPV, mas também programas de rastreio para detecção precoce eficiente. É que apesar da Vacina ser fundamental nesta luta contra o cancro tem limitações várias, que obrigam a uma aposta contínua no rastreio e detecção precoce. Ou seja, a vacina, embora seja um investimento que vai salvar imensuráveis vidas, não substitui os exames.

Primeiro, há gerações não cobertas por um “método eficaz para prevenir o cancro do colo do útero”. Depois, e isso tem de ser frisado, a vacina não protege completamente. Há duas vacinas disponíveis, sendo que ambas protegem contra dois dos 14 tipos de vírus de alto risco (o tipo 16 e o 18). Os mais comuns. Uma delas protege ainda contra outros dois tipos, que não causando cancro, provocam várias lesões benignas. É pentavalente. Há já uma versão da vacina, ainda não amplamente disponível, que protege contra 9 serotipos, mas mesmo esta deixa a descoberto cinco tipos de alto risco.

Assim, neste momento, as meninas vacinadas (a vacina só se mostra eficiente quando tomada antes do início da vida sexual) só estão protegidas contra alguns dos riscos que causam a doença. Falando em percentagens, se é verdade que em 100% dos casos de cancro do útero está presente o HPV, as vacinas disponíveis só protegem contra cerca de 70% dos cancros.

“Portanto, a recomendação é que qualquer programa de vacinação seja também acompanhado por um programa de rastreio”, aponta Hugo Prazeres.

Maiores de 30

A maioria dos casos de cancro cervical, a nível mundial ocorrem em mulheres entre os 40 e os 50 anos. Etestes HPV são aconselhados para mulheres a partir dos 30 anos, uma recomendação que tem a ver como ciclo de vida do vírus.

Isto porque, “quando os vírus infectam as células, na maior parte das vezes, o nosso sistema imunitário detecta que há uma componente não própria nessas células e reage, tal como acontece frequentemente com outras infecções por vírus, por exemplo, a gripe. 90% das mulheres reagem à infecção, e o cancro aparece nos 10% das mulheres cujo sistema imunitário não consegue reagir”, explica Hugo Prazeres.

Então, a partir do momento em que as mulheres iniciam a actividade sexual, começam a dar-se as infecções por HPV, “mas com o tempo a maioria das mulheres vai espontaneamente resolvendo estas infecções”. Com uma certa idade, se a mulher continua a ter infecções é porque “o seu sistema imunitário não as conseguiu eliminar e são essas infecções persistentes, prolongadas, que depois dão origem ao cancro do colo do útero”, explica o investigador.

E para prevenir eficazmente o cancro, é portanto, necessário ir à sua origem, ao seu agente causador: o HPV.

Teste da Mulher

O teste da Mulher é um teste HPV da Infogene, empresa sediada na Incubadora – Instituto Pedro Nunes (IPN), da Universidade de Coimbra, e da qual Hugo Prazeres é co-fundador. Trata-se de um teste HPV que traz como grande inovação o facto de poder ser a própria mulher a fazer a colheita da amostra para análise.

“Normalmente um teste HPV é feito com uma amostra colhida por um procedimento ginecológico. No nosso caso, como o vírus está presente no fluído vaginal, podemos detectar o vírus nesse fluído. Portanto, não precisamos de fazer uma colheita exactamente no colo do útero. Basta-nos obter uma amostra do fluído vaginal. Isso permite então que a própria mulher possa fazer uma colheita, porque é uma colheita que não tem que ser anatomicamente especializada”, explica.

Ou seja, basta obter uma amostra de fluído vaginal pois se o vírus estiver a causar uma infecção, ele estará presente em todo o fluído, o investigador que em 2011 recebeu o Young Investigator Award da European Society of Human Genetics.

Além da comodidade, o facto de poder ser um auto-exame aumenta as probabilidades de as mulheres fazerem o rastreio. Isto, porque por um lado não requer recursos médicos locais, que às vezes escasseiam. E por outro, porque combate uma certa resistência, ou pelo menos fraca adesão, como se verifica no teste Papanicolau. Estudos comprovam que o facto de poder ser feito um rastreio através da autocolheita tem grande aceitação no seio das mulheres.

Os ganhos são elevados, pois como se sabe em muitos países, Cabo Verde incluído, uma das razões para a elevada taxa de mortalidade do cancro do colo do útero é ser diagnosticado em fase muito avançada, uma vez que uma grande parte da população feminina não tem por hábito de fazer exames ginecológicos regulares. E muitas vezes falham também as oportunidades de os fazer.

Em Portugal, país origem deste patenteado “teste da Mulher”, a utente não necessita de qualquer contacto com os técnicos de saúde. Pode receber o teste em casa, por correio, fazer a autocolheita e enviar a amostra também por correio, para o laboratório, recebendo depois os resultados pelo mesmo meio. Se o teste for negativo, a probabilidade de desenvolver cancro nos cinco anos seguintes é mínimo. Por precaução, aconselha-se a realização de um novo teste em três anos.

Se o teste for positivo, isso indica que a mulher é portadora de uma infeção por HPV de alto risco e tem um risco acrescido para o desenvolvimento de cancro do colo do útero. Assim, embora a maioria das infecções seja eliminada espontaneamente pelo sistema imunitário, aconselha-se a consulta a um médico ginecologista para uma avaliação complementar mais aprofundada.

São Tomé e Príncipe foi um dos países onde já foi aplicado o Teste da mulher, em um rastreio de base populacional realizado numa parceria entre a Infogene e a Associação Marquês de Valle Flor.

Os resultados aí obtidos permitiram comprovar uma elevada incidência de vírus e uma prevalência do HPV tipo 54 (o que não acontece na Europa).

“Os testes de HPV normais e aquele que nós desenvolvemos detectam todos os tipos de alto risco de HPV e, portanto, permitem fazer uma caracterização epidemiológica”. E este pode ser importante no sentido de se proceder a “um alinhamento epidemiológico”, nomeadamente termos de desenho das vacinas.

Além de Portugal e São Tomé e Príncipe, o “Teste da Mulher” é também usado na Suécia.

Quanto a Cabo Verde, a Infogene, através da agência Lima Limão, procura parcerias para a distribuição local do kit, sendo que depois as amostras serão enviadas para análise em laboratório central.

Texto originalmente publicado na edição impressa do expresso das ilhas nº 913 de 29 de Maio de 2019. 

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Autoria:Sara Almeida,2 jun 2019 11:10

Editado porJorge Montezinho  em  3 jun 2019 8:09

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