Desastre da Assistência foi há 72 anos

PorExpresso das Ilhas, Inforpress,20 fev 2021 13:54

Completam-se hoje 72 anos do Desastre da Assistência, ocorrido na Cidade da Praia, e que ceifou vida a centenas de pessoas, que aguardavam pela distribuição de refeições quentes.

O Desastre da Assistência aconteceu a 20 de Fevereiro de 1949, precisamente no sítio onde fica situada, hoje, a sede da empresa Cabo Verde Telecom, na Várzea.

De acordo com a história, a queda do muro do edifício dos Serviços Cabo-Verdianos de Assistência deu-se por volta do meio-dia, matando de imediato centenas de pessoas que aguardavam pela distribuição de refeições quentes.

Dados oficiais apontam para 232 vítimas, mas há quem estime que tenham sido muito mais, “no mínimo, acima de 300”.

Esta tragédia está fortemente associada ao período de seca que as ilhas de Cabo Verde atravessavam e, no caso de Santiago, milhares de famintos vinham do interior para a capital em busca de algo para comer, sobretudo mulheres e crianças.

Calcula-se que mais de três mil pessoas reuniam-se diariamente nesse espaço, na Várzea, para receber alimentos.

Relatos apontam que inúmeros mortos foram sepultados em valas comuns no Cemitério da Várzea, embrulhados em lençóis, por falta de caixões.

Para o historiador António Correia e Silva, o Desastre da Assistência é o “momento extremo de sofrimento” na história do País, defendendo a criação de um projecto museológico para promover a divulgação e valorização das fomes em Cabo Verde.

António Correia e Silva fez estas considerações em declarações à Inforpress, há um ano,no âmbito de mais um aniversário do Desastre da Assistência.

“Viveu-se uma fome que é uma tragédia e em cima dessa tragédia viveu-se uma nova tragédia, portanto é o momento de extremosofrimento e suas consequências são amplas na história de Cabo Verde”, declarou considerando ainda que o desastre em apreço é apenas o “exagero” e o extremo daquilo que acontecia um pouco por todo o País.

Para Correia e Silva, esta efeméride é “pouco conhecida e lembrada pelos cabo-verdianos”, porque, disse, as informações sobre este acontecimento foram “censuradas”, tendo em conta que embaraçou imensamente o então governo de Portugal.

“As informações sobre este acontecimento foram informações censuradas porque isto embaraçou imensamente o então governo de Portugal, porque a seguir a Segunda Guerra Mundial com o nascimento da ONU, Declaração dos Direitos Humanos, Portugal fez um máximo de esforço para esconder este facto e isto criou condições propícias para se instalar o silêncio”, indicou.

Lamentou, por outro lado, não ter havido até a presente data grandes investigações académicas sobre esse acontecimento que é mal conhecido ainda que tenha havido esforços para a sua divulgação, defendendo neste sentido a promoção de acções que incentivem a preservação deste período.

“As novas gerações estão convencidas de que a fome em Cabo Verde é a fome de 47. Há muitas fomes em Cabo Verde tão violentas quantas a de 47, portanto um museu é capaz de mostrar e honrar o sofrimento dos cabo-verdianos ao longo do tempo” sugeriu, apontando que seria um museu com impacto que ajudaria na formação da consciência cívica no Cabo Verde moderno.

No entender do historiador, torna-se necessário os cabo-verdianos conhecerem melhor o desastre como um acontecimento importante na história do arquipélago, realçando que a partir desse período há uma nova história em Cabo Verde em que o próprio Estado colonial passa a encarrar de outra forma a seca e as fomes no país.

O antigo primeiro-ministro José Maria Neves lembrou, na sua página oficial do Facebook, os 72 anos do Desastre de Assistência, enfatizando que hoje as“fomes já não metem medo” aos cabo-verdianos, que vivem num País “independente, democrático e emergente”.

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Autoria:Expresso das Ilhas, Inforpress,20 fev 2021 13:54

Editado porSheilla Ribeiro  em  21 fev 2021 13:42

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